segunda-feira, 5 de outubro de 2015

PROCURADOS, PERSEGUIDOS, ENCURRALADOS E...



 A HISTÓRIA DE XAVIER, NOEMIA, FELIPE E WILMA SEGUNDO ELES PRÓPRIOS.

- Por ser um cara muito branco, mas muito branco e morar na Guanabara recebi logo o apelido de paulista. Mas sou carioca. Da gema. É verdade que não gosto muito de praia, porém ganhar esse apelido é muito humilhante. Pior foi ter que frequentar a praia sábado e domingo durante um mês para ver se a turma esquecia da coisa. Qual nada! Deu-se justamente o contrário, pois além de ficar todo ardido acabei descascando igual barata nova, um verdadeiro paulista! Aí tive mesmo é que assumir o apelido. Estudei em boas escolas públicas, nada a declara neste período, com exceção de sempre haver me destacado nas aulas de educação física como um excelente velocista. Tinha a melhor arrancada de toda a escola e era imbatível nos cem metros, o que não me valeu muita fama. Quando jogava futebol gostava de ser goleiro e diga-se de passagem até que defendia bem, Sempre fui melhor com as mãos do que com os pés. Ao ingressar no ginásio optei pelo basquete e apesar da altura não ajudar muito tornei-me um bom arremessador de bolas próximas a cesta. De resto era ruim em matemática, como a maioria.  Tive mais mulheres do que namoradas. O ato de namorar era algo muitíssimo complicado e exigia uma alienação total dos valores que adquiri lendo as revistinhas do Carlos Zéfiro, entre outras, que de um modo ou de outro são nossos professores nessa matéria. Sempre achei mais interessante ir além do beijo na boca. Independente disso me apaixonei umas duas vezes, sendo que uma delas por uma prostituta que tinha uma paixão louca por mim. Chegou a propor-me certa vez, após uma noite de prazer e orgia que me transformasse em seu cafetão. Foi então que me desiludi. Podia ser um canalha mas explorador de mulher nunca, afinal eu tinha a minha moral além de não ser tolo o suficiente para achar-me tão malandro assim. A segunda mulher por quem me apaixonei foi nossa empregada, uma baiana cabeça-chata e com sotaque. Ela fazia uma moqueca que me deixava em êxtase. A primeira vez que fomos para a cama nos lambuzamos com azeite de dendê. Fui um tremendo covarde quando descobriram que ela estava grávida e a mandaram embora. E apesar das suspeitas recaírem sobre meu irmão mais velho, ela nunca demostrou raiva por minha atitude covarde. Depois disso nunca mais consegui comer comida baiana. Verdade se diga, não sou uma pessoa ruim, promiscua ou alienada. Tanto me importo com o mundo, com as pessoas que abdiquei da minha vida em prol de um mundo melhor. Não foi só para me redimir, minha vocação é essa. Vocação despertada somente após o golpe de sessenta e quatro quando minha revolta explodiu completamente e não pude deixar de optar pelo engajamento na militância politica. Tudo começou em sessenta e oito, quando invadiram o Calabouço e mataram o Edson Luís. Aquilo foi a minha senha para entrar de cabeça na coisa. E se cada um de nós desse um pouco de si contra ao absurdo que foi aquele golpe, provavelmente muitos estudantes não tivesse morrido. Infelizmente eram dias em que a morte de inocente não era mais forte do que nossos protestos. Daí a única saída, a única resposta possível de nossa parte era a luta armada, por um dever cívico, patriótico. O dever de todo cidadão que aprendeu a respeitar as leis de seu país. Não fomos nós que demos o primeiro tiro. Se Jânio ou Jango tiveram culpa nós também tivemos por apoia-los ou não e nesse caso cada um deve ter seus motivos para avaliar seu posicionamento diante dos fatos. E quem se omitiu contribuiu para validar o golpe odioso em nossa frágil democracia. Hoje, continuo com a mesma disposição de quando entrei na luta, mas sei que as pessoas não me compreendem, que me julgam somente pelos atos que chamam de terroristas enquanto quem esta no poder faz o que bem quer, até assassinando estudantes. A essas pessoas eu peço:  sejam capazes de julgar a si próprios antes de me condenar. Sonhei sim, com um exercito revolucionário capaz de marchar sempre de cabeça erguida e nunca temer o irmão fardado, de arma em punho achando que esta cumprindo com seu dever. Nós também estamos, ao nosso modo, defendendo a pátria. A nossa pátria. Não somos Fideis ou Guevaras mas temos algum valor. Não fiquei frequentando as folclóricas reuniões na faculdade, discutindo quem tinha direito de se colocar no lugar do