O
toc-toc das passadas pelo corredor quebra o silencio do local ecoando na sala
escura onde esta um Corpo despido e coberto por um lençol sobre a mesa para
autopsia.
A
porta se abre e a luz do corredor ilumina fracamente a sala, a mesa com o
corpo, de modo que a penumbra ao redor torne o ambiente um pouco assustador.
O
legista, vestindo um impecável e branquíssimo jaleco, acende a luz e entra
terminando de comer a maça. Anda alguns passos e para, morde a fruta enquanto
de longe olha o corpo. Mastiga sem pressa, engole e passa a língua nos lábios.
Depois vai até sua mesa onde há um cesto de lixo e segurando o que restou da
maçã pelo cabo e a deixa cair no cesto. Ainda fica um tempo olhando para dentro
do cesto. Lambe e chupa o caldo dos dedos saboreando com prazer. Vai até o
banheiro. Urina soltando gemidos de alivio. O barulho da descarga é alto e forte,
quase que assustador. Volta para a sala secando as mãos em uma toalha de papel
que descarta depois de transformá-la em uma bola de papel arremessando-a ao
cesto de lixo. Faz com a boca aquele barulho que a torcida faz quando seu time
marca o ponto. Retira do bolso um par de
luvas e por um tempo olha de longe o corpo sobre a mesa. Passa uma das mãos
sobre o queixo, expressão séria. Volta a andar em direção a mesa com o corpo
desta vez decidido, parando logo depois, reflexivo. Volta devagar para a mesa atrás
se si e senta-se. Olhar vago, a mão deslizando sobre a testa. Levanta-se
desanimado e remexe os objetos sobre a mesa sem qualquer objetivo. Examina três
frascos de perfume. Vez por outra olha para o corpo. Pega alguns papéis, lê de modo burocrático.
Enfia os dedos indicadores pelas laterais dos óculos e esfrega os olhos. Olha o corpo. Abaixa a cabeça e com os
cotovelos apoiados na mesa cobre as orelhas com as mãos. Depois de um tempo faz
como que vai levantar, porém volta a sentar-se. Repete as ações anteriores,
abrindo gavetas, trocando objetos de lugar. Para repentinamente, ergue-se
rápido e caminha com decisão para a mesa de autopsia. Com calma coloca uma das
luvas enquanto aproxima-se do corpo. Rodeia o corpo algumas vezes passando o
dedo pela borda da mesa com um sorriso de prazer. Pega a ponta do lençol e
tenta levantá-lo. O semblante se fecha. Hesita. Solta rápido a ponta do lençol.
Respira fundo. Arruma meticulosamente o
lençol. Com o braço limpa o suor da testa. Volta a circular a mesa dessa vez
mais devagar, olhando para o chão, vendo por onde pisa. Subitamente para.
Respira fundo. Apoia-se na mesa curvando-se sobre o corpo. Olha devagar de uma
ponta a outra, preocupado, nervoso, aos poucos vai ficando feliz. Fecha os
olhos, respira fundo.
Abre
os olhos e mantem o olhar fixo para o nada por alguns segundos. Assume uma
postura profissional e com voz calma, pausada, fala para o corpo:
– Aqui esta a senhora. Quer dizer, aqui esta um
corpo que representa uma pessoa. Uma pessoa que já teve ideias, sentimentos,
amou e foi amada. Uma pessoa que tinha segredos, pois todos nós temos segredos.
Segredos pequenos, medíocres, íntimos, segredos dos outros, que pegamos para
nós resguardar de inimigos, de futuros falsos amigos. Temos aqui uma pessoa com
uma história que poderia dar um romance, um filme, um documentário ou não. Pode
ter tido uma vida simples, quem sabe até medíocre, vivendo para o marido, para
os filhos, vivendo a vida dos outros por nada ou mesmo para esquecer-se da sua.
Quem de fato foi a senhora? Ninguém
sabe. Porém, agora é somente um corpo. Um corpo morto. Sem história, sem afeto.
Um corpo esperando para ser digerido pelo tempo em um buraco escuro. No fim é
somente isso que nos resta: trancados em um caixão entupido de flores que com o
tempo e a umidade farão de nós um prato delicioso para os milhares de vermes
que destruirão nossa carne. Ah, a carne! Tão fraca tão sensível. Nosso corpo só
nos vale enquanto estamos vivos, depois disso, se não somos doadores, tudo se
perderá. Nem ao menos nossas emoções estarão salvas. Existiremos em fotos, em
filmes caseiros. Existiremos na saudade de alguns familiares, de um ou outro
amigo mais chegado, e isso por pouco tempo. Seremos um número numa sepultura,
num jazigo, lembrados uma vez por ano no feriado de finados. Isso se o feriado
não cair numa sexta-feira... Ah, mas
acabei nem me apresentando! Olá, sou Pedro Amílcar seu médico legista. Antes de
qualquer outra coisa gostaria de agradecer por ter vindo morrer aqui.
