quarta-feira, 4 de julho de 2012


OPÇÃO
(escolha a sua)


(1)  A MENTIRA
(2) UM ENGANO
 (3) O DISFARCE


(   )

     O homem está sentado no sofá lendo o jornal quando ouve o grito da mulher. Corre esbaforido até o quarto do filho e a encontra  sentada na cama, a mão na boca, olhar de quem viu a pior coisa do mundo.
- O que houve, o que aconteceu? -  Pergunta ele ainda da porta.
    Ela o olha devagar, como em câmera lenta, os olhos marejados de lagrimas.
- Olha o que achei... – entrega ao marido uma revista – nas coisas do Junior...
        O homem se apressa em pegar a revista.
- É uma revista gay – Completa ela no mais profundo assombro – nosso filho é gay.
      O homem folheia a revista com lentidão. Abre o pôster central e faz caras e bocas.
- Nossa, pensei que isso fosse só mito. – Diz espantado, olhos arregalados.
      A mulher parece não acreditar no que descobriu e não para de murmurar que o filho é gay.
- Bem que achei que havia alguma coisa errada com ele, desde pequeno que sou cismada. Lembra que ele só trouxe uma garota até hoje aqui em casa, e não ficou bem certo se era amiga ou namorada. E aqueles tipos com quem anda? Ah, devia ter percebido isso a mais tempo! Que burra que eu sou! – Bate com a mão aberta na testa varias vezes
- Olha, se o menino for gay mesmo melhor que seja ativo... pra encarar isso aqui tem que ser muito homem..
       A mulher se estressa:
- Puta-que-pariu! Acabamos de descobrir que nosso filho é gay e você está preocupado se ele é ativo ou passivo? Francamente!
     O homem fecha a revista, coça a cabeça e depois, num gesto instintivo aperta o próprio pênis num sinal inequívoco de que estava preocupado.
- É claro que não quero que ele seja gay mas se for é preciso aceitar a escolha...
       Ela não deixa que ele termine a frase.
- Aceitar é o cacete! O cacete! Ta pensando que esperei nove meses, sofri pra burro pra ter filho afeminado? Sem falar na vergonha. Como é que vou encarar os vizinhos?
    Ele comete novamente o erro de querer defender a possível escolha do filho.
- Mas se ele é feliz assim, porque não aceitar e tudo fica em paz.
     Ela entra em crise. Levanta-se de um pinote quase pulando sobre ele que recua um passo.
- Você enlouqueceu de vez! Ele tem paz e eu vou pro inferno né? Já imaginou a chacota que vai ser quando eu passar? Como é que vou poder ir ao supermercado, ao shopping e ao salão da esquina? Se  ele fingiu tão bem até agora é melhor que continue fingindo até ter condição de ir morar com algum macho. Enquanto estiver morando comigo tem que ser homem!
      O marido dá um longo suspiro e entrega a revista a mulher.
- Então faça como quiser – diz resignado virando as costas para sair do quarto.
      Ela vai atrás esbravejando.
- E não vai saindo de fininho não porque a culpa é sua dele ter ficado assim.
      Ele se virá rápido, assustado.
- Minha? Quem cuidou dele sempre foi você, paparicando, fazendo as vontades!
      Ela revida a altura.
- Se ele não aprendeu a ser homem como o pai não posso fazer nada. Você nunca levou o garoto ao Maracanã pra ver o flamengo jogar.
 - Ele não gosta de futebol, você sabe muito bem que o negocio dele é malhar na academia.
- Ah sim, fica malhando pra ter a bunda dura... empinadinha, bem arrebitada para os outros aproveitarem. Que merda, porra!
      Ele tenta negociar.
- Dá para ficar calma e pensar um pouquinho?
- Pensar no quê, na vergonha que vai ser?
- Olha só, o fato de encontrar uma revista nas coisas dele não significa que ele é gay.
      A mulher tem novo ataque de cólera.
- Mas que homem cego! Cego ou burro. Tá legal, suponhamos que  você ache um enorme pênis preto de borracha nas minhas coisas e se eu disser que não é meu você acreditaria?
- Talvez sim, talvez não, mas primeiro terei  que ouvir sua explicação.
      Ela o olha serio.
- Eu tenho um enorme pênis preto guardado no fundo do armário. Quer que eu pegue e te mostre?
- Grande quanto?
- Uns trinta centímetros.
      O homem esboça um sorriso de desdém.
- Até parece que você foi ao sex shopping comprar.
- Veio pelo correio.
- É serio? Quando você comprou isso?
- Nós ainda namorávamos e eu usava depois que você ia embora.
      O marido fica meio ressabiado.
- Hum... são mais de vinte anos que você tem essa coisa. Deve estar um pouco gasto ainda mais guardado esse tempo todo.
- Nem tanto. Só fica ruim se não for usado com freqüência.
     Ele a olha, coça novamente o pênis faz cara de apalermado. Depois pega com rispidez a revista das mãos dela e faz um canudo com ela.
- Pode deixar esse assunto comigo agora. Depois do jantar teremos uma conversa eu e ele. Você finja que não sabe de nada, continue tratando  o garoto como se nada tivesse acontecido.
       Vira-se rápido e sai bufando, pisando forte.
      Ela bota as mãos na cintura e franze a testa, depois vai para a cozinha preparar o jantar.

