terça-feira, 17 de julho de 2012

MUDANÇA RADICAL




            
             Ele já havia se levantado e pego o chapéu que conservou nas mãos, rodando-o devagar como quem calcula algo. Parecia irredutível, quase que dando por encerrada a negociação. Não seria fácil fazê-lo pagar o preço justo. Apesar de ela ter pressa, não queria  concluir o negocio de qualquer maneira para não ter que se arrepender depois. A passagem  estava comprada, precisava ir embora, já havia tomado a decisão e não pretendia voltar atrás. É verdade que  a idéia de cancelar tudo passou por sua cabeça como um raio mas ela fingiu não ver seu clarão e decidiu que tinha coragem para seguir em frente e continuar com o que precisava ser feito.
                   Tentou não deixar que a vontade de ir embora fosse o motivador para aceitar qualquer preço. Precisava mostrar-se calma, como se estivesse realizando um negócio qualquer, o que na verdade não era, pois  aquilo era uma parte sua, uma coisa de família. Antes de por o chapéu ele fez sua última oferta. Após diversas tentativas aquela era a que mais  chegara próxima daquilo que era justo e mesmo a contra gosto resolveu aceitar a proposta. Embora pudesse parecer, a loja não era só uma mercadoria, afinal, foi ali, quase que sem querer que sua vida começou a mudar.

                   O trepidar do avião a fez abrir os olhos devagar e pode ver a aeromoça  passar verificando se os passageiros haviam afivelado o cinto de segurança e fazendo as últimas recomendações. Não pode deixar de reparar que ela tinha  pernas bem torneadas e apesar do  uniforme lhe dar um aspecto mais serio, distribuía amáveis sorrisos procurando transmitir segurança. Apesar do DC-10 ser um avião moderno e confortável  seria uma viagem cansativa e ela faria de tudo para torná-la menos maçante. Fechou os olhos novamente.

                   Foi uma semana corrida e estava exausta física e emocionalmente pelos acontecimentos. Sabia que essa viagem a estava levando a uma nova etapa em sua vida e talvez esse esgotamento fosse bom para que  dormisse quase o tempo todo. Não se preocupava com quantas escalas o avião ainda faria desde que pudesse continuar dormindo e esquecendo-se de toda aquela situação, o que não significava tirar de seu coração tudo que sentia, tudo que ainda sofria.
                   O avião decolou mais uma vez e ela permaneceu de olhos fechados procurando entender as imagens que a escuridão não conseguia formar. Queria que de agora em diante fosse sempre assim, um escuro que não lhe mostrasse nada do que foi.

                   Acordou quando a aeromoça tocou em seu braço para  informar que em pouco tempo estariam pousando em Nova Iorque.
- Já estamos chegando? – Indagou ainda sonolenta enquanto a aeromoça sorria e perguntava se precisava de alguma coisa. Lembrava-se ainda das instruções dadas pelas aeromoças antes da ultima decolagem, sentia-se um pouco confusa, além de muito cansada.
- Nunca vi um passageiro dormir tanto durante um vôo. Esta tudo bem com a senhora?
                   Ela olhou a aeromoça, uma mulher de olhos claros, cintilantes,  por alguns instantes antes de responder.
- Sim – disse afinal.
                   Mas gostaria de ter dito que não, que tudo estava completamente errado, que não gostaria de estar viajando para encontrar a família em um país que já não reconhecia como seu, para tentar viver uma vida que não era mais a sua.
                   Tinha intenção de ficar pouco tempo em Nova Iorque, uns três ou quatro dias talvez, apenas para descansar daquela primeira parte da viagem. Precisava dessa preparação pois agora começava a perceber o peso da decisão que tomara.
                   Do hotel ligou para o irmão confirmando que estava em Nova Iorque. Não o via há uns bons dez anos, tempo em que havia voltado para Israel para  alistar-se no exercito, sonho que acalentava desde menino, embalado pelas sucessivas vitórias de Israel contra seus inimigos. Por sua vez,  acompanhava o desenrolar dos fatos pelos jornais, sem querer tomar partido. Era contra a volta dele para Israel mas não teve como impedi-lo.
                   “Homens”, pensou ela, “e seu desejo pelo poder, pela barbárie que a guerra trás.  A selvageria do combatente libertando os instintos mais insanos, matando qualquer sentimento bom,  fazendo com que sejam apenas objetos que os comandantes manipulam conforme a política manda.”
                   Eram os últimos dias das Olimpíadas de Montreal.   Ainda havia muito medo de que se repetisse o que aconteceu na Alemanha, quatro anos antes durante as Olimpíadas de Munique quando um comando terrorista invadiu a vila olímpica e assassinou os atletas israelenses. E mais recentemente, um mês antes das olimpíadas, o seqüestro do Airbus da Air France, desviado para o aeroporto de Entebe, em Uganda,  e que fora resgatado a força numa das mais brilhantes ações militares das forças de segurança de Israel.
                  