Costa e Silva. Parti logo para a ação e entrei para uma organização de extrema-esquerda com ideias bem definidas. Nossas ações armadas, embora de pequeno porte, rendiam dinheiro que dava para manter uma estrutura enquanto articulávamos ações conjuntas com outros grupos. Esse talvez tenha sido um problema. Alguns grupos não tinham uma linha bem definida, eram na verdade, um emaranhado de tendências e acabamos, apesar de todos os esforços em contrario, sendo confundidos como bandidos comuns, mesmo deixando panfletos denunciando as arbitrariedades do governo, para justificar nossas ações. Depois disso não demorou para a repressão cair em cima, não dando mais espaço. E foi numa dessas ações, num assalto a um banco em Belo Horizonte que quatro dos nossos caíram mortos. Só eu e outro companheiro conseguimos escapar. Por sorte, ele havia enfiado algum dinheiro no bolso, coisa pouca, mas que deu para pagar dois dias em uma hospedagem não muito longe do local do assalto. Foi seguramente a nossa primeira grande derrota para a repressão. Lembro que Hermes naquela noite caiu numa depressão profunda e quando vimos a noite o noticiário confirmando as mortes dos companheiros ele queria sair dando tiros a esmo.  A grande e única lição que tirei disso tudo foi a constatação de que não podíamos ser emocionais em relação a nossa causa. Sentir era uma coisa, entretanto, cair no desespero era outra completamente sem proposito, que só nos levaria ao desgaste e a cometer mais falhas. Tínhamos que ser frios, profissionais. Tentei expor isso com a maior clareza aqueles que atuaram comigo e acho que contribui para que muitos tivessem sucesso. Eu mesmo me salvei uma vez agindo de forma fria e calculada quando cai em uma batida policial passando-me por militar apenas por perceber nele uma ligeira hesitação em sua abordagem. A verdade é que naqueles dias ainda se respeitava o cidadão e por sorte nós ainda não tínhamos a cara de terroristas. Antes desta loucura toda acontecer eu não saberia dizer se era ou não feliz. Tinha uma família, amigos... acho que foi isso que sempre me incomodou. Tudo era por demais obvio.  A impressão que me dava era que alguém conduzia a minha vida e eu acabava concordando com tudo. Sei muito bem que não entrei na luta só para agitar minha vida, mas havia a simpatia e identificação com a causa socialista. Cuba realmente era um exemplo e a morte do Guevara confirmava isso em mim. Ele foi a demonstração mais forte de um ideal, de uma ideologia que eu imaginava a noite quando me deitava para dormir. Minha vida ficava pequena diante da morte dele, do que isso representou para todos aqueles que amavam a liberdade. Não havia outra maneira para justificar o gesto dele em abdicar de sua vida por uma luta que nem ao menos era dele. Ele não se preocupava com isso e ia em frente sabendo do risco que corria. Primeiro ficava me perguntando se valeria a pena morrer por uma revolução, depois não acreditava no próprio sucesso da revolução nos moldes em que era proposto seu desenvolvimento. O proletariado é muito imbecil para abraçar a causa e tomar o poder. Não me arrependi de entrar na luta, mas as condições que se apresentam hoje talvez a torne inviável de acontecer e se manter. O governo se firma cada vez mais através de uma propaganda fantasiosa além de ter reforçado seus mecanismos de repressão, inclusive destruindo o sistema politico com a criação de apenas dois partidos, a Arena e o MDB.
- Tá certo, agora me deixa falar também!
                        Felipe aproximou-se de Xavier e entregou-lhe o copo com a bebida que o outro relutou em pegar.
- Mas ainda não acabei de falar Felipe.
- Descanse suas cordas vocais meu caro. Só quero saber se você vai falar assim se por acaso te pegarem um dia.
                        Xavier pegou o copo e o levou a boca. Ingeriu a bebida sem muita vontade e cedeu espaço a Felipe no sofá. Felipe sentou-se e passou a mão esquerda por sua cabeça jogando os cabelos para trás.
