OPÇÃO
(escolha a sua)
(1) A MENTIRA
(2) UM ENGANO
(3) O DISFARCE
(
)
O homem está sentado no sofá lendo o jornal quando ouve o grito da
mulher. Corre esbaforido até o quarto do filho e a encontra sentada na cama, a mão na boca, olhar de quem
viu a pior coisa do mundo.
- O que houve, o que aconteceu? - Pergunta ele ainda da porta.
Ela
o olha devagar, como em câmera lenta, os olhos marejados de lagrimas.
- Olha o que achei... – entrega ao marido uma
revista – nas coisas do Junior...
O
homem se apressa em pegar a revista.
- É uma revista gay – Completa ela no mais profundo
assombro – nosso filho é gay.
O
homem folheia a revista com lentidão. Abre o pôster central e faz caras e
bocas.
- Nossa, pensei que isso fosse só mito. – Diz
espantado, olhos arregalados.
A
mulher parece não acreditar no que descobriu e não para de murmurar que o filho
é gay.
- Bem que achei que havia alguma coisa errada com
ele, desde pequeno que sou cismada. Lembra que ele só trouxe uma garota até
hoje aqui em casa, e não ficou bem certo se era amiga ou namorada. E aqueles
tipos com quem anda? Ah, devia ter percebido isso a mais tempo! Que burra que
eu sou! – Bate com a mão aberta na testa varias vezes
- Olha, se o menino for gay mesmo melhor que seja
ativo... pra encarar isso aqui tem que ser muito homem..
A
mulher se estressa:
- Puta-que-pariu! Acabamos de descobrir que nosso
filho é gay e você está preocupado se ele é ativo ou passivo? Francamente!
O
homem fecha a revista, coça a cabeça e depois, num gesto instintivo aperta o
próprio pênis num sinal inequívoco de que estava preocupado.
- É claro que não quero que ele seja gay mas se for
é preciso aceitar a escolha...
Ela
não deixa que ele termine a frase.
- Aceitar é o cacete! O cacete! Ta pensando que
esperei nove meses, sofri pra burro pra ter filho afeminado? Sem falar na
vergonha. Como é que vou encarar os vizinhos?
Ele
comete novamente o erro de querer defender a possível escolha do filho.
- Mas se ele é feliz assim, porque não aceitar e tudo
fica em paz.
Ela
entra em crise. Levanta-se de um pinote quase pulando sobre ele que recua um
passo.
- Você enlouqueceu de vez! Ele tem paz e eu vou pro
inferno né? Já imaginou a chacota que vai ser quando eu passar? Como é que vou
poder ir ao supermercado, ao shopping e ao salão da esquina? Se ele fingiu tão bem até agora é melhor que continue
fingindo até ter condição de ir morar com algum macho. Enquanto estiver morando
comigo tem que ser homem!
O
marido dá um longo suspiro e entrega a revista a mulher.
- Então faça como quiser – diz resignado virando as
costas para sair do quarto.
Ela
vai atrás esbravejando.
- E não vai saindo de fininho não porque a culpa é
sua dele ter ficado assim.
Ele
se virá rápido, assustado.
- Minha? Quem cuidou dele sempre foi você,
paparicando, fazendo as vontades!
Ela
revida a altura.
- Se ele não aprendeu a ser homem como o pai não
posso fazer nada. Você nunca levou o garoto ao Maracanã pra ver o flamengo
jogar.
- Ele não gosta de futebol, você sabe muito bem que
o negocio dele é malhar na academia.
- Ah sim, fica malhando pra ter a bunda dura... empinadinha,
bem arrebitada para os outros aproveitarem. Que merda, porra!
Ele
tenta negociar.
- Dá para ficar calma e pensar um pouquinho?
- Pensar no quê, na vergonha que vai ser?
- Olha só, o fato de encontrar uma revista nas
coisas dele não significa que ele é gay.
A
mulher tem novo ataque de cólera.
- Mas que homem cego! Cego ou burro. Tá legal,
suponhamos que você ache um enorme pênis
preto de borracha nas minhas coisas e se eu disser que não é meu você
acreditaria?
- Talvez sim, talvez não, mas primeiro terei que ouvir sua explicação.
Ela
o olha serio.
- Eu tenho um enorme pênis preto guardado no fundo
do armário. Quer que eu pegue e te mostre?
- Grande quanto?
- Uns trinta centímetros.
O
homem esboça um sorriso de desdém.
- Até parece que você foi ao sex shopping comprar.
- Veio pelo correio.
- É serio? Quando você comprou isso?
- Nós ainda namorávamos e eu usava depois que você
ia embora.
O
marido fica meio ressabiado.
- Hum... são mais de vinte anos que você tem essa
coisa. Deve estar um pouco gasto ainda mais guardado esse tempo todo.
- Nem tanto. Só fica ruim se não for usado com
freqüência.