                   Visitou alguns museus e galerias de arte tentando não se sentir tão só, mas a tristeza se manifestava em cada quadro, em cada escultura que mostrava a vida  por um aspecto diferente, o impacto de procurar entender o que alguém precisava dizer por aquela obra. Via-se exposta, nua diante de si mesma e preferia fingir que havia arte em seu sofrimento e não apenas dor. Não se deu conta de que Nova Iorque naquele instante era a representação viva do que sentia dentro de si. Havia uma crise reorganizando as idéias e conceitos dos americanos que viram em 1973 o fracasso militar no Vietnã,  uma guerra por nada, para sustentar a hegemonia pelo poder mundial e em 1974 um presidente renunciar para não ser cassado. Sentia uma pequena alegria em saber que naquele ano de 1976 nos jogos olímpicos de Montreal os americanos amargavam um terceiro lugar, com a temida União Soviética quase que imbatível em primeiríssimo lugar.

                   Despediu-se de Nova Iorque sem sorrisos ou lagrimas. Não sentia muito apreço por aquele povo e sua grandeza patriótica que precisa exaltar a todo momento que eles eram os melhores do mundo.

                   O próprio irmão veio recebê-la no aeroporto. Estava fardado e ostentava as divisas de capitão. Ela quase não o reconheceu,  lembrava-se dele ainda como o garoto tímido e magro.
- Nossa – disse ele ao vê-la – você não mudou nada, continua linda!
                   Abraçaram-se duas ou três vezes e cada vez que se afastavam ele a elogiava. No caminho para casa ela se admirava com a beleza da cidade e a quantidade de soldados.
- Infelizmente é necessário querida irmã. Essa é uma guerra que só terá fim quando reconhecerem definitivamente Israel como uma nação.
- Ou quando vocês acabarem com todos aqueles que não a reconhecem.
                   Ele a olhou rápido, um pouco assustado.
- Apenas nos defendemos. Isso é errado?
- David, não pretendo discutir política com você ou com ninguém enquanto estiver aqui. Mas se formos ver pelo lado do direito...
                   David não deixou que continuasse a falar.
- Ora, ora, quem decidiu que tínhamos direito a essa terra foi a ONU, com apoio de muitos paises.
                   Ela percebeu que seria difícil convencê-lo do que realmente significou a criação de Israel e elogiou a cidade. Depois, apenas relembraram alguns episódios do passado e riram muito. David não se casara pois como militar teria mais liberdade, além do mais, preferia ficar solteiro a deixar viúva e filhos. Sabia o quanto era doloroso notificar as famílias sobre as mortes dos soldados e não queria que ninguém que amasse passasse por aquilo.
                  
                   Aos poucos foi se interando da vida em Israel e depois de alguns meses chegou a conclusão de que seria impossível manter seu status de mulher independente. Muitos amigos de David estavam interessados nela. Certa vez, durante o jantar, David falou-lhe sobre o interesse de dois amigos e ela foi incisiva:
- Não sou uma mercadoria para ser disputada!

                   Descobriu que a única maneira de escapar desse assedio seria entrar para o exercito e usar como desculpa “Israel precisa de mim”.
                  
