quinta-feira, 26 de julho de 2012

HOMO ERECTUS



HOMO ERECTUS



  O zelador, sem o olhar, avisou que o elevador estava parado e continuou a varrer o chão sem pressa. Cacau ficou um tempo parado olhando para o homem e depois caminhou em direção a escada. “catorze andares”. Suspirou. “Vou subir devagar”. Olhou o corrimão desgastado e começou a subir. Sempre que subia por aquelas escadas sentia-se como se levasse uma cruz ás costas.
  Subia as escadas com a sensação de quem ia ao encontro do desconhecido.  A vida era mais ou menos assim. Desde o inicio sabia que ser feliz seria como pular de um abismo esperando encontrar lá em baixo um colchão para amortecer a queda. Não devia sentir medo, mas também não tinha como apreciar a queda e sorrir vendo a paisagem.
  Sempre soube, mesmo quando era criança, que aquilo o transformaria em algo que não saberia explicar para os outros. Depois, quando ficou adolescente, foi motivo de risinhos, de piadas, dos cochichos maldosos que o condenavam por ser o que nem ele próprio sabia o que de fato era.
  Escondeu o quanto pode da família (ou de si mesmo) mas sabendo que seria algo inútil levar aquilo adiante. Disfarçava comentando o futebol de domingo com seu pai (mas adorava mesmo era falar dos galãs de novela com a mãe, que no fundo o entendia e o aceitava como era).
 Sofreu por amor, diversas vezes. Amou desesperadamente meninos que amavam meninas e faziam questão de comentar com ele – alguns com a satisfação de saber que aquilo o machucava – de como era gostoso ter tesão por elas.
 Mesmo que hoje se sentisse feliz em ter podido  assumir-se (ou manter a ilusão de que era feliz por isso) ainda sofria, pois a infância e adolescência fora perdida em longas noites abraçado ao travesseiro, chorando por se sentir diferente, incompreendido, querendo descobrir porque aquilo acontecia com ele.
 Não importava se hoje pertencia a um grupo e isso lhe trazia algum conforto. Sentia que ainda não era o que queria ser porque a sociedade excluía-o quando dizia que existia somente para aquele grupo e não como pessoa, como ser humano. Era diferente por causa de uma escolha, por uma opção que não pediu para ter, mas que nasceu com ele. Será que isso era tão difícil de aceitar?
 Outro dia, numa festa discutiu com um rapaz que achava um absurdo que a lei fosse diferente para eles, pois “homem não pode casar com homem, que isso era um absurdo sem propósito, que ia contra a lei natural das coisas”. Mas que coisas são essas? Se a sociedade os acha “diferentes” e faz questão de  lembrar isso a todo instante, que arque então com a responsabilidade de assumir essa diferença, não pela segregação mas com a oportunidade de deixá-los viver normalmente como são e querem. Querer camuflá-los, fazendo-os sumir com um passe de mágica em nada adianta.   
 Terceiro andar. Ouve gemidos abafados e para. Recomeça subir com mais cautela a escada em caracol. Os gemidos vão ficando mais nítidos e logo após a curva se depara com o garoto do quinto andar se masturbando com a playboy da Diana Bouth aberta no degrau encardido e gasto. Fica por um tempo olhando o adolescente e lembra que também já fez isso, mas que as mulheres não o excitavam e por mais que tentasse só conseguia gozar quando pensava num menino da escola, de outra serie, que via no recreio.
 Desceu um lance de escada logo depois que o garoto gozou e voltou a subir, dessa vez assobiando. O moleque tinha desaparecido, mas deixado no chão a pequena poça de esperma. Cacau olhou aquilo com um sorriso triste e agachou-se para olhar mais de perto. Aproximou o rosto e aspirou com vontade o cheiro do sêmen juvenil jogado ao chão.  Os olhos se encheram d’água e a tristeza acumulada ao longo dos meses tentou sair, mas ele se ergueu, limpou os olhos com os indicadores e continuou a subir, bem mais devagar.
 Não entendia o porque daquela magoa.  Ainda mais agora que não precisava se esconder, deveria ser feliz, aproveitar a vida e recuperar o tempo perdido. Tinha um homem que o amava, que o enchia de presentes e não tinha vergonha de sair com ele, de mostrar que estavam juntos. 
 Sexto andar. Pensa em seu homem e no amor que sentem um pelo outro. Nunca imaginou que Diogo, um médico, homem de boa família, pudesse apaixonar-se por alguém como ele, ou que fosse dado a freqüentar saunas em busca de jovens para rápidas diversões.
