A HISTÓRIA DE XAVIER, NOEMIA, FELIPE E WILMA
SEGUNDO ELES PRÓPRIOS.
- Por ser um
cara muito branco, mas muito branco e morar na Guanabara recebi logo o apelido
de paulista. Mas sou carioca. Da gema. É verdade que não gosto muito de praia,
porém ganhar esse apelido é muito humilhante. Pior foi ter que frequentar a
praia sábado e domingo durante um mês para ver se a turma esquecia da coisa.
Qual nada! Deu-se justamente o contrário, pois além de ficar todo ardido acabei
descascando igual barata nova, um verdadeiro paulista! Aí tive mesmo é que
assumir o apelido. Estudei em boas escolas públicas, nada a declara neste
período, com exceção de sempre haver me destacado nas aulas de educação física
como um excelente velocista. Tinha a melhor arrancada de toda a escola e era
imbatível nos cem metros, o que não me valeu muita fama. Quando jogava futebol
gostava de ser goleiro e diga-se de passagem até que defendia bem, Sempre fui
melhor com as mãos do que com os pés. Ao ingressar no ginásio optei pelo
basquete e apesar da altura não ajudar muito tornei-me um bom arremessador de
bolas próximas a cesta. De resto era ruim em matemática, como a maioria. Tive mais mulheres do que namoradas. O ato de
namorar era algo muitíssimo complicado e exigia uma alienação total dos valores
que adquiri lendo as revistinhas do Carlos Zéfiro, entre outras, que de um modo
ou de outro são nossos professores nessa matéria. Sempre achei mais
interessante ir além do beijo na boca. Independente disso me apaixonei umas
duas vezes, sendo que uma delas por uma prostituta que tinha uma paixão louca
por mim. Chegou a propor-me certa vez, após uma noite de prazer e orgia que me
transformasse em seu cafetão. Foi então que me desiludi. Podia ser um canalha mas
explorador de mulher nunca, afinal eu tinha a minha moral além de não ser tolo
o suficiente para achar-me tão malandro assim. A segunda mulher por quem me
apaixonei foi nossa empregada, uma baiana cabeça-chata e com sotaque. Ela fazia
uma moqueca que me deixava em êxtase. A primeira vez que fomos para a cama nos
lambuzamos com azeite de dendê. Fui um tremendo covarde quando descobriram que
ela estava grávida e a mandaram embora. E apesar das suspeitas recaírem sobre
meu irmão mais velho, ela nunca demostrou raiva por minha atitude covarde.
Depois disso nunca mais consegui comer comida baiana. Verdade se diga, não sou
uma pessoa ruim, promiscua ou alienada. Tanto me importo com o mundo, com as
pessoas que abdiquei da minha vida em prol de um mundo melhor. Não foi só para
me redimir, minha vocação é essa. Vocação despertada somente após o golpe de
sessenta e quatro quando minha revolta explodiu completamente e não pude deixar
de optar pelo engajamento na militância politica. Tudo começou em sessenta e
oito, quando invadiram o Calabouço e mataram o Edson Luís. Aquilo foi a minha
senha para entrar de cabeça na coisa. E se cada um de nós desse um pouco de si
contra ao absurdo que foi aquele golpe, provavelmente muitos estudantes não
tivesse morrido. Infelizmente eram dias em que a morte de inocente não era mais
forte do que nossos protestos. Daí a única saída, a única resposta possível de
nossa parte era a luta armada, por um dever cívico, patriótico. O dever de todo
cidadão que aprendeu a respeitar as leis de seu país. Não fomos nós que demos o
primeiro tiro. Se Jânio ou Jango tiveram culpa nós também tivemos por apoia-los
ou não e nesse caso cada um deve ter seus motivos para avaliar seu
posicionamento diante dos fatos. E quem se omitiu contribuiu para validar o
golpe odioso em nossa frágil democracia. Hoje, continuo com a mesma disposição
de quando entrei na luta, mas sei que as pessoas não me compreendem, que me
julgam somente pelos atos que chamam de terroristas enquanto quem esta no poder
faz o que bem quer, até assassinando estudantes. A essas pessoas eu peço: sejam capazes de julgar a si próprios antes
de me condenar. Sonhei sim, com um exercito revolucionário capaz de marchar
sempre de cabeça erguida e nunca temer o irmão fardado, de arma em punho
achando que esta cumprindo com seu dever. Nós também estamos, ao nosso modo,