                   Por intermédio do prestigio de David ela foi aceita nas  Forças de Defesa de Israel, e mesmo passando por um duro treinamento superou suas próprias expectativas e posteriormente, por seu destaque, foi selecionada para atuar no Mossad, o serviço secreto de Israel, contra é claro, a vontade do irmão.
                   A disciplina militar acabou por dar uma nova razão a sua vida e o glamour em se tornar uma espiã a fascinou.
                   Realizou pequenas e depois missões mais importantes e sempre se saiu muito bem, o que lhe rendia elogios e maior prestigio entre os agentes e diretores do Mossad. Isso não quer dizer que estivesse livre do discreto assedio de alguns deles e que, polidamente fingia não perceber.
                   Em 1986 já era uma veterana e aceitou sem pestanejar quando foi designada para raptar um técnico nuclear que em visita a Inglaterra pretendia divulgar informações sobre o projeto nuclear de Israel, mas sabia que não conseguiria completar essa missão, pois deveria seduzir o tal técnico e levá-lo para fora daquele país, para então ser seqüestrado e levado de volta a Israel onde seria julgado por traição.
                   Depois de tantos anos teria que ser tocada novamente por um homem e definitivamente isso a perturbava. Mesmo sendo uma agente treinada, ela sabia que não conseguiria suportar a boca de um homem tocando seus lábios, as mãos percorrendo seu corpo, usando-a, destruindo sua dignidade.
                   Na véspera do embarque para Londres propositadamente arremessou seu carro contra um poste e embora nada tivesse sofrido alem de algumas escoriações, foi prontamente substituída por outra agente, sem que ninguém desconfiasse de nada.
                   Percebeu a partir daí que não bastava sufocar sua sexualidade, reprimida pela disciplina militar como uma camuflagem para se proteger do inimigo, que afinal era ela própria. Estava na hora de parar de fingir que tudo estava bem. Era o momento de voltar a ser feliz e dar novamente uma chance a quem quisesse amá-la. Então, todos aqueles anos arriscando a vida, achando que Israel precisa dela, pareceu não valer de nada. Fugira para Israel porque se sentiu trocada, traída e humilhada, mas agora sabia que poderia ter ficado e enfrentado a situação de outra maneira.

                   Deixou o escritório feliz, embora seus superiores ainda não estivessem de acordo com sua saída da organização.
                   “Eu não preciso mais de Israel”. Pensou enquanto caminhava radiante em direção a um café pouco adiante, onde costumava sentar e apreciar o movimento das pessoas andando de um lado a outro, num indo e vindo sem o menor propósito para ela. De onde vinham, para onde iam? Isso era a vida. Poderia ir morar em Paris e recomeçar do zero.
                   Sentiu apenas a mulher abraçá-la e o cano da arma em suas costelas. Em segundos, um carro aproximou-se e ela foi arremessada para dentro onde um homem rapidamente a imobilizou e a dopou.

                Por uma fração de segundos as imagens se transformaram como um clarão na escuridão, como num sonho em que as figuras aparecem diante de si e não se percebe que é um sonho.

