HOMO ERECTUS
O
zelador, sem o olhar, avisou que o elevador estava parado e continuou a varrer
o chão sem pressa. Cacau ficou um tempo parado olhando para o homem e depois
caminhou em direção a escada. “catorze andares”. Suspirou. “Vou subir devagar”.
Olhou o corrimão desgastado e começou a subir. Sempre que subia por aquelas
escadas sentia-se como se levasse uma cruz ás costas.
Subia
as escadas com a sensação de quem ia ao encontro do desconhecido. A vida era mais ou menos assim. Desde o inicio
sabia que ser feliz seria como pular de um abismo esperando encontrar lá em
baixo um colchão para amortecer a queda. Não devia sentir medo, mas também não
tinha como apreciar a queda e sorrir vendo a paisagem.
Sempre
soube, mesmo quando era criança, que aquilo o transformaria em algo que não saberia
explicar para os outros. Depois, quando ficou adolescente, foi motivo de
risinhos, de piadas, dos cochichos maldosos que o condenavam por ser o que nem
ele próprio sabia o que de fato era.
Escondeu
o quanto pode da família (ou de si mesmo) mas sabendo que seria algo inútil
levar aquilo adiante. Disfarçava comentando o futebol de domingo com seu pai
(mas adorava mesmo era falar dos galãs de novela com a mãe, que no fundo o
entendia e o aceitava como era).
Sofreu
por amor, diversas vezes. Amou desesperadamente meninos que amavam meninas e
faziam questão de comentar com ele – alguns com a satisfação de saber que
aquilo o machucava – de como era gostoso ter tesão por elas.
Mesmo
que hoje se sentisse feliz em ter podido
assumir-se (ou manter a ilusão de que era feliz por isso) ainda sofria,
pois a infância e adolescência fora perdida em longas noites abraçado ao
travesseiro, chorando por se sentir diferente, incompreendido, querendo
descobrir porque aquilo acontecia com ele.
Não
importava se hoje pertencia a um grupo e isso lhe trazia algum conforto. Sentia
que ainda não era o que queria ser porque a sociedade excluía-o quando dizia
que existia somente para aquele grupo e não como pessoa, como ser humano. Era
diferente por causa de uma escolha, por uma opção que não pediu para ter, mas
que nasceu com ele. Será que isso era tão difícil de aceitar?
Outro
dia, numa festa discutiu com um rapaz que achava um absurdo que a lei fosse
diferente para eles, pois “homem não pode casar com homem, que isso era um
absurdo sem propósito, que ia contra a lei natural das coisas”. Mas que coisas
são essas? Se a sociedade os acha “diferentes” e faz questão de lembrar isso a todo instante, que arque então
com a responsabilidade de assumir essa diferença, não pela segregação mas com a
oportunidade de deixá-los viver normalmente como são e querem. Querer camuflá-los,
fazendo-os sumir com um passe de mágica em nada adianta.
Terceiro
andar. Ouve gemidos abafados e para. Recomeça subir com mais cautela a escada
em caracol. Os gemidos vão ficando mais nítidos e logo após a curva se depara
com o garoto do quinto andar se masturbando com a playboy da Diana Bouth aberta
no degrau encardido e gasto. Fica por um tempo olhando o adolescente e lembra
que também já fez isso, mas que as mulheres não o excitavam e por mais que
tentasse só conseguia gozar quando pensava num menino da escola, de outra
serie, que via no recreio.
Desceu
um lance de escada logo depois que o garoto gozou e voltou a subir, dessa vez
assobiando. O moleque tinha desaparecido, mas deixado no chão a pequena poça de
esperma. Cacau olhou aquilo com um sorriso triste e agachou-se para olhar mais
de perto. Aproximou o rosto e aspirou com vontade o cheiro do sêmen juvenil jogado
ao chão. Os olhos se encheram d’água e a
tristeza acumulada ao longo dos meses tentou sair, mas ele se ergueu, limpou os
olhos com os indicadores e continuou a subir, bem mais devagar.
Não
entendia o porque daquela magoa. Ainda
mais agora que não precisava se esconder, deveria ser feliz, aproveitar a vida
e recuperar o tempo perdido. Tinha um homem que o amava, que o enchia de
presentes e não tinha vergonha de sair com ele, de mostrar que estavam
juntos.
Sexto
andar. Pensa em seu homem e no amor que sentem um pelo outro. Nunca imaginou
que Diogo, um médico, homem de boa família, pudesse apaixonar-se por alguém
como ele, ou que fosse dado a freqüentar saunas em busca de jovens para rápidas
diversões.
Sétimo
andar. Foi o destino, só havia esta explicação. Cacau não tinha o habito de
freqüentar tais lugares, porém no dia em que se conheceram foi como se soubesse
que algo especial estava para acontecer. Não foi a toa que Gigi insistiu para
que fosse a sauna com ele. Gigi estava desconfiado que seu homem estava indo lá
em busca de outros garotos. Não teve como negar, devia isso ao amigo que sempre
o ajudou quando precisava.