defendendo a pátria. A nossa pátria. Não somos Fideis ou Guevaras mas temos
algum valor. Não fiquei frequentando as folclóricas reuniões na faculdade,
discutindo quem tinha direito de se colocar no lugar do Costa e Silva. Parti
logo para a ação e entrei para uma organização de extrema-esquerda com ideias
bem definidas. Nossas ações armadas, embora de pequeno porte, rendiam dinheiro
que dava para manter uma estrutura enquanto articulávamos ações conjuntas com
outros grupos. Esse talvez tenha sido um problema. Alguns grupos não tinham uma
linha bem definida, eram na verdade, um emaranhado de tendências e acabamos,
apesar de todos os esforços em contrario, sendo confundidos como bandidos comuns,
mesmo deixando panfletos denunciando as arbitrariedades do governo, para
justificar nossas ações. Depois disso não demorou para a repressão cair em
cima, não dando mais espaço. E foi numa dessas ações, num assalto a um banco em
Belo Horizonte que quatro dos nossos caíram mortos. Só eu e outro companheiro
conseguimos escapar. Por sorte, ele havia enfiado algum dinheiro no bolso,
coisa pouca, mas que deu para pagar dois dias em uma hospedagem não muito longe
do local do assalto. Foi seguramente a nossa primeira grande derrota para a
repressão. Lembro que Hermes naquela noite caiu numa depressão profunda e
quando vimos a noite o noticiário confirmando as mortes dos companheiros ele
queria sair dando tiros a esmo. A grande
e única lição que tirei disso tudo foi a constatação de que não podíamos ser
emocionais em relação a nossa causa. Sentir era uma coisa, entretanto, cair no
desespero era outra completamente sem proposito, que só nos levaria ao desgaste
e a cometer mais falhas. Tínhamos que ser frios, profissionais. Tentei expor
isso com a maior clareza aqueles que atuaram comigo e acho que contribui para
que muitos tivessem sucesso. Eu mesmo me salvei uma vez agindo de forma fria e
calculada quando cai em uma batida policial passando-me por militar apenas por
perceber nele uma ligeira hesitação em sua abordagem. A verdade é que naqueles
dias ainda se respeitava o cidadão e por sorte nós ainda não tínhamos a cara de
terroristas. Antes desta loucura toda acontecer eu não saberia dizer se era ou
não feliz. Tinha uma família, amigos... acho que foi isso que sempre me
incomodou. Tudo era por demais obvio. A
impressão que me dava era que alguém conduzia a minha vida e eu acabava
concordando com tudo. Sei muito bem que não entrei na luta só para agitar minha
vida, mas havia a simpatia e identificação com a causa socialista. Cuba
realmente era um exemplo e a morte do Guevara confirmava isso em mim. Ele foi a
demonstração mais forte de um ideal, de uma ideologia que eu imaginava a noite
quando me deitava para dormir. Minha vida ficava pequena diante da morte dele,
do que isso representou para todos aqueles que amavam a liberdade. Não havia
outra maneira para justificar o gesto dele em abdicar de sua vida por uma luta
que nem ao menos era dele. Ele não se preocupava com isso e ia em frente
sabendo do risco que corria. Primeiro ficava me perguntando se valeria a pena
morrer por uma revolução, depois não acreditava no próprio sucesso da revolução
nos moldes em que era proposto seu desenvolvimento. O proletariado é muito imbecil
para abraçar a causa e tomar o poder. Não me arrependi de entrar na luta, mas
as condições que se apresentam hoje talvez a torne inviável de acontecer e se
manter. O governo se firma cada vez mais através de uma propaganda fantasiosa
além de ter reforçado seus mecanismos de repressão, inclusive destruindo o
sistema politico com a criação de apenas dois partidos, a Arena e o MDB.
- Tá certo,
agora me deixa falar também!
Felipe aproximou-se de
Xavier e entregou-lhe o copo com a bebida que o outro relutou em pegar.
- Mas ainda não
acabei de falar Felipe.
- Descanse suas
cordas vocais meu caro. Só quero saber se você vai falar assim se por acaso te
pegarem um dia.
Xavier pegou o copo e o
levou a boca. Ingeriu a bebida sem muita vontade e cedeu espaço a Felipe no
sofá. Felipe sentou-se e passou a mão esquerda por sua cabeça jogando os
cabelos para trás.