 Sétimo andar. Foi o destino, só havia esta explicação. Cacau não tinha o habito de freqüentar tais lugares, porém no dia em que se conheceram foi como se soubesse que algo especial estava para acontecer. Não foi a toa que Gigi insistiu para que fosse a sauna com ele. Gigi estava desconfiado que seu homem estava indo lá em busca de outros garotos. Não teve como negar, devia isso ao amigo que sempre o ajudou quando precisava.
 Oitavo andar. Ficaram lá um bom tempo a espreita e Gigi ficou desapontado, mas para compensar transou com uns dois caras. Foi enquanto esperava que Diogo apareceu. Cacau o olhou e deu um suspiro. Diogo era aquele tipo de homem que faz sucesso com qualquer mulher, alto, bronzeado, sempre com a barba bem feita. Aproximou-se de Cacau e sem nenhuma cerimônia abriu a toalha branca mostrando o membro eriçado.
- Te agrada?
 Cacau mordeu os lábios e sentiu os mamilos enrijecerem enquanto seu pau também subia.
- Pelo visto gostou – disse Diogo se aproximando e vendo o volume na toalha de Cacau. 
 Mal entraram na cabine Diogo arrancou-lhe a toalha e pegou-o no colo deitando-o em seguida na maca. Trocaram um demorado beijo de língua enquanto Cacau procurava de olhos fechados achar o pau de Diogo por baixo da toalha. Quando o conseguiu Diogo chupava com carinho os mamilos de Cacau que se revirava de tesão sobre a maca. Respirava com força e gemia baixinho. Só pensava no momento em que Diogo o possuiria. Diogo já beijava os pêlos de Cacau e este masturbava freneticamente o médico. Quando sentiu a boca do homem em seu pau ergueu as costas da maca e com uma das mãos puxou com força os cabelos negros de Diogo.  Com enorme tesão, Diogo enfiava o membro de Cacau todo na boca e subia devagar fazendo pressão, depois descia devagar e subia rápido. Cacau se abraçou a ele e implorou para chupá-lo.
- Primeiro quero que você goze na minha boca – pediu Diogo.
 Cacau deitou-se novamente e tentou ao máximo evitar que isso acontecesse, mas Diogo aumentava os movimentos e foi impossível controlar o gozo. Um espasmo enrijeceu-lhe as coxas e em seguida o sêmen saiu em fortes contrações. Diogo continuou chupando até sentir o pau desinflar em sua boca.  Cacau suava e não queria abrir os olhos.  O corpo ainda tremia e ele sentia uma leve vertigem. Ergueu-se com dificuldade e abraçou-se ao corpo, também suado de Diogo. Ainda trocaram um longo beijo cheio de sêmen e saliva antes que Cacau descesse da maca para retribuir o prazer da mesma forma. Diogo apoiou-se na maca e Cacau foi beijando todo o músculo para depois chupar devagar só a cabeça, saboreando, anestesiado ainda por seu gozo. A mão de Diogo acariciava os cabelos loiros e de vez em quando retinha a cabeça do outro com o membro enfiado na boca até que Cacau apertasse as coxas do homem indicando que precisava respirar.
- Quero você – murmurou Diogo puxando Cacau para cima e curvando-o sobre a maca.
 Diogo abaixou-se e enfiou a língua no anus de Cacau que sentia seu pau subir novamente. Com as mãos abria as nádegas para sentir melhor a língua quente tentando entrar. Diogo levantou-se e encostou a cabeça do pau na abertura molhada e pressionou. Cacau mordeu os lábios com força esperando sentir o membro entrar rasgando-lhe as entranhas. Porém, Diogo foi delicado e introduziu seu pau com suavidade, dando a Cacau a oportunidade de sentir um enorme prazer.
 Décimo quarto andar. Cacau pára no corredor para respirar. Procura a chave na bolsa e caminha rápido para a porta. De fora ouve a música romântica do cd que deu de presente a Diogo quando completaram seis meses juntos.
  Diogo o recebe nu. Cacau olha a mesa posta para o jantar.
- Você é maravilhoso Diogo. Te amo.
 Diogo sorri. Cacau joga a bolsa sobre o sofá e devagar dança ao som da música romântica enquanto tira a roupa lentamente,  provocante. Envolvem-se, os corpos provocando arrepios quando se tocam. O pau de Diogo entre as coxas de Cacau enquanto se beijam com amor. Entre eles um perfume que faz Cacau lembrar-se do cheiro do esperma do garoto que se masturbava na escada.
  Por uma fração de segundos, Cacau se sente invadido por um estranhíssimo sentimento de felicidade. Abre os olhos e vê o mundo que roda a sua volta, a mesa posta para o jantar, o corpo do homem em seu corpo, sente que sua alma diz para ser feliz e mais nada. Será que havia chegado para ele afinal, a hora de sentir que já não precisava mais se arrastar, andar de quatro?  Podia ser afinal, também  um homo erectus.

(Este conto faz parte do livro 'O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

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