      Logo após o jantar a mãe informa que vai ver a novela na casa da vizinha porque o capitulo de hoje esta imperdível, deixando pai e filho sozinhos.
      Cinco minutos depois o pai pergunta se pode desligar a televisão porque quer conversar uma coisa com o filho. Então  pega numa gaveta a revista gay. Faz um ar serio e com voz grave fala quase num sussuro:
- Pô filhão vê se não deixa mais  suas revistas espalhadas por ai.
- Foi mal pai.
- Sua mãe é que pegou e ela não gostou nadinha... depois você conversa com ela e abre o jogo, vai ser melhor. Ela vai sofrer no inicio mas acaba aceitando, ok?
- Melhor assim.
- Amanha conversa com ela ta?
       O garoto abraça o pai com carinho.
- Valeu pai, você é um amigão.
- Vê se não fica no computador até tarde ta?
      Fica vendo o garoto atravessar o corredor em direção ao quarto. Depois vai para o seu quarto e abre a porta do armário e enquanto coça o pênis pensa:
- Vamos ver, ela disse no fundo do armário não foi?



(    )

       A mãe bate na porta do quarto da filha.
- Posso entrar? – Pergunta enfiando a cabeça pela abertura da porta.
     A garota, dezessete  para dezoito anos, de camiseta, calcinha e meias  esta recostada na cama, fones no ouvido e com um livro no colo.
- Que é mãe? – Responde a menina demonstrando uma certa má vontade.
      A mãe entra meio que sorrateira e fecha devagar a porta para não fazer barulho.
- Podemos conversar filha?
- Mãe, estou estudando. Pode ser depois?
- Não, é melhor agora enquanto seu pai não chega.
    A garota puxa os fones do ouvido e fecha o livro ficando com o dedo indicador a marcar aonde parou. A musica continua a sair pelos pequenos auto-falantes como um chiado.
- Diminui um pouco esse troço que preciso ter uma conversa seria com você.
     A menina se remexe na cama demonstrando alguma preocupação e desliga o aparelho.
- Mãe, olha só, não sei o que te falaram... eu e o Carlinhos, sabe, nos estamos juntos...
-   Esquece o Carlinhos.
-Ãh...?!
- Olha só isso.
     Entrega a menina uma revista gay com dois homens abraçados na capa.
- Pô mãe, que coisa mais nojenta. Não sabia que a senhora gostava disso!
     A mãe a olha seria.
- Achei nas coisas de seu pai.
- O quê? Jura?
- Tava lá, na caixa de ferramentas, escondida. Enrolada no cabo do martelo.
- Tem certeza que é dele?
- Claro. A única pessoa que mexe naquela caixa é ele.
- Pô, papai é gay mamãe?
     A mulher pensa bem antes de responder.
- Se é me enganou muito bem nesses anos todos.
- Olha, nunca reparei nada de esquisito nele. E a senhora?
- Nada. Nem um mínimo deslize. Tô abismada. Quase vinte e dois anos de casada e agora essa surpresa.
- Mãe, será que não é coisa recente? Vocês tem transado?
     A mãe fica envergonhada.
- Que é isso minha filha, olha o respeito.
- Mãe, não é hora de ficar cheia de pudores. Quando foi a ultima vez que transaram?
     Ela reluta em falar, fica sem jeito mas acaba respondendo:
- Ontem a noite. E hoje pela manhã.
     A filha se surpreende.
- Nossa, papai tem disposição hein?
- Na verdade transamos com bastante freqüência. Seu pai é bem ativo.
- E será que com os rapazes ele é passivo, sabe como é, pra compensar.
     A mãe se aborrece.
- Ah, não fala isso que sinto até dor no peito. Tem que haver uma explicação.
     A filha bola um plano.
- Mãe, já sei o que podemos fazer.
- Sinto muito mas não tenho a menor coragem de conversar isso com ele. Prefiro me separar.
- Escuta só meu plano. A senhora coloca isso outra vez na caixa de ferramentas e quando ele chegar pede para ele apertar um parafuso, sei lá, qualquer coisa que precise de uma ferramenta. Ai nós ficamos escondidas e vemos a reação dele.
     A mãe não entende.
- Sim, e daí? Você quer dar uma flagra nele, é isso?
- Mais ou menos. Pela reação dele dá pra avaliar alguma coisa. Por exemplo, se ele for mesmo gay vai ficar olhando a revista, depois é bem provável que fique excitado e se masturbe.
     A mãe explode em indignação.
- Ah, você acha que eu tenho estomago pra isso é?
- Mas ai a senhora terá certeza de que papai é gay e acaba sua duvida.
     A mãe acaba concordando que essa é de fato a melhor solução.

