UM BRINDE A NOSSA GUERRA!
“Não atirem! Não atirem! Quero
ela viva! Parem de atirar!” Gritava Margo sem perceber o sangue que escorria de
seu corpo.
Os
soldados se aproximaram da mulher caída com a arma ainda na mão. Ao seu lado o
sangue começava a formar uma poça.
- Depressa, cuidem dela! Estou bem, estou bem!
Preciso dela viva, rápido, levem-na para o hospital!
Os
soldados desamarraram Margo e a deitaram no chão. Ela tentava erguer-se para
ver o que estavam fazendo com a palestina.
- Depressa, levem-na para o hospital, preciso dela
viva! Estou bem!
Repetia
a frase várias vezes de forma alucinada até que uma dor forte tomou conta de
seu corpo e depois disso houve só a escuridão e o silêncio.
Antes
que pudesse abrir os olhos sentiu uma agradável sensação de bem estar. Teve a
impressão de que flutuava. Ao seu lado estava um homem que lhe sorriu. Estava
vestido de branco.
- Tudo bem? Perguntou o homem com uma voz serena.
Havia um leve sorriso em seu rosto.
Margo
o olhou por alguns segundos e os fatos voltaram lentamente a sua mente.
- Estou.
Deu
um longo suspiro enquanto ouvia a explicação do rapaz.
- O ferimento não foi profundo. O atirador não
tinha boa pontaria e a bala transfixou o
deltóide sem grandes conseqüências.
-
A palestina esta viva?
O
rapaz a olhou e o leve sorriso sumiu de seu rosto. A voz tomou um tom sombrio.
- Por enquanto. Esta em coma.
Fez
uma pausa e enquanto observava o gotejar do soro completou:
- A senhora sabe que ela não deveria estar aqui não
é?
Margo
lançou-lhe um olhar interrogativo.
- Aqui é um hospital não é?
- A senhora bem sabe que ela é palestina, uma
terrorista.
- Certo, então por isso devíamos deixá-la morrer.
- O que quero dizer é que ela deveria ter sido
levada para um hospital militar.
- Sim, claro, de certo lá cuidariam muito bem dela.
– retrucou com a voz cheia de ironia.
A
conversa foi cortada com a chegada de uma médica. Margo respondeu sem muito
interesse as perguntas que lhe foram feitas e logo que o enfermeiro e a medica
saíram fechou os olhos e pensou na palestina.
Por
favor, não morra, pensava de olhos fechados lembrando-se dela de pé, com a arma
apontada para seu peito. Sentia o coração batendo mais forte, a garganta
fechando-se numa ânsia, uma angustia pela falta de mais noticias sobre a
palestina. Sabia que logo seria transferida, caso não morresse, para um
hospital militar e depois... procurou não pensar mais no que poderia acontecer
e sem perceber dormiu.
Margo
recebeu alta dias depois. Procurou o pessoal da agência para tentar manter a
palestina no hospital, mas como ela havia saído do coma e tinha o quadro
estável, pensavam em transferi-la para o hospital da prisão o mais rápido
possível. Seu diretor foi categórico quando afirmou que “isso era assunto do
exercito e que não podia fazer nada”. Margo sabia que fora do hospital as
chances de manter contato com a palestina seriam mínimas.
Margo
ficou parada diante da janela da sala até que o sol sumiu. Não deixava de
pensar na mulher que tentou matá-la com um sentimento estranho dentro de si.
Mais do que entender o que se passava em seu intimo, sentia algo pulsando,
respirando, crescendo. Fechou os olhos e a imagem da palestina brotou diante do
escuro, com o rosto iluminado. Era uma mulher bonita, atraente. Margo mordeu o
lábio inferior e procurou com a mão uma brecha na blusa. Imediatamente seu
corpo esquentou e ela sentiu seu rosto em brasas. Depois de tanto tempo o mundo
voltava a girar ao seu redor e ela sabia bem as conseqüências disso. Queria
acreditar que poderia fugir mais uma vez, porém não tinha vontade para esquecer
a força desse sentimento ou a certeza de
isso seria a melhor coisa a fazer. Tocou
a cicatriz em seu ombro sentindo o ligeiro desnível causado pela entrada da
bala. O amor deixa marcas, no corpo e na alma.
- Ah, como fui covarde abandonando meu amor...
A
voz saiu abafada, contida. Não quis deixar a verdade brotar totalmente e
expulsar as sensações e lembranças do que viveu e deixou de viver ao lado de
Elizabeth. Aquele desejo se transformara em magoa e isso a machucava muito.
