A VELHA LÉSBICA
O garçom serviu-lhe a bebida e perguntou se queria mais alguma coisa.
Ela, de forma gentil, apenas balançou negativamente a cabeça. O rapaz afastou-se
uns dois ou três passos e ficou vendo sem grande interesse o movimento da rua.
A velha lésbica olhou o copo e as borbulhas que subiam rápidas em efervescência
e pensou: “meu sangue também já foi assim”. Bebeu um pouco e logo depois passou a ponta da
língua nos lábios. Espichou o olhar para a
calçada e viu as duas se aproximando. Caminhavam próximas uma da outra.
“É um casal” disse quase em voz alta.
Tão logo sentaram,
o garçom aproximou-se com o cardápio, mas elas só pediram as bebidas. “Estão
brigadas”, avaliou, “falam pouco sem se encarar”. Olhou-as com prazer mas sem
desejo, mesmo porque na idade em que estava já não sentia desejo por mulher
alguma, apenas uma admiração. Esboçou um sorriso sem jeito e pensou em como o
fogo do sexo foi desaparecendo, depois na própria vida, nos caminhos que
seguiu, nas pessoas que conheceu, nas coisas que fez para ser o que era e para
estar onde estava. Não era rica, porém conseguiu dinheiro para garantir uma
velhice tranqüila, sem luxos mas podendo satisfazer pequenos desejos. Era dona
de uma boate exclusiva para lésbicas, um negócio não tão lucrativo mas que a
divertia. A “Catchup” (o logotipo tinha uma gata lambendo as partes intimas)
era uma das melhores boates do gênero, uma espécie de clube fechado. Há algum
tempo pensava em se desfazer dela e ir viajar, fazer um daqueles cruzeiros
marítimos para se entediar um pouco e quem sabe ainda conhecer alguém. No mais,
se morresse a bordo gostaria que jogassem seu corpo ao mar para ser comido
pelos tubarões, já que em vida eles não haviam conseguiram fazer isso.
Continuou a olhar
as duas com ternura. Sabia bem o que era aquilo: Ciúmes. Já vivera tantas vezes
aquela situação que podia dar aulas. Sabia também que não adiantava nada
brigar, pois daqui a pouco acabariam fazendo as pazes, e o que seria melhor, na
cama. Pensou em pedir ao garçom para entregar a elas dois convites para a
Catchup, com certeza elas deviam ter ouvido falar. Freqüentar não freqüentavam
porque ela conhecia todos os membros.
Ah, o amor,
pensou enquanto deixava a bebida descer por sua garganta com enorme
prazer. Ainda bem que, a seu modo, havia aproveitado a vida e amado quase todas
as mulheres que quis. Valorizava muito
essas conquistas, pois cada mulher que passou por sua vida deixara marcas, boas
ou ruins. Passou a mão por seu braço e refletiu: “ah, que tempo bom aquele...
como foi difícil chegar até aqui, mas como valeu a pena todos aqueles momentos.
Devia escrever um livro. Tenho coisas a contar. A começar pela família, aquele
bando de bobocas achando ainda que o mundo é plano e que a Terra é o centro do
universo. Não vim ao mundo por necessidade mas pela inconseqüência de duas
pessoas que treparam sem usar a camisinha e foram obrigadas a casar jogando
sobre mim essa culpa. Tive tudo que poderia querer e muito mais, até descobrirem
que não tinha a menor vocação para namorar e casar com um homem. Que
abominação! Um escândalo! Quem pariu
essa criatura? Quem errou em sua educação? Mas porque precisamos de culpados
quando a vida é que determina quem será o quê. Como castigo me enviaram para
estudar em Paris, num colégio de freiras! A culpa por minha transformação seria
dos franceses, malditos libertinos, liberais com aquela mania absurda de
igualdade e fraternidade que quer igualar o que sempre será diferente porque
fraternidade é só uma palavra oca na boca dos preconceituosos camuflados. Quem
diria que justamente lá, no meio das freiras, aprenderia mais sobre sexo do que
em qualquer outro lugar. Ah, irmã Dom enique! Ah, irmã Catarine!”
Bebeu mais um
pouco, depois esticou as pernas. Já não desejava ter vinte anos e começar tudo
outra vez, não havia mais essa necessidade. Estava se acostumando a envelhecer
mas não com a velhice, aquele estado catatônico que obriga a pessoa a ser
chata, a reclamar de tudo e todos, a ansiar pela morte. Apreciava ainda a
zueira das discotecas (mas sabia comportar-se), a praia cheia de crianças lhe
jogando areia, o vento e a chuva, a enxaqueca maldita que a obrigava a ir para
cama permitindo-lhe sentir que existia um corpo em funcionamento e não apenas
uma carcaça que o tempo comia implacavelmente. Havia também as meninas do clube
que a adoravam e a ouviam sem aquele olhar de piedade ou simplesmente porque
era a patroa. Procurava transmitir sua vivencia sem ser maternal ou didática.