Ele
a olha, coça novamente o pênis faz cara de apalermado. Depois pega com rispidez
a revista das mãos dela e faz um canudo com ela.
- Pode deixar esse assunto comigo agora. Depois do
jantar teremos uma conversa eu e ele. Você finja que não sabe de nada, continue
tratando o garoto como se nada tivesse
acontecido.
Vira-se
rápido e sai bufando, pisando forte.
Ela
bota as mãos na cintura e franze a testa, depois vai para a cozinha preparar o
jantar.
Logo
após o jantar a mãe informa que vai ver a novela na casa da vizinha porque o
capitulo de hoje esta imperdível, deixando pai e filho sozinhos.
Cinco
minutos depois o pai pergunta se pode desligar a televisão porque quer
conversar uma coisa com o filho. Então
pega numa gaveta a revista gay. Faz um ar serio e com voz grave fala
quase num sussuro:
- Pô filhão vê se não deixa mais suas revistas espalhadas por ai.
- Foi mal pai.
- Sua mãe é que pegou e ela não gostou nadinha...
depois você conversa com ela e abre o jogo, vai ser melhor. Ela vai sofrer no
inicio mas acaba aceitando, ok?
- Melhor assim.
- Amanha conversa com ela ta?
O
garoto abraça o pai com carinho.
- Valeu pai, você é um amigão.
- Vê se não fica no computador até tarde ta?
Fica
vendo o garoto atravessar o corredor em direção ao quarto. Depois vai para o
seu quarto e abre a porta do armário e enquanto coça o pênis pensa:
- Vamos ver, ela disse no fundo do armário não foi?
( )
A
mãe bate na porta do quarto da filha.
- Posso entrar? – Pergunta enfiando a cabeça pela
abertura da porta.
A
garota, dezessete para dezoito anos, de
camiseta, calcinha e meias esta
recostada na cama, fones no ouvido e com um livro no colo.
- Que é mãe? – Responde a menina demonstrando uma
certa má vontade.
A
mãe entra meio que sorrateira e fecha devagar a porta para não fazer barulho.
- Podemos conversar filha?
- Mãe, estou estudando. Pode ser depois?
- Não, é melhor agora enquanto seu pai não chega.
A
garota puxa os fones do ouvido e fecha o livro ficando com o dedo indicador a
marcar aonde parou. A musica continua a sair pelos pequenos auto-falantes como
um chiado.
- Diminui um pouco esse troço que preciso ter uma
conversa seria com você.
A
menina se remexe na cama demonstrando alguma preocupação e desliga o aparelho.
- Mãe, olha só, não sei o que te falaram... eu e o
Carlinhos, sabe, nos estamos juntos...
- Esquece o
Carlinhos.
-Ãh...?!
- Olha só isso.
Entrega
a menina uma revista gay com dois homens abraçados na capa.
- Pô mãe, que coisa mais nojenta. Não sabia que a
senhora gostava disso!
A
mãe a olha seria.
- Achei nas coisas de seu pai.
- O quê? Jura?
- Tava lá, na caixa de ferramentas, escondida.
Enrolada no cabo do martelo.
- Tem certeza que é dele?
- Claro. A única pessoa que mexe naquela caixa é
ele.
- Pô, papai é gay mamãe?
A
mulher pensa bem antes de responder.
- Se é me enganou muito bem nesses anos todos.
- Olha, nunca reparei nada de esquisito nele. E a
senhora?
- Nada. Nem um mínimo deslize. Tô abismada. Quase
vinte e dois anos de casada e agora essa surpresa.
- Mãe, será que não é coisa recente? Vocês tem
transado?
A
mãe fica envergonhada.
- Que é isso minha filha, olha o respeito.
- Mãe, não é hora de ficar cheia de pudores. Quando
foi a ultima vez que transaram?
Ela
reluta em falar, fica sem jeito mas acaba respondendo:
- Ontem a noite. E hoje pela manhã.
A
filha se surpreende.
- Nossa, papai tem disposição hein?
- Na verdade transamos com bastante freqüência. Seu
pai é bem ativo.
- E será que com os rapazes ele é passivo, sabe
como é, pra compensar.
A
mãe se aborrece.
- Ah, não fala isso que sinto até dor no peito. Tem
que haver uma explicação.
A
filha bola um plano.
- Mãe, já sei o que podemos fazer.
- Sinto muito mas não tenho a menor coragem de
conversar isso com ele. Prefiro me separar.
- Escuta só meu plano. A senhora coloca isso outra
vez na caixa de ferramentas e quando ele chegar pede para ele apertar um
parafuso, sei lá, qualquer coisa que precise de uma ferramenta. Ai nós ficamos
escondidas e vemos a reação dele.
A
mãe não entende.
- Sim, e daí? Você quer dar uma flagra nele, é
isso?
