Os olhos se cruzaram quase sem pretensão. Entretanto, havia um motivo que desconhecia para que isto acontecesse. Anos mais tarde ela entenderia porque.
Eram sempre os dois últimos tempos de aula e mal tocava o sinal todos saiam meio que desesperados porta a fora ansiando pela liberdade de ganhar a rua. Ela arranjava desculpas e ainda ficava na sala até todos sair. Depois, o coração aos pulos, pegava os tocos de giz e guardava-os depressa na mochila.
Em casa, depois do almoço, deitava na cama em seu quarto cor-de-rosa e olhava como troféus os pequenos e coloridos pedaços de giz. Trancava-os numa caixa de madeira junto com os poemas e as cartas de amor e escondia no fundo do armário escuro a caixa e provavelmente um sentimento que não sabia definir, assim como a impossibilidade de vivê-lo.
Ao final do ano chorou muitas noites abraçada em seu travesseiro confidente a mudança de escola, a separação dos poucos amigos que optaram por outros cursos. Não se sentia preparada para viver outra vida além daquela que se habituara a viver naquele ano de descobertas.
Muitos anos depois voltou a velha escola. Pouca coisa havia mudado. A pretexto de matricular um filho que não tinha, pediu para olhar as salas.
O tempo não havia deixado de existir em sua memória e voltava enquanto andava pelo corredor e ouvia o alarido dos adolescente em fúria, correndo para aproveitar o intervalo entre as aulas, ou o recreio no pátio.
Entrou em sua antiga sala. As mesas organizadas umas atrás das outras. Sentou-se. Fechou os olhos e como mágica ouviu o som do giz no quadro negro. A mão ágil da professora deslizando, transformando formulas químicas em poesia.
De olhos fechados levantou-se, caminhou devagar até o quadro. Tentou imitar aqueles gestos como se em seus dedos houvesse não um giz mas uma batuta com o poder de reviver por aquele som o sentimento que sem saber nascera ali pela primeira vez.
Depois abriu os olhos devagar. A mão tocando o quadro negro. Nada entre seus dedos e nem no chão qualquer sinal da poeira de um único giz.
Mesmo assim ainda sentia o mesmo amor que agora podia compreender sempre que outros olhos, mesmo sem pretensão cruzavam com os seus.
(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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Esse conto me suga, todas as vezes que o o leio me emociono. Ele me faz recordar um belo passado. Perfeito
ResponderExcluirObrigado por inspirar-me!!!!
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