- Bem, meu nome é Felipe, claro que não é meu nome verdadeiro. Sou apenas mais um guerrilheiro urbano como podem perceber. Não temos uma hierarquia definida. Temos um líder e uma diretriz, uma linha politica que da a causa revolucionaria um sentido maior. Assim não caímos no vazio da luta sem um objetivo. Queremos derrubar o governo ditatorial implantado no país por acharmos que em nada contribui para o engrandecimento das pessoas que aqui estão vivendo, ao contrario, hoje estamos convencidos que o atraso cultural a que estamos sendo submetidos por uma estupida censura terá efeitos devastadores daqui a alguns anos. Nossos filhos, além da perda de liberdade, terão também uma identidade forjada na ignorância, típica de qualquer ditadura. Estamos dispostos a dar a vida em troca da liberdade, da igualdade e da fraternidade assim como tem sido feito na historia da humanidade. Alguém precisa se sacrificar e nós, da Resistencia Armada Popular estamos dispostos a esse sacrifício. Sabemos que é esse o preço mais alto a ser pago e isso nos envaidece muito mais. Ainda que nos deem o anonimato como premio continuaremos com nossa luta pela liberdade do Brasil!
                        Ao terminar esse pequeno e inflamado discurso Felipe gotejava de suor. Lenice aproveitou e apontou para si o microfone do gravador K-7 e perguntou:
- Tá legal bicho, mas quem é Felipe?
                        O rapaz deu um longo suspiro e deixou os braços caírem ao longo do corpo já sem a postura do líder a pouco incorporado. Jogou a cabeça para trás e continuou em seu delírio:
- Felipe é só um nome. É uma instituição sem fins lucrativos. A quinta parte de uma família, aquela que lhe deu nome, batismo, pão e disciplina. Coisas fundamentais para o desenvolvimento, mas de forma errada. Ensinaram tudo a nós mas dando uma forma absoluta e portanto plenamente contestável. Se você me perguntasse o que é Felipe talvez achasse mais fácil de responder.
- O que é Felipe? – Corta Lenice sem virar para si o microfone.
                        Felipe então sorri e recomeça:
- Felipe é um homem. Isso basta? Na verdade isso deveria ser tudo. Sendo homem posso dizer que sou completo. Não o homem sexo, aquele que se aproveita da virilidade insanamente como lhe ensina a sociedade. Não o homem nexo que dedica a existência para dominar o conhecimento pleno e chega a lugar algum. Não o homem alma, sem sexo e sem nexo que se dilui pelo espirito santo e só faz rezar feito louco, buscando um deus que não existe. Felipe é um homem tropical, frágil cultura do terceiro mundo em busca do seu sexo, seu nexo, sua alma.
- Acabou a fita. – Informa Lenice.
                        Felipe olha Lenice e ela sente nele uma pontada de decepção. Não tem importância. Eu já havia dito tudo.
                        Lenice volta a fita para o inicio e procura novamente os olhos de Felipe. Xavier se levanta e caminha para a janela ficando de costas para ambos. Acende um cigarro.
- Vocês são loucos. Afirma ela.
- Louca é você – retruca Felipe – Saiba que a qualquer momento o exercito pode invadir isso aqui e te levar como terrorista.
- O exercito chegar a esse fim de mundo?
- Você nem imagina o perigo que corre. Ainda não temos estrutura para garantir a segurança da imprensa.
                        Lenice abriu um sorriso.
- Já disse que não sou repórter, isso é apenas um trabalho para a faculdade.
                        Felipe aproximou-se dela e acariciou seus cabelos.
- Você é uma menina muito bonita. – mentiu.
                        Xavier com um peteleco arremessou a cigarro longe depois saiu da janela e ao passar pelos dois comunicou:
- Vou dar uma volta.
                        Saiu tentando agir discretamente enquanto os dois trocavam ideias sobre o movimento estudantil. Lenice apertou o play e segundos depois a voz de Xavier apareceu fanhosa e fina, fazendo trepidar o gravador.
- Esse paulista tem uma voz de paraíba que vou te contar. Tomara que a minha seja um pouco melhor.
                        Lenice ajustou o volume para que não houvesse tanta distorção. Felipe pediu para que ela se sentasse ao seu lado no sofá. Ela não demonstrou nenhum sinal de nervosismo ante a sugestão dele.
- Se depender do nosso depoimento acho que você não vai tirar nota boa neste trabalho.
- O depoimento parece bom ainda que a qualidade da gravação seja péssima. Mas o conteúdo é bem sugestivo e acho que conseguirei desenvolver bem a temática.
- Aposto que não tem namorado!
- Porque diz isso?
                        Ele coçou a cabeça e brincou:
- Você deve ser uma menina que vive para o estudo.
- Procuro ter uma vida normal.
- E o que é ter uma vida normal?
                        Lenice o encarou antes de responder.
- Não sabe? Por acaso você não levava uma vida normal antes de tudo isso? 

(Continua)

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