Oitavo
andar. Ficaram lá um bom tempo a espreita e Gigi ficou desapontado, mas para
compensar transou com uns dois caras. Foi enquanto esperava que Diogo apareceu.
Cacau o olhou e deu um suspiro. Diogo era aquele tipo de homem que faz sucesso
com qualquer mulher, alto, bronzeado, sempre com a barba bem feita.
Aproximou-se de Cacau e sem nenhuma cerimônia abriu a toalha branca mostrando o
membro eriçado.
- Te agrada?
Cacau
mordeu os lábios e sentiu os mamilos enrijecerem enquanto seu pau também subia.
- Pelo visto gostou – disse Diogo se aproximando e
vendo o volume na toalha de Cacau.
Mal
entraram na cabine Diogo arrancou-lhe a toalha e pegou-o no colo deitando-o em
seguida na maca. Trocaram um demorado beijo de língua enquanto Cacau procurava
de olhos fechados achar o pau de Diogo por baixo da toalha. Quando o conseguiu
Diogo chupava com carinho os mamilos de Cacau que se revirava de tesão sobre a
maca. Respirava com força e gemia baixinho. Só pensava no momento em que Diogo
o possuiria. Diogo já beijava os pêlos de Cacau e este masturbava
freneticamente o médico. Quando sentiu a boca do homem em seu pau ergueu as
costas da maca e com uma das mãos puxou com força os cabelos negros de
Diogo. Com enorme tesão, Diogo enfiava o
membro de Cacau todo na boca e subia devagar fazendo pressão, depois descia
devagar e subia rápido. Cacau se abraçou a ele e implorou para chupá-lo.
- Primeiro quero que você goze na minha boca –
pediu Diogo.
Cacau
deitou-se novamente e tentou ao máximo evitar que isso acontecesse, mas Diogo
aumentava os movimentos e foi impossível controlar o gozo. Um espasmo
enrijeceu-lhe as coxas e em seguida o sêmen saiu em fortes contrações. Diogo
continuou chupando até sentir o pau desinflar em sua boca. Cacau suava e não queria abrir os olhos. O corpo ainda tremia e ele sentia uma leve
vertigem. Ergueu-se com dificuldade e abraçou-se ao corpo, também suado de
Diogo. Ainda trocaram um longo beijo cheio de sêmen e saliva antes que Cacau
descesse da maca para retribuir o prazer da mesma forma. Diogo apoiou-se na
maca e Cacau foi beijando todo o músculo para depois chupar devagar só a
cabeça, saboreando, anestesiado ainda por seu gozo. A mão de Diogo acariciava
os cabelos loiros e de vez em quando retinha a cabeça do outro com o membro
enfiado na boca até que Cacau apertasse as coxas do homem indicando que
precisava respirar.
- Quero você – murmurou Diogo puxando Cacau para cima
e curvando-o sobre a maca.
Diogo
abaixou-se e enfiou a língua no anus de Cacau que sentia seu pau subir
novamente. Com as mãos abria as nádegas para sentir melhor a língua quente
tentando entrar. Diogo levantou-se e encostou a cabeça do pau na abertura
molhada e pressionou. Cacau mordeu os lábios com força esperando sentir o
membro entrar rasgando-lhe as entranhas. Porém, Diogo foi delicado e introduziu
seu pau com suavidade, dando a Cacau a oportunidade de sentir um enorme prazer.
Décimo
quarto andar. Cacau pára no corredor para respirar. Procura a chave na bolsa e
caminha rápido para a porta. De fora ouve a música romântica do cd que deu de
presente a Diogo quando completaram seis meses juntos.
Diogo
o recebe nu. Cacau olha a mesa posta para o jantar.
- Você é maravilhoso Diogo. Te amo.
Diogo
sorri. Cacau joga a bolsa sobre o sofá e devagar dança ao som da música
romântica enquanto tira a roupa lentamente,
provocante. Envolvem-se, os corpos provocando arrepios quando se tocam.
O pau de Diogo entre as coxas de Cacau enquanto se beijam com amor. Entre eles
um perfume que faz Cacau lembrar-se do cheiro do esperma do garoto que se
masturbava na escada.
Por
uma fração de segundos, Cacau se sente invadido por um estranhíssimo sentimento
de felicidade. Abre os olhos e vê o mundo que roda a sua volta, a mesa posta
para o jantar, o corpo do homem em seu corpo, sente que sua alma diz para ser
feliz e mais nada. Será que havia chegado para ele afinal, a hora de sentir que
já não precisava mais se arrastar, andar de quatro? Podia ser afinal, também um homo erectus.
(Este conto faz parte do livro 'O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)
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