Era casado. Amando ou não sua mulher continuava casado.
Porém, havia conhecido aquela menina na boate. Não uma garota de programa, mas uma dançarina
que exibia seu corpo todas as noites naquela competição de olhares masculinos
cujo indicie de aceitação era representado por gorjetas que prendiam em suas
minúsculas calcinhas.
Ela fazia seu trabalho com satisfação. Na infância
havia feito balé clássico, passando pelo jazz, balé moderno, chegando na adolescência a trabalhar
como assistente em uma academia de dança, até ser sumariamente demitida por não
aceitar as cantadas do dono. Era diferente das outras meninas que se contorciam
num jogo provocativo, sem erotismo, apenas com o intuito de chamar atenção para
o corpo. Quase todas as dançarinas não a viam com bons olhos.
Ele fora levado por colegas do trabalho que
preenchiam o fim do expediente em excursões a inferninhos, em boates de
terceira categoria, onde podiam sentir-se menos vazios tomando o uísque
falsificado como se fosse um verdadeiro escocês.
Naquela primeira noite em que esteve lá, viu-a
exibir-se numa dança flamenca. Ficou hipnotizado pelos movimentos firmes e
sensuais marcados pelo sapateado forte, quase marcial. O espalmar das mãos
soando como tapas em seu rosto. E enquanto dançava, despia-se sensual. Parecia
ignorar que estava num lugar tão deprimente, sendo observada por homens
horríveis. Como ele próprio se achou naquele momento diante de tanta beleza e
sensualidade.
Ela os empurrava para um abismo de sensações confusas,
patéticas, de desejos promíscuos, insanos, compartilhados pelo silêncio de uma
plateia hipnotizada que lhe doava a cada passagem pela plataforma as notas por
seu espetáculo. Ela não as recolhida, ao
contrário, as ignorava, despertando a ira das outras meninas pelo pouco caso
que fazia com algo tão importante e necessário a elas, afinal, era por isso que
dançavam. Essa era a principal diferença
entre elas: a arte sendo engolida pelo
capitalismo.
Quando voltou de madrugada para casa estava
diferente. Não era mais o mesmo homem, não via o mundo a sua volta como antes.
Sua vida era um amontoado de desculpas para justificar seu fracasso diante de
tantos projetos inconclusos. Olhou a mulher nua dormindo abraçada ao
travesseiro. Sentiu-se o pior dos canalhas pelo que viveu na boate vendo a
mulher dançando, expondo-se a todos ao mesmo tempo em que os ignorava
solenemente.
Saiu do banheiro nu e deitou-se ao lado da mulher.
Quis abraça-la e beija-la com um amor que subitamente sentia em seu corpo.
Admirou a beleza daquele corpo esplendoroso apesar dos dois filhos, da rotina
domestica e de um emprego de meio expediente que lhe fazia feliz.
Levantou-se. Rodou pela cama e parou diante da
mulher que dormia.
E ali, na madrugada, sem qualquer motivo, dançou
feliz, como uma certa menina de boate.
(A orgia dos cães)
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