Tantos anos e ainda podia sentir as mesmas sensações como se tudo houvesse acontecido
a poucos dias atrás. Entretanto, com a palestina era diferente pois ela queria
matá-la e deixar fluir o ódio que a consumia, como um amor as avessas, que se
nutre das desgraças, das desavenças, do rancor e das magoas. A palestina não
escondia seus sentimentos e amava vivê-los abertamente.
Margo
apertou a cicatriz com se quisesse abrir novamente a ferida e puxar com as
próprias mãos a carne e o sangue de dentro de si e mostrá-lo a palestina como
um troféu ou um filho. Sim, podia comparar o que sentia como um parto. O
sofrimento, a dor e depois a alegria, uma felicidade espantosa por saber que
algo saiu de dentro de si, que era responsável por alguém. Não decidiu que
podia amar aquela mulher por mera vaidade, porém, pela necessidade que sentiu
de voltar a viver o amor e todas as suas conseqüências, ainda que elas pudessem
parecer incoerentes ou mesmo estúpidas aos olhos do mundo. Precisava voltar a
ser e sentir-se uma cadela judia.
Os
três encontros que teve com Mahmoud foram tensos, mas precisava confiar nele,
afinal era ela quem estava arriscando a própria pele para salvar uma garota
palestina das mãos dos militares.
Mahmoud
não demonstrou a menor simpatia por Margo assim como Khaled, o homem que servia
de contato entre ela e o grupo a que a palestina pertencia. O menor deslize e
com certeza a matariam.
Mahmoud,
embora desconfiasse da historia contada por Margo, não tinha elementos
suficientes para verificar se havia de fato uma ligação entre a mãe dela e da
palestina. Contudo, era um homem de palavra e se tudo desse certo, como
planejaram, Margo não teria nenhum problema.
O quarto, e último encontro, não foi diferente
dos anteriores, muita tensão e nervosismo de ambas as partes. No dia seguinte
seria posto em pratica o plano se resgate da palestina, durante a transferência
do hospital para a prisão.
- Então, estamos acertados não é? – Perguntou Margo
a Mahmoud.
O
homem a olhou do mesmo modo que a olhava sempre, um brilho frio no olhar, as
sobrancelhas quase que como duas setas
sobre os olhos.
- Se não houver reação da parte deles a ação será
limpa. É tudo que posso dizer.
Margo
sabia disso e reafirmou sua proposta.
- A ação precisa ser limpa ou todo o plano
fracassa. Havendo mortes as forças de segurança não sossegarão até achá-los. Não
me importo em cair, afinal estou me arriscando para que pessoas como ela possam
lutar de outro modo pelo direito de viver em paz. Algum dia tudo isso precisa
acabar. Chega de mortes inúteis, desse ódio sem propósito. Alguém precisa parar
e pensar que isso não esta levando a nada.
Margo
fez uma pausa para que o homem refletisse sobre o que dizia, depois continuou,
olhando bem para ele.
- Estou viva e preciso, de alguma forma, trabalhar
para que outras pessoas não passem pelo que passei, que as próximas gerações
valorizem a vida. De todos.
Mahmoud
nada disse, manteve a mesma expressão, mas por um momento pareceu que uma de
suas sobrancelhas curvou-se ligeiramente para cima. Margo interpretou aquilo
como um bom sinal.
Naquela
manhã quando acordou, Margo quase não teve animo para sair da cama. O frio havia
diminuído embora a noite tivesse caído muita neve. Pensou na palestina que
dormia no quarto ao lado. Exatamente naquele dia se completava um ano desde que
empreendera a alucinada fuga com ela e continuavam naquele jogo de gato e rato.
Começava a perder as esperanças de conquistá-la. Sharihan Hadwh tinha, de fato, armado entre
elas uma muralha, considerando Margo uma inimiga, achando que tudo não passava
de uma encenação dela para obter informações sobre sua atividade terrorista.
Margo
recapitulou tudo que fez nos últimos meses e concluiu que não havia nada que
justificasse sua dedicação a Sharihan. Estavam na França, morando em Paris e
deveriam ser felizes, esquecendo o
passado, o resto do mundo.
Novamente
se via obrigada a abandonar a mulher que amava, porém desta vez não por uma
traição mas por razões políticas. O amor tinha nacionalidade. Sentou-se na cama e olhou a paisagem por uma
brecha da cortina. Tudo ainda estava cinza.