                O calor era quase que insuportável. Sentiu as roupas molhadas coladas a seu corpo que estava amarado a uma cadeira. Procurou erguer o corpo e sentiu a dor irradiar-se pelas costelas. Abriu os olhos devagar e apesar da pouca luz deduziu, pelo tamanho,  estar num galpão. A sua frente estava uma jovem, possivelmente palestina, que mesmo com todo aquele calor vestia uma jaqueta militar e calças compridas camufladas alem de manter a cabeça e parte do rosto encoberto por um lenço escuro. Trazia presa a cintura  uma velha Luger 9 mm. Mais atrás um homem também a olhava segurando um AK 47. Ele deu alguns passos a frente e com voz grave disse, já impaciente:
- Pronto, ela já acordou e nós já sabemos o quanto é inútil continuar. Acabe logo com isso e vamos embora, já perdemos muito tempo.
                A prisioneira esboçou um sorriso, um ar triunfal por saber que resistira, que não dissera nenhum nome, nada de importante.  Ergueu um pouco a cabeça e olhou a mulher diretamente nos olhos.
- Você deve ser uma moça muito bonita. Seus olhos me lembram os de alguém...
                A resposta dela foi rápida,  seguida de uma vigorosa bofetada que afinal lhe descobriu o rosto.
- Cadela judia!
                A frase entrou por seus ouvidos como o som de uma explosão resgatando-a da paralisia e despertando-a do torpor que resolveu viver. Um arrepio percorreu seu corpo. Com o rosto ardendo sentiu que toda a sua humanidade voltara após aquela bofetada. Margô fitou a palestina enquanto aquelas palavras ecoavam em sua cabeça com a única intenção de fazê-la lembrar-se de que havia um amor reprimido dentro dela e que queria sair. A vida toda sempre seria isso, em qualquer lugar e em qualquer tempo carregaria esse sentimento por mais que tentasse abafá-lo. Reparou na jovem a sua frente  e percebeu que seu coração voltara a bater,  desta vez, bem mais acelerado. A mulher era de fato muito bonita e apesar do pesado traje militar calculou que deveria ter um corpo igualmente bonito. Sentiu saudades de Lis. Talvez fosse muito tarde para resgatar esse sentimento e lembrar do corpo dela sobre o seu enquanto se beijavam. Entretanto, não tinha como evitar que seu amor se materializasse na mulher que pretendia matá-la. Não procurou arrepender-se de ter fugido, de não querer sofrer por amor. O rosto pulsava e pode sentir o gosto de sangue na boca. Passou a língua ensangüentada pelos lábios.
- A vida tem gosto de sangue...  eu já devia saber disso.
                Disse a frase com calma, sem medo, olhando a palestina com um olhar de quem, no fundo, sentira um certo prazer. Sabia que não merecia morrer, ainda mais naquela situação mas, também não se desesperaria, não deixaria que o medo, o temor de perder tudo que amava abafasse a necessidade de sentir seus últimos momentos de vida.
- Faça logo o que tem que fazer e vamos embora. – Disse o homem com o AK 47 enquanto se virava e caminhava em direção a uma porta distante deles – Vou esperar no carro.
                Ouviu-se os passos do homem se afastando e depois uma porta se abrindo e fechando pesadamente. A mulher então se aproximou de Margô e com o polegar limpou lentamente os lábios sujos de sangue. Novamente um arrepio tomou conta do corpo de Margo provocando-lhe um ligeiro tremor. A mulher  examinou o sangue em seus dedos e depois chupou-os como quem se delicia com o resto de um doce.
- Pensei que o sangue de vocês tivesse um gosto diferente do nosso...
                Margô mordeu o lábio inferior e sentiu-se surpreendentemente  excitada a ponto de seus seios marcarem a blusa molhada de suor. Notando isso a palestina sentou delicadamente sobre seu colo e segurando no encosto da cadeira aproximou-se de tal forma que seus seios se tocaram.  Colou a boca no ouvido de Margô e sussurrou:
- Está sentindo a vida em seu corpo não é? Aproveite bem seus últimos minutos de vida. É mais do que os soldados nos dão.
                Margo fechou os olhos enquanto sua respiração crescia e apesar das roupas sentiu o calor do corpo da palestina. Lentamente ela se afastou mordendo o lábio inferior  com um leve sorriso, diabolicamente feminino, enfeitando-lhe o rosto. Pousou a mão sobre a Luger e com o polegar ficou por instantes alisando a arma demorando-se a puxá-la da cintura. Parecia não ter medo ou remorso pelo que ia fazer. Estava acostumada. Margô a olhava e sentia um desejo estranho tomando conta de si. Desviou o olhar para a arma.
- 9 milimetros. Excelente arma.  É um calibre de guerra. Altamente perfurante. Os nazistas a usavam para matar judeus. – Disse Margô
                Seu pai tivera uma e só se desfez dela por insistência da mãe que morria de medo de David a pegar.
                A mulher fez um gesto para recolocar o véu.
- Por favor deixe como esta, gostaria de ver seu rosto, seus olhos. Como se chama?
                Ela recuou três ou quatro passos e suavemente deu o golpe na arma alojando uma munição na câmara.
- Mulheres palestinas não precisam ter nomes, isso não faz diferença quando atiram na gente.
                Por longos instantes cada uma viu no olhar da outra um brilho que poderia representar  muita coisa, porém naquele momento era só a certeza de que a guerra entre eles não estava perto do fim.
                Margô deixou  o ar sair devagar pelas narinas, queria sentir sua respiração como nunca sentira antes. Algo tão simples e nunca prestara atenção naquilo.  O rosto da palestina se contraiu numa expressão que Margô não conseguia definir. Teve vontade de pedir-lhe um beijo, sentir pela ultima vez a boca de outra mulher na sua.
- Meu nome é Margô Seibel. Filha de Araon  e Sara Seibel. Morei no Brasil muitos anos e fui apaixonada por Elizabeth Andrade da Silva Carneiro. Moramos juntas e fomos felizes durante muito tempo. Mas um dia...
                A palestina ergueu o braço devagar e manteve o olhar firme, entretanto, eles já não espelhavam mais o ódio de antes.
- Ela acreditou que nossa relação havia se esgotado e foi morar com uma garota mais jovem, talvez com a sua idade...
                A palestina fixou a arma em direção ao peito de Margô e já não a apertava com tanta força. Sentiu um calor tomar-lhe o rosto e teve a ligeira sensação de que seu corpo criava uma contradição entre o que deveria fazer e o que sentia naquele instante por aquela mulher indefesa. Começou a pressionar o gatilho devagar enquanto a língua  buscava na boca o gosto do sangue de Margô. Fechou os olhos.
- E me deixou. Deixou também um vazio, mas também a certeza de que eu jamais deixaria de amá-la.  
                A explosão antecedeu ao disparo.
                Os soldados entraram atirando.  Assim como em Uganda vieram resgatá-la, pois ao contrario do que esperava, Israel ainda precisava dela.
                         

(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares, sendo também a continuação do conto "A VELHA LÉSBICA")

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