- Mais ou menos. Pela reação dele dá pra avaliar
alguma coisa. Por exemplo, se ele for mesmo gay vai ficar olhando a revista,
depois é bem provável que fique excitado e se masturbe.
A mãe explode em indignação.
- Ah, você acha que eu tenho estomago pra isso é?
- Mas ai a senhora terá certeza de que papai é gay
e acaba sua duvida.
A
mãe acaba concordando que essa é de fato a melhor solução.
A
noite quando o homem chega do trabalho a mulher inventa um problema na
lava-roupas e pede que ele futuque as engrenagens da maquina. Pacientemente o
homem vai até a garagem e pega sua maleta de ferramentas e ao abrir se depara
com a revista. A mãe e a filha estão aflitas espionando. Ele passa os olhos
pelas figuras sem muita animação e depois de algumas paginas fecha a revista e
a recoloca na caixa. Pega o jogo de
chave de fendas e volta para a área onde esta a máquina. Elas correm e quando
ele entra as duas estão ao lado da máquina com aquela cara que só as mulheres
tem quando querem disfarçar. Ele percebe alguma coisa no ar e enquanto faz
força para girar a máquina diz sem esboçar surpresa:
- Vocês sabiam que nosso vizinho é gay? Encontrei
uma revista gay na minha caixa de ferramentas que emprestei pra ele outro dia.
E
enquanto ele saca do bolso de trás o jogo de chaves de fenda mãe e filha se
olham apalermadas pela noticia de ter um vizinho gay.
( )
O
telefone interno toca e a voz do chefe chama o assessor a sala dele. Mal o
funcionário entra e o chefe já vai perguntando:
- E ai, colocou o bilhete na mesa dele, colocou?
O
rapaz assume ar de espião antes de responder.
- Claro chefe. E dessa vez fui mais ousado... pus
dentro da agenda dele.
- Ah! – fez o chefe com enorme satisfação – agora
sim a coisa vai ficar boa!
O
subalterno coça com o dedo indicador a cabeça.
- Mas chefe, se ele for mesmo veado o senhor vai
fazer o quê, demitir ele?
O
chefe se empina e dá um murro na mesa.
- Nesta empresa jamais trabalhou ou trabalhará um
homossexual enquanto eu estiver aqui! Temos uma reputação no mercado e não
podemos servir de chacota, não seremos alvo de piadinhas...
- Sabe chefe, aquela revista no banheiro pode ser
de qualquer um, até do faxineiro...
O
homem abre um enorme sorriso como se estivesse iluminado.
- A tal revista obscena apareceu justamente depois
da contratação dele, logo, só pode ser dele. Mas em breve teremos a resposta
para esse caso. Tem certeza de que o lugar do encontro é mesmo de um bar gay?
É
a vez do funcionário encher o peito.
- Claro que é. Alias um lugar de um certo bom
gosto, embora sirva para encontros sórdidos, é bem decorado, dizem que a comida
é muito boa e que existe uma passagem secreta que leva para outros aposentos
onde as coisas verdadeiramente acontecem. Meu informante me garantiu isso.
O
chefe o olha meio desconfiado.
- Espero que tenha valido a pena o dinheiro que
desembolsei pela informação. Enfim, agora é só esperar para ver se ele morde a
isca. Você marcou para hoje não foi?
- As dez e meia. Meu informante disse que esse é o
melhor horário pois é nessa hora que o movimento aumenta.
O
homem esfrega as mãos satisfeito.
- Ótimo. Amanhã você me diz se ele foi e se seu informante
fez contato.
Eram
quase dez e meia quando ele chegou. O assessor o viu descer do táxi um pouco
mais a frente da entrada do bar.
- Não é que ele veio mesmo? - Murmurou meio assombrado. Depois passou a mão
pelo queixo alisando a barba.
O
rapaz olhou ao redor antes de entrar e se encaminhou para uma mesa mais ao
fundo. O assessor deixou passar alguns minutos,
desceu do carro e ficou espreitando por entre as árvores e os carros
estacionados, tentando ver algo. Por fim entrou e antes que pudesse descobrir
uma mesa vazia o maitre pediu que o acompanhasse. Qual não foi sua surpresa
quando percebeu que tinha sido levado justamente para a mesa do suspeito que
sem nenhuma surpresa lhe disse com um expressivo sorriso:
- Você não é nada pontual né?
O chefe dá um longo suspiro e parece
desapontado.
- Tem certeza do que esta me dizendo?
- Absoluta. Meu informante jamais mentiria para
mim.
- Melhor assim. Afinal ele é um ótimo funcionário e
seria uma perda lastimável para nós. E se ele não apareceu no bar agora temos
certeza de que é homem como nós. Muito obrigado, pode sair, se precisar de
alguma coisa eu lhe chamo.
O
funcionário sai e o chefe faz um ar meio contrariado enquanto pensa com seus
botões.
-
Que pena, um rapaz tão bonito bem que podia ser gay.
(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)
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