- Bem, meu nome
é Felipe, claro que não é meu nome verdadeiro. Sou apenas mais um guerrilheiro
urbano como podem perceber. Não temos uma hierarquia definida. Temos um líder e
uma diretriz, uma linha politica que da a causa revolucionaria um sentido
maior. Assim não caímos no vazio da luta sem um objetivo. Queremos derrubar o
governo ditatorial implantado no país por acharmos que em nada contribui para o
engrandecimento das pessoas que aqui estão vivendo, ao contrario, hoje estamos
convencidos que o atraso cultural a que estamos sendo submetidos por uma
estupida censura terá efeitos devastadores daqui a alguns anos. Nossos filhos,
além da perda de liberdade, terão também uma identidade forjada na ignorância,
típica de qualquer ditadura. Estamos dispostos a dar a vida em troca da
liberdade, da igualdade e da fraternidade assim como tem sido feito na historia
da humanidade. Alguém precisa se sacrificar e nós, da Resistencia Armada
Popular estamos dispostos a esse sacrifício. Sabemos que é esse o preço mais
alto a ser pago e isso nos envaidece muito mais. Ainda que nos deem o anonimato
como premio continuaremos com nossa luta pela liberdade do Brasil!
Ao terminar esse pequeno
e inflamado discurso Felipe gotejava de suor. Lenice aproveitou e apontou para
si o microfone do gravador K-7 e perguntou:
- Tá legal
bicho, mas quem é Felipe?
O rapaz deu um longo
suspiro e deixou os braços caírem ao longo do corpo já sem a postura do líder a
pouco incorporado. Jogou a cabeça para trás e continuou em seu delírio:
- Felipe é só um
nome. É uma instituição sem fins lucrativos. A quinta parte de uma família,
aquela que lhe deu nome, batismo, pão e disciplina. Coisas fundamentais para o
desenvolvimento, mas de forma errada. Ensinaram tudo a nós mas dando uma forma
absoluta e portanto plenamente contestável. Se você me perguntasse o que é
Felipe talvez achasse mais fácil de responder.
- O que é
Felipe? – Corta Lenice sem virar para si o microfone.
Felipe então sorri e
recomeça:
- Felipe é um
homem. Isso basta? Na verdade isso deveria ser tudo. Sendo homem posso dizer
que sou completo. Não o homem sexo, aquele que se aproveita da virilidade
insanamente como lhe ensina a sociedade. Não o homem nexo que dedica a
existência para dominar o conhecimento pleno e chega a lugar algum. Não o homem
alma, sem sexo e sem nexo que se dilui pelo espirito santo e só faz rezar feito
louco, buscando um deus que não existe. Felipe é um homem tropical, frágil
cultura do terceiro mundo em busca do seu sexo, seu nexo, sua alma.
- Acabou a fita.
– Informa Lenice.
Felipe olha Lenice e ela
sente nele uma pontada de decepção. Não tem importância. Eu já havia dito tudo.
Lenice volta a fita para
o inicio e procura novamente os olhos de Felipe. Xavier se levanta e caminha
para a janela ficando de costas para ambos. Acende um cigarro.
- Vocês são
loucos. Afirma ela.
- Louca é você –
retruca Felipe – Saiba que a qualquer momento o exercito pode invadir isso aqui
e te levar como terrorista.
- O exercito
chegar a esse fim de mundo?
- Você nem
imagina o perigo que corre. Ainda não temos estrutura para garantir a segurança
da imprensa.
Lenice abriu um sorriso.
- Já disse que
não sou repórter, isso é apenas um trabalho para a faculdade.
Felipe aproximou-se dela
e acariciou seus cabelos.
- Você é uma
menina muito bonita. – mentiu.
Xavier com um peteleco
arremessou a cigarro longe depois saiu da janela e ao passar pelos dois
comunicou:
- Vou dar uma
volta.
Saiu tentando agir
discretamente enquanto os dois trocavam ideias sobre o movimento estudantil.
Lenice apertou o play e segundos depois a voz de Xavier apareceu fanhosa e
fina, fazendo trepidar o gravador.
- Esse paulista
tem uma voz de paraíba que vou te contar. Tomara que a minha seja um pouco
melhor.
Lenice ajustou o volume
para que não houvesse tanta distorção. Felipe pediu para que ela se sentasse ao
seu lado no sofá. Ela não demonstrou nenhum sinal de nervosismo ante a sugestão
dele.
- Se depender do
nosso depoimento acho que você não vai tirar nota boa neste trabalho.
- O depoimento
parece bom ainda que a qualidade da gravação seja péssima. Mas o conteúdo é bem
sugestivo e acho que conseguirei desenvolver bem a temática.
- Aposto que não
tem namorado!
- Porque diz
isso?
Ele coçou a cabeça e
brincou:
- Você deve ser
uma menina que vive para o estudo.
- Procuro ter
uma vida normal.
- E o que é ter
uma vida normal?
Lenice o encarou antes
de responder.
- Não sabe? Por
acaso você não levava uma vida normal antes de tudo isso?
(Continua)
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