    A noite quando o homem chega do trabalho a mulher inventa um problema na lava-roupas e pede que ele futuque as engrenagens da maquina. Pacientemente o homem vai até a garagem e pega sua maleta de ferramentas e ao abrir se depara com a revista. A mãe e a filha estão aflitas espionando. Ele passa os olhos pelas figuras sem muita animação e depois de algumas paginas fecha a revista e a recoloca  na caixa. Pega o jogo de chave de fendas e volta para a área onde esta a máquina. Elas correm e quando ele entra as duas estão ao lado da máquina com aquela cara que só as mulheres tem quando querem disfarçar. Ele percebe alguma coisa no ar e enquanto faz força para girar a máquina diz sem esboçar surpresa: 
- Vocês sabiam que nosso vizinho é gay? Encontrei uma revista gay na minha caixa de ferramentas que emprestei pra ele outro dia.
    E enquanto ele saca do bolso de trás o jogo de chaves de fenda mãe e filha se olham apalermadas pela noticia de ter um vizinho gay.


 (     )


     O telefone interno toca e a voz do chefe chama o assessor a sala dele. Mal o funcionário entra e o chefe já vai perguntando:
- E ai, colocou o bilhete na mesa dele, colocou?
      O rapaz assume ar de espião antes de responder.
- Claro chefe. E dessa vez fui mais ousado... pus dentro da agenda dele.
- Ah! – fez o chefe com enorme satisfação – agora sim a coisa vai ficar boa!
      O subalterno coça com o dedo indicador a cabeça.
- Mas chefe, se ele for mesmo veado o senhor vai fazer o quê, demitir ele?
      O chefe se empina e dá um murro na mesa.
- Nesta empresa jamais trabalhou ou trabalhará um homossexual enquanto eu estiver aqui! Temos uma reputação no mercado e não podemos servir de chacota, não seremos alvo de piadinhas...
- Sabe chefe, aquela revista no banheiro pode ser de qualquer um, até do faxineiro...
      O homem abre um enorme sorriso como se estivesse iluminado.
- A tal revista obscena apareceu justamente depois da contratação dele, logo, só pode ser dele. Mas em breve teremos a resposta para esse caso. Tem certeza de que o lugar do encontro é mesmo de um bar gay?
      É a vez do funcionário encher o peito.
- Claro que é. Alias um lugar de um certo bom gosto, embora sirva para encontros sórdidos, é bem decorado, dizem que a comida é muito boa e que existe uma passagem secreta que leva para outros aposentos onde as coisas verdadeiramente acontecem. Meu informante me garantiu isso.
      O chefe o olha meio desconfiado.
- Espero que tenha valido a pena o dinheiro que desembolsei pela informação. Enfim, agora é só esperar para ver se ele morde a isca. Você marcou para hoje não foi?
- As dez e meia. Meu informante disse que esse é o melhor horário pois é nessa hora que o movimento aumenta.
      O homem esfrega as mãos satisfeito.
- Ótimo. Amanhã você me diz se ele foi e se seu informante fez contato.


    Eram quase dez e meia quando ele chegou. O assessor o viu descer do táxi um pouco mais a frente da entrada do bar.
- Não é que ele veio mesmo? -  Murmurou meio assombrado. Depois passou a mão pelo queixo alisando a barba.
    O rapaz olhou ao redor antes de entrar e se encaminhou para uma mesa mais ao fundo. O assessor deixou passar alguns minutos,  desceu do carro e ficou espreitando por entre as árvores e os carros estacionados, tentando ver algo. Por fim entrou e antes que pudesse descobrir uma mesa vazia o maitre pediu que o acompanhasse. Qual não foi sua surpresa quando percebeu que tinha sido levado justamente para a mesa do suspeito que sem nenhuma surpresa lhe disse com um expressivo sorriso:
- Você não é nada pontual né?

     O chefe dá um longo suspiro e parece desapontado.
- Tem certeza do que esta me dizendo?
- Absoluta. Meu informante jamais mentiria para mim.
- Melhor assim. Afinal ele é um ótimo funcionário e seria uma perda lastimável para nós. E se ele não apareceu no bar agora temos certeza de que é homem como nós. Muito obrigado, pode sair, se precisar de alguma coisa eu lhe chamo.
    O funcionário sai e o chefe faz um ar meio contrariado enquanto pensa com seus botões.
- Que pena, um rapaz tão bonito bem que podia ser gay.

 (Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

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