terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PERVERTIDA TRINDADE
            Chegou pouco antes do anoitecer. Embora mais cansado do que da última vez, ficou contente de ter chegado. Aquela seria a última vez, dizia a si mesmo. Era o  trigésimo sétimo ano que voltava com a mesma promessa.
            Retirou a mochila das costas e abraçado a ela abaixou-se. O som da cachoeira parecia ainda ser o mesmo. A poucos passos viu a grande pedra redonda, como uma daquelas camas de motel. Olhou ao redor. Parecia que nada, absolutamente nada havia  mudado no lugar. A não ser pela lua que estava cheia. Abriu a mochila e retirou a garrafa de vinho vazia e o velho gravador cassete e o colocou sobre a pedra. Introduziu a fita e apertou o play.  Ajustou o volume e quando os primeiros acordes de “The King will come” do grupo Wishbone Ash tocou, a emoção veio de súbito e quis sair por seus olhos em forma de lágrimas. Apertou os olhos e as deixou cair junto com as lembranças.

            Apesar da música alta que saia do gravador k-7 ainda ouvia um ou outro pássaro cantando enquanto a sua volta a mata densa escurecia fechando a pequena trilha como se uma porta fosse se trancando. Daqui a pouco seria escuridão total apesar da lua crescente. A água da cachoeira estava agora bem mais fria e ele resolveu sair. Pulou por sobre as pedras, o corpo tremendo de frio, o pau recolhido, as gotas de água pingando de seu cabelo cacheado numa quase tortura.
            Elas estavam de pé. Uma tinha descansando a sua frente uma daquelas sacolas grandes que os marinheiros usam quando vão embarcar. A outra tinha uma mochila enorme nas costas.
            Assustado, instintivamente cobriu o pau com as mãos úmidas o que lhe provocou um rápido arrepio. A que tinha a mochila as costas estava com um grande chapéu e lembrou de imediato uma cantora baiana com seus cabelos encaracolados. A outra, apesar do sorriso levantou o braço esquerdo com o punho fechado até a altura dos ombros na clássica saudação dos Panteras Negras. De alguma forma ela lembrava uma ativista negra perseguida pelo governo americano.
            “Cara, muito legal esse som. Deu pra ouvir de longe.”  Disse a ativista.
            “Opa, desse modo daqui a pouco vamos ter um bando de gente por aqui” Brincou ele.  
            “Tem problemas  ficarmos aqui essa noite? Iremos embora amanhã” continuou ela.
            Ele levou algum tempo para responder, tentando não tremer tanto de frio.
            “Podem, tem espaço a bessa”.
            “Como esta a água, muito fria?” Perguntou a que parecia com a cantora.
            “Tá fria, mas tá boa. O problema é quando a gente sai”.
            Sem a menor cerimonia a ativista tirou a roupa e caminhou pelas pedras até a cachoeira. Apesar da noite já ter caído ele podia ver claramente a silhueta negra num bailado ágil sobre as pedras. A cantora abriu a mochilona e pegou duas toalhas. Depois ficou nua. O corpo branco fazendo contraste com a escuridão.
            Enquanto se secava olhava as duas se banhando. Riam. Em determinado momento achou tê-las visto se beijando.  Apesar do frio, retirou a toalha, ficando nu novamente e dessa vez começou a tocar no pau para que ele voltasse ao tamanho original. Depois improvisou com algumas pedras uma fogueira. Quando elas saíram abraçadas da água e tremendo de frio ele mostrou as duas latas e perguntou:
            “Tenho sardinhas e apresuntado, o que preferem?”
            “Uau! Vamos ter um banquete hoje!” exclamou a cantora.
            “Temos salsicha, biscoito e metade de uma garrafa de vinho.”
            Embora nus, agiam com naturalidade, porém a cantora não deixava de olhar para o pau dele. Além do frio o tesão eriçava os bicos dos seios dela.
            “Pode parecer doideira, mas não posso deixar de falar que você é a cara de uma ativista americana presa. Ainda mais quando levantou o punho fechado.”
            “Quanta honra ser comparada com uma ativista! Então a partir de agora serei a ativista! .”
            “ E eu, pareço com quem?”  Perguntou cantora.
            “Você me lembrou aquela cantora baiana com esse cabelão todo!”
            “ Então agora você será a cantora baiana! E você cara, me lembra um ator de novelas.”
         “Pô bicho, não vejo novela.”  Ele respondeu olhando os seios da cantora e seu pau começou a querer subir. Rapidamente puxou a mochila para frente e ficou procurando algo. Por sorte achou a metade do baseado. Acendeu na fogueira.
            “Tão afim?” Perguntou depois de dar uma bela puxada e estender o baseado na direção delas.
            Forraram as toalhas sobre as pedras e sentaram. A ativista pegou o baseado e o chupou fundo, depois passou para a cantora que fez o mesmo.
            “Tem mais ainda?”  Indagou a ativista.
            “Dá pra fazer uns quatro com o que tenho”.
            Todos sorriram.
            Quase no fim do baseado a cantora se levantou e começou a dançar. Os braços ao longo do corpo como pêndulos, os olhos fechados, a cabeça indo de um lado a outro devagar, como se seu cérebro estivesse solto dentro da cabeça. Os seios pareciam mais volumosos e os mamilos estavam deliciosamente eriçados.
