segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um vicio

Mal acordo, nem abro os olhos e seu nome me vem rodando na escuridão da mente descendo pelo coração até parar pulsando em meu pau inflado.
Não a vejo mais, apenas falo seu nome e tudo aquilo que já havia jogado fora volta. Principalmente em meu corpo. Volta a emoção dos beijos, do toque das mãos no cinema, do abraço quando a deixava entrar em casa e eu ficava ainda olhando a porta se fechar na esperança de que pudesse voltar para um último beijo.
Antes, a espera do ônibus, o último que passava a meia-noite era feita de vigorosas lembranças, dos sons das palavras românticas, dos olhos dela em fogo, de promessas de um amor imortal. Agora é como um bonde da morte para levar os farrapos humanos ao inferno de suas solidões em quartos baratos pelos subúrbios. Sim, desnorteado ainda voltei a casa dela, escondido, somente para vê-la por momentos.
A via chegar com outros homens. Uns até entravam agora, direto, sem convite, sem rodeios.
Durante uns três anos fiz esse ritual. Depois pegava o ônibus da meia noite e dividia meus cacos com os outros fantasmas.
Nos últimos dois mêses antes que parasse de ir até lá comecei a ter a companhia de um cão em minhas esperas. Era um vira-latas branco, encardido, de pelo ralo, magro que me olhava nos olhos e depois de um tempo se deitava quase a meus pés.  Quando ia para o ponto do ônibus ele ia comigo e depois que eu partia o via acompanhar a ida do ônibus com um olhar estranho. Nunca latia ou abanava o rabo. Apenas ficava ali me olhando.
Naquela última noite do mês de julho a vi chegar de braços dados com uma mulher. Trocavam carinhos. Entraram rindo. Ai veio uma chuva fraca e eu olhei para o cão deitado. Ele olhou em meus olhos e depois na direção da porta dela e depois novamente para mim.
Foi algo totalmente estranho. Compreendi de súbito algo que já sabia e sempre faria parte do que eu era, porém naquele momento não havia mais nenhuma necessidade de existir.
Atravessei a rua e parei em frente a porta. Durante alguns minutos, de olhos fechados, revivi quase todas as lembranças que eram possíveis sentir em meu corpo. Quando terminei ouvi o ônibus passar.
Virei-me e o cão estava ali, sentado nas patas traseiras me esperando. Aproximei-me dele e toquei de leve sua cabeça molhada. Ele fechou os olhos e deu, pela primeira vez um leve latido. Levantei a gola da jaqueta e fomos andando, juntos, para minha casa.
Já não pensava mais no meu último gozo que a chuva mais forte agora, levaria com todas as lembranças pela calçada para o esgoto do mundo.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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