Seu lema sempre foi “cada um faz o que quer ou que pode, desde que não incomode
os outros”.
Entretanto, achava
ridículo as lésbicas velhas que freqüentavam o clube em busca de garotas
novas julgando-as bobinhas a ponto de acreditar em uma relação de amor entre elas.
“Tolas são elas em pensar que essas meninas vão restituir-lhes a vida que já
não tem, que o sexo as fará renascer no dia seguinte quando acordarem. São
tolas não querendo acreditar que o espelho pode mentir descaradamente quando se
olham nele. Deviam ser sinceras consigo mesmas, isso lhes pouparia muitas
plásticas desnecessárias.”
“Meu corpo já foi
meu, agora é da vida. Tudo que pude fazer com ele fizemos juntos e foi bom, mas
agora a vida é que o possui e me permite apenas olhá-lo e de vez em quando
sentir alguma dor, algum incômodo. Isso basta para ter certeza de que ainda
estamos juntos, embora não possa mais controlá-lo. O fumo já ficou para trás
uns vinte anos e beber só algumas taças, algo como uma recomendação medica.
Sexo, bem, sexo já teve espaço, agora é só consciência e quem administra isso é
a vida.”
O garçom percebe a
taça vazia e a serve.
Lembra do grande e
quase único amor de sua vida.
Margô Seibel. A “cadelinha judia”. A velha lésbica odiava
essa expressão, mas o apelido pegou e era como Margô gostava de ser chamada nos
momentos de intimidade, de amor. Margô Seibel amava esse apelido porque jamais
quis esquecer que era judia e lésbica e apesar da velha lésbica chamá-la assim
durante uma briga não a ofendeu, ao contrário, aquilo a excitou de tal forma
que a fez pular sobre a amante e acabar com a briga num longo beijo apaixonado.
A partir daí a velha lésbica passou a ter
horror a tudo que pudesse ser considerado preconceituoso e evitava ao
máximo usar expressões que reforçassem que o mundo é dividido em classes, em
partes, como se fosse possível classificar uma pessoa simplesmente por sua
religião ou por suas escolhas.
Margô era uma
mulher linda e inteligente. Seus pais vieram para o Brasil fugindo da guerra na
Europa e se estabeleceram em São Paulo. Mais tarde, quando passou a se interar
dos negócios da família Margô se apaixonou pelo Rio de Janeiro e assim que pode
convenceu o pai a abrir uma filial da joalheria no centro da cidade.
Era final da década
de sessenta e a velha lésbica passeava, a despeito de toda a agitação e
passeatas, pelo centro e ao passar por uma joalheria viu Margô atendendo um
casal. Da vitrine ficou a olhá-la. Margô era gentil e delicada, prestativa.
Gesticulava com elegância, o corpo ereto mas sem parecer contido, e em cada
movimento o deslizar seguro de quem
sabia o que estava fazendo, parecia reger uma orquestra. Quando o casal saiu,
mostrando-se totalmente satisfeito, Margô Seibel sorriu. Não um sorriso
triunfal, um sorriso capitalista, mas um sorriso de alguém que fica feliz
quando dá um presente. Depois notou a velha lésbica olhando-a pela vitrine e
deixou pender a cabeça para o lado como quem se depara com uma pintura
estranha.
A velha lésbica
entrou e escolheu um colar, o mais simples, pois já não tinha mais o apoio da
família e tanto dinheiro a disposição.
- É presente ou para a senhorita? Perguntou Margô olhando-a nos olhos.
- Como sou uma pessoa especial é um presente que vou me dar –
respondeu – Poderia pô-lo em meu pescoço
para ver como fica?
Margô passou
devagar por trás, com a elegância de uma felina a espreitar a presa, e ao
abaixar-se sobre ela sentiu o aroma do Chanel nº 5 que
desprendia de seu corpo. Gentilmente colocou-lhe o colar.
- Como ficou? - Indagou a velha lésbica após olhar-se por alguns momentos
no espelho.
Margô Seibel então
notou, não a jóia mas os seios delicados e empinados que subiam e desciam
agitados pela emoção. Quase que em transe, mas sabendo exatamente o que queria
dizer, Margô pousou o dedo sobre a jóia e percorreu-a devagar quase revelando
sua verdadeira intenção antes de
responder:
- Lindos.
E foi assim que Margô Seibel conheceu e se
apaixonou pela velha lésbica.
A velha lésbica
apertou a jóia em seu pescoço e tentou sorrir como Margô sorriria quando fazia
alguém feliz. Entretanto sentiu apenas a tristeza por Margô não estar mais com
ela.
“Porque fiz aquilo?
