segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Na poeira do giz

Os olhos se cruzaram quase sem pretensão. Entretanto, havia um motivo que desconhecia para que isto acontecesse. Anos mais tarde ela entenderia porque.
Eram sempre os dois últimos tempos de aula e mal tocava o sinal todos saiam meio que desesperados porta a fora ansiando pela liberdade de ganhar a rua. Ela arranjava desculpas e ainda ficava na sala até todos sair. Depois, o coração aos pulos, pegava os tocos de giz e guardava-os depressa na mochila.
Em casa, depois do almoço, deitava na cama em seu quarto cor-de-rosa e olhava como troféus os pequenos e coloridos pedaços de giz.  Trancava-os numa caixa de madeira junto com os poemas e as cartas de amor e escondia no fundo do armário escuro a caixa e provavelmente um sentimento que não sabia definir, assim como a impossibilidade de vivê-lo.
Ao final do ano chorou muitas noites abraçada em seu travesseiro confidente a mudança de escola, a separação dos poucos amigos que optaram por outros cursos. Não se sentia preparada para viver outra vida além daquela que se habituara a viver naquele ano de descobertas.
Muitos anos depois voltou a velha escola. Pouca coisa havia mudado. A pretexto de matricular um filho que não tinha, pediu para olhar as salas.
O tempo não havia deixado de existir em sua memória e voltava enquanto andava pelo corredor e ouvia o alarido dos adolescente em fúria, correndo para aproveitar o intervalo entre as aulas, ou o recreio no pátio.
Entrou em sua antiga sala. As mesas organizadas umas atrás das outras. Sentou-se. Fechou os olhos e como mágica ouviu o som do giz no quadro negro. A mão ágil da professora deslizando, transformando formulas químicas em poesia.
De olhos fechados levantou-se, caminhou devagar até o quadro. Tentou imitar aqueles gestos como se em seus dedos houvesse não um giz mas uma batuta com o poder de reviver por aquele som o sentimento que sem saber nascera ali pela primeira vez.
Depois abriu os olhos devagar. A mão tocando o quadro negro. Nada entre seus dedos e nem no chão qualquer sinal da poeira de um único giz. 
Mesmo assim ainda sentia o mesmo amor que agora podia compreender sempre que outros olhos, mesmo sem pretensão cruzavam com os seus.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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2 comentários:

  1. Esse conto me suga, todas as vezes que o o leio me emociono. Ele me faz recordar um belo passado. Perfeito

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