A Lua estava redonda, brilhante e bela. Flutuava sozinha sem nenhuma estrela ao seu redor. Eu a olhava viajando em seu brilho, deixando minha mente desaparecer por segundos para retornar mais calma, mais aberta. Compreendia agora coisas que estavam atoladas em mim durante aqueles anos em que esqueci o que era viver a minha vida. Eu era apenas um homem desmemoriado, separado de sua alma, um viajante que não precisava chegar a lugar algum, pois o que importava era continuar andando, indo.
Tinha agora, descoberto o amor. O amor era uma coisa que me doía no corpo, fazia minha cabeça explodir em sentimentos incompreensíveis que a boca punha para fora em palavras atropeladas, desconexas, inapropriadas. Esse amor era confuso, quase tosco, espectro de poucas cores, como as figuras pintadas em cavernas por seres primitivos.
Só a Lua me redimia de minha própria escuridão. Somente ela com seu brilho de prata me puxava para fora das ilusões, dos buracos em que me escondia, infiltrando por meus olhos o segredo das marés que só os pescadores mais experientes conhecem.
Só a Lua não tinha o rosto da mulher que eu inventava olhando as nuvens negras do entardecer para entreter os sonhos de infelicidade, de tristeza de um adolescente tolo que compunha versos para ninguém.
Mas na Lua de agora brilhava um rosto, um olhar. Também pulsava um medo, falsos desejos e pequenas escaramuças, intrigas contra si mesmo para continuar a ser infeliz.
Ela me abraçou por trás. Os seios duros e quentes furando minha pele. Fechei os olhos e ainda assim via a Lua redonda, brilhante e bela.
Porém, havia agora uma estrela.
(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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