O que deu em mim para acreditar que aquela garota seria mais importante do que
Margô? Troquei a mulher da minha vida por uma aventura estúpida!”
As imagens da
separação pareciam se materializar em sua frente. Via-se fazendo as malas com
raiva, arrumando suas roupas de qualquer jeito e Margô ameaçando: se for, nunca mais me verá outra vez, se passar por
aquela porta saiba que não haverá volta. Por mais que te ame não poderei te
perdoar e se vou sofrer por estar te perdendo agora saiba que só sofrerei uma
vez.
Saiu deixando Margô
chorando, o corpo tremendo de desespero, amor e raiva.
Pouco mais de um
mês arrependia-se de ter deixado Margô. A outra não era o que pensava ser
porque na verdade era o oposto de Margô, uma mulher quase que perfeita. O
glamour do sexo com uma mulher mais jovem esfriava rápido a cada dia. Tentou
procurar Margô na loja mas ela tinha
sido vendida. Ninguém sabia de Margô Seibel. Procurou por todos os
lugares em que iam, falou com os amigos, com os conhecidos, com vizinhos, mas
ninguém sabia dela. Soube apenas que em uma semana após sua partida que Margô havia
feito a mudança não deixando nenhum endereço para qualquer contato.
A velha lésbica
experimentou então um período nebuloso. Vivia deprimida, chorando arrependida,
lamentando-se por aquele ato tresloucado que mudara completamente sua vida. Ou
o que restava dela.
Entretanto, tempos
depois, recebeu um telegrama pedindo que fosse até o escritório do advogado de
Margô. Entrou em pânico acreditando que ela tivesse feito uma loucura e a idéia
de que estivesse morta e por sua causa a apavorava. Decidira que se isso
tivesse acontecido também se mataria pois seria impossível viver sem Margô ou
com a culpa e o remorso por seu ato.
A fisionomia do
velho Dr. Meyer não se modificou diante da enxurrada de perguntas daquela
mulher a beira da histeria. Apenas abriu uma das muitas gavetas de sua mesa e
entregou-lhe um envelope subscrito por Margô.
- Vou deixá-la a sós para ficar mais a vontade. - Dito isso, dr. Meyer
levantou-se e saiu em passos lentos.
Abriu com mãos
tremulas o envelope e retirou uma carta escrita por Margô, que dizia mais ou
menos isso: “Lis, se o amor que tinhas por mim acabou até posso entender,
jamais aceitarei no entanto, como acabou, porque ainda te amo e como disse, se
tenho que sofrer sofrerei apenas uma vez. Por isso saio definitivamente da tua
vida e se vieres a se arrepender assuma essa dor mas não conte com o meu
perdão. Dr. Meyer te dará a escritura de nossa casa que agora será só sua e com
isso terminamos nosso relacionamento que ao menos foi muito bom e importante
para mim. Procure se cuidar e sobretudo ser feliz, já que comigo você apenas
tentou. Com amor, saudade e tristeza, Margô, A Cadelinha Judia.”
Por mais que o dr.
Meyer e sua secretaria tentassem, a velha lésbica não se acalmava, inconformada
com aquela situação. Chorava e soluçava em alto e bom som para que todos
ouvissem que estava arrependida por aquele ato estúpido que a fez perder a
mulher mais importante de sua vida. Por
fim, já sem muita paciência o dr. Meyer meteu-lhe a escritura em sua bolsa e a
fez assinar alguns papeis, praticamente
a expulsando do escritório.
A velha lésbica
andou desnorteada pela cidade e acabou por parar na casa onde morou com Margô,
embora não saiba nem como ou porque foi
parar lá.
Depois que a crise
passou e ela voltou a realidade não encontrou nenhuma outra mulher que ocupasse
o lugar de sua cadelinha judia, sentenciando-se ela própria dessa forma a nunca
mais amar alguém. Muitas outras mulheres passaram por sua vida, mas jamais as
amou verdadeiramente ou permitiu ser amada.
Quis pronunciar o
nome de Margô mas não conseguiu. “Melhor deixar assim”, pensou. Verificou que a
garrafa de champagne já havia passado da metade e com um gesto sutil indicou ao
garçom para trazer a conta.
Levantou-se sem
dificuldades, arrumou o vestido e apesar do auxilio da charmosa bengala
caminhou com desenvoltura em direção as jovens sentadas um pouco mais a frente.
Ao passar por elas fez questão de cumprimentá-las com um sorriso e um pequeno
gesto com a mão apoiada na bengala. Por alguns segundos as duas meninas
lembraram as freiras tão presentes em sua adolescência. Deu alguns passos e
parou para buscar na memória a imagem daquelas duas diabinhas. Depois seguiu,
menos triste acompanhada agora de Dom enique e Catarine, suas freiras preferidas.
Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares
Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares
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