“Como minha vida”, pensou. Um ano
estava se passando e ela nada fez de útil, vivendo apenas para tentar
conquistar uma mulher que a ignorava, que não reconhecia ao menos que arriscara
a própria vida para ajudá-la. Sharihan já conseguia andar de muletas e a cada
dia seu progresso era visível. A palestina tinha a certeza inabalável de que
voltaria a andar, que não ficaria presa a uma cadeira de rodas e essa força de
vontade fazia com que Margo a imaginasse correndo em sua direção, pulando sobre
ela e as duas rodopiando como crianças. Depois, um longo beijo, os corpos
colados enquanto rolam pelo chão.
“Não
posso passar por isso novamente e voltar a achar que posso levar uma vida
normal”, murmurou. “Acostumei-me com a adrenalina das missões, a preencher a
minha vida com coisas que não precisava. Sharihan vai embora um dia, isto se
não der cabo de mim antes e o que vou fazer? Chorar, implorar para que não vá,
que não me mate? Sou apenas sua inimiga, jamais deixarei de ser”.
Lentamente
sai da cama e caminha em direção a porta. O trajeto é curto e ela vai se
lembrando de pedaços dos meses que tentou conquistar a palestina. Primeiro, mostrando que Sharihan agora era
uma mulher livre. Mas ela respondia que só poderia ser livre se seu país fosse
livre. Depois, argumentou sobre as possibilidades que poderia ter para lutar
por seus ideais de forma política, não necessariamente pela força, entretanto
Sharihan afirmou que nunca haveria dialogo com um governo que prima pela força,
que lhe tira todo direito que tem como ser humano. Por fim tentou demonstrar
que fizera o que fizera porque não acreditava naquela estúpida guerra entre
elas. No entanto, foi inútil. Sharihan disse-lhe com total frieza que Margo
sempre seria como um soldado, agindo sobre ordens.
Mas
não era como um soldado que Margo a colocava ou retirava da cama para a cadeira
de rodas e a levá-la a fisioterapia,
mesmo sentindo que o corpo da palestina se contraía ao ser tocado pelas mãos de
Margo demonstrando total aversão aquela ajuda. E Margo alimentava seu amor apenas
por aqueles breves momentos em que podia sentir o aroma de seus cabelos, o
calor de seu corpo. Estar mais próxima de Sharihan fisicamente era, ao menos,
um consolo. Seu coração batia mais forte nesse instante fazendo-a lembrar-se do
momento em que esteve também próxima da morte. Nesses instantes sentia uma
necessidade de amar e ser amada como nunca havia sentido.
A
mão gira a maçaneta fria aumentando a desagradável sensação de impotência, de
abandono, de perda. Caminha, curvada, pelo
corredor parcialmente escuro
tocando-lhe a parede de madeira com a derrota pesando-lhe nos ombros. Ouve o
crepitar da lenha que ainda queima na lareira e pensa em sentar-se em frente a
ela e olhar o fogo, as chamas que brincam de destruir a madeira. Como a relação
entre elas. Só restarão as cinzas, os despojos da guerra. “Quando ela acordar”, pensa, “direi que vou
embora, que se quiser voltar a sua terra e continuar sua estúpida luta poderá
ir, tanto faz porque não vou ligar a mínima se vai viver ou morrer. O problema
será dela. Ofereci-lhe a paz, o dialogo, mas ela prefere a guerra. Pois assim
seja.”
Ao
entrar na sala depara-se com Sharihan de pé, sem as muletas, nua e segurando
duas taças de champagne. A palestina não pode deixar de sorrir ao ver no rosto
de Margo a surpresa por aquela visão.
- Completamos hoje um ano que fugimos, que você se
arriscou para me mostrar que mundos diferentes podem existir e viver em paz.
Sharihan
aproxima-se devagar, as sombras do fogo desenhando figuras em seu corpo e
entrega a taça que Margo pega com a mão tremula. O coração de Margo cresce de
desejo vendo os seios jovens de Sharihan avassaladoramente excitados.
A
palestina se eleva na ponta dos pés e beija delicadamente os lábios de Margo
que fecha os olhos para sentir os lábios quentes num beijo que tanto sonhara.
Depois, Sharihan se afasta e cruzando seu braço com o de Margo, como fazem os
noivos, propõem:
- Um brinde a nossa guerra por amor, que ela nunca
termine.
(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares e é continuação do conto Mudança Radical.
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