            Ele se levantou balançando a cabeça para frente e para trás, os ombros se alternando num movimento sincronizado e mal se aproximou dela seu pau cresceu.
            A ativista chupava a bagana que lhe queimava a ponta dos dedos e já de pé colocou o que restava do baseado na boca dele que chupou devagar. Ela aproveitou e pegou-lhe o pau e começou a apertá-lo. Instintivamente ele a enlaçou pela cintura e num beijo soltou em sua boca a fumaça que retinha na sua.
            A fita havia sido gravada inteira com a mesma música e durante aquela primeira meia hora em que a fita rodou dançaram, se beijaram, se tocaram. Depois viraram a fita enquanto enquanto alguém preparava outro baseado. Ele as levou para a grande pedra e se deitou depois de uma longa tragada. O pau duríssimo.
            A ativista sentou-se sobre ele e desceu devagar. A outra veio e ficou de pé, o sexo na cara da ativista. Ele alisava as pernas da cantora. Depois de um tempo a ativista se levantou e foi a vez da cantora  sentar-se no pau dele enquanto a ativista sentava-se sobre o peito dele com o sexo  enfiado em sua cara.  Elas  se alisavam, se beijavam, os seios mais do que empinados se roçando.
            A ativista foi até o gravador e virou a fita novamente. Depois preparou o terceiro baseado vendo a cantora de quatro sentindo o pau dele entrando forçado, espremido, enquanto uivava para a lua brilhante e crescente. Ela se aproximou e beijou-lhe a boca, mas ela continuava uivando. Ele também começou a uivar. Logo depois a própria ativista aderiu aos uivos e montou na amiga como se fosse uma égua.  Com uma das mãos puxava-lhe os cabelos para trás esfregando a xota molhada em suas costas. As mãos dele se alternavam em seus ombros, seus quadris e seus seios. Ela se curvava e deixava a outra sorver o baseado, depois puxava um pouco e virando-se punha o cigarro nos lábios do rapaz. Uma das mãos dele tentava alcançar a vagina da amazona cada vez mais alucinada. E conforme ela puxava os cabelos da cantora mais ela empinava o corpo fazendo com que o pau entrasse forte, rasgando-a.
            Em movimentos frenéticos, insanos, de seus corpos fluía a parte animal do sexo que a sociedade católica represava. Os uivos lancinantes eram um claro desafio as leis sociais que ali não precisavam seguir, que ali não precisavam burlar em músicas, em espetáculos. Naquele momento era proibido proibir que seus instintos se calassem.
            A ativista curvou o corpo em direção a ele, puxando pelos cabelos a cabeça da outra mulher. Com a outra mão puxou-o para si, a boca procurando a boca do rapaz que mantinha quase que a mão dentro do sexo dela. A ativista foi a primeira a gozar. O corpo tremeu, contorceu-se e despejou sobre a outra um muco viscoso e abundante. A cantora gozou em seguida, espalhando pelo ventre o liquido que lhe descia pela barriga. Por fim ele gozou, após um longo espasmo deixou o corpo pender para trás.
        Ele acordou sobre a pedra em posição fetal. O corpo todo parecia ter sido moído ou desmontado e montado de modo errado. A cabeça doía e seus olhos ardiam com a claridade da manhã. Instintivamente procurou a água que corria próxima a pedra redonda. Lavou o rosto com a água fria. Com dificuldade conseguiu sentar-se. Olhou ao redor e viu que estava sozinho. A consciência foi voltando. Será que tudo foi um sonho, pensou. Mas logo sentiu em sua perna o gozo ressecado. Não, não havia sido um sonho. Mas onde estavam elas?
            Depois do mergulho na água gelada sentiu-se revigorado. Foi até suas coisas e encontrou um pedaço de papel em que tentaram escrever um bilhete.
            “Bom demais te conhecer. Valeu pela pervertida trindade que fizemos. Te amamos. Cantora e Ativista. Beijos.  PS. Levamos o último baseado mas deixamos um gole do vinho pro café da manhã”.

            Ele acordou e sentiu a garrafa de vinho com o papel dentro em seu peito. Sabia de cor aquelas palavras, porém agora, depois de tanto tempo era hora de deixar aquela boa lembrança envelhecer. Ir-se. Começava a clarear.
            Escolheu um bom lugar e cavou o mais fundo que pode. Olhou a garrafa pela última vez e abraçou-se a ela de olhos fechados. Depois a abriu e colocou dentro quatro baseados, como uma espécie de oferenda. Beijou-a e com lágrimas nos olhos a pós dentro do buraco que cobriu pacientemente com a terra.
            Recolheu suas coisas. Antes de sumir pela trilha parou e olhou para a cascata que descia atrás da grande pedra redonda. E por entre as árvores o sol iluminava a pedra que mais parecia um altar.
            Enquanto descia pelo caminho íngreme e difícil enganava-se pensando que seria fácil esquecer a pervertida trindade que viveu naquele santuário.
            Lembranças não se apagam, morrem conosco.

(PERVERTIDA TRINDADE  / IVO LINHARES)
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