Particularmente fico feliz que tenha escolhido nossa bela cidade para viver
seus últimos momentos.
Caminha
ao redor da mesa em passos lentos limpando os óculos com um lenço de papel que depois
é dobrado com cuidado e guardado no bolso do jaleco.
- Não imagino de que forma ficou sabendo sobre ela,
uma vez que não faz parte de nenhum roteiro turístico. Na realidade, nossa
cidade é apenas caminho de passagem para cidades maiores. Somos uma típica
cidade do interior com uma gente simples e honesta, do tipo que praticamente
não existe mais em lugar algum. Imagine
que essa gente ainda se senta depois do jantar em frente a porta de casa para
conversar com os vizinhos ou com quem passa enquanto as crianças correm de um
lado para o outro, umas pulando corda, outras brincando com bola. Ao entardecer
casais jovens passeiam de mãos dadas esperando um momento de descuido dos
adultos para trocarem um rápido beijo. Dá para imaginar isso em nossos dias? O
tempo passando sem que se perceba, a vida acontecendo de modo lento, com tempo
para se aproveitar, para dar bom dia ao outro, para trocar dois dedinhos de
prosa e depois seguir em frente. Pode a principio, parecer entediante viver num
local assim, porém, tenho certeza de que se tivesse tempo acharia a cidade
muito boa. Levaria um tempo para se acostumar com tanta educação, tanta
gentileza, tanta cordialidade. Quem vem da capital acaba achando essas coisas
meio que sem sentido, medíocres até. Falo isso porque no inicio eu mesmo
estranhei. As pessoas passavam por mim e me cumprimentavam. Pessoas que nunca
havia visto. E nos lugares, os atendentes me serviam sorrindo, puxavam
conversa. Era estranho... não havia pressa, ninguém esbravejando porque não
havia sido atendido, nada de reclamações... as pessoas sabem os nomes uns dos
outros... consegue imaginar isso? Eu tenho nome para eles. Entende o que significa
quando alguém fala com você e te trata pelo seu nome? Sou eu. Não é um “bom
dia” formal, obrigatório. É um “bom dia seu Pedro Amilcar”. Pedro Amilcar. Sou
eu. Meu nome diz quem eu sou e não o meu cargo. Sabe que nunca havia prestado
atenção nisso quando morava na capital? Lá eu era apenas o doutor. Aqui eu sou
Pedro Amilcar. Não me vejo de forma fragmentada. Sou uma pessoa completa.
Entende o que é ser uma pessoa completa?
Fica
alguns instantes em silencio, olhando para o vazio.
- Deve ter reparado logo que o ônibus entrou na
cidade a alameda de hortênsias que foi plantada na penúltima gestão do prefeito
Euzébio. Ele adora flores... a mulher dele é a dona Margarida e dizem que dona
Hortência, a mulher do açougueiro, o vereador Jodimar, também conhecido como
“Jo do boi”, é amante dele. Essa paixão pelas “flores” inclusive gerou um
conflito com o pessoal da câmara municipal que preferia algo menos chamativo.
Realmente foi uma guerra, com direito a bate-boca no plenário e a oposição
fazendo insinuações, acusações sem provas, exigindo explicações, etc e tal. Mas
graças a um plebiscito a população decidiu que as hortênsias emoldurariam
melhor a entrada da cidade. Aliás, estão também no cemitério, na praça, em
torno da câmara municipal, no prédio da prefeitura, aqui na modesta Santa Casa
e em quase todos os jardins da cidade. Na verdade, foi o modo que o prefeito
Euzébio achou para sacanear o pessoal da câmara. Distribuir milhares de mudas
de hortênsias para a população. O que gerou nova crise porque se achou que
essas mudas foram compradas com o dinheiro da prefeitura, de forma irregular.
Quase deu cassação! Um bafafá dos diabos! Mas o prefeito Euzébio, macaco velho
em politica, provou que foi legal a compra das mudas, pagas com dinheiro do
próprio bolso. Em represália, é claro que o vereador Jodimar passou a não
vender mais fiado. Fiado só para o pessoal do partido dele. Mal sabe ele que
por trás, esse pessoal também o chama de corno. Mas política é assim mesmo: se
engana quem quer. Eu que não me meto nessa historia de jeito nenhum. Política?
Estou fora, e olhe que tentaram me colocar dentro um monte de vezes, eu é que
não sou bobo nem nada! Não tenho a mínima intenção de cair nessas armadilhas.
Bem que escuto o povo discutindo a boca miúda se o vereador Jodimar merecia ser
corno ou não. Cada um sabe de si. Outro dia fui ao armarinho da dona Naná e
estavam debatendo se dona Hortência era safada ou fogosa demais. Mas quando
cheguei mudaram logo de assunto. Enfim, se o prefeito Euzébio consegue espaço
em sua agenda para esse tipo de aventura, que seja! Melhor mesmo é cada um
tomar conta da sua vida e deixar a dos outros pra lá. Lógico que em cidade
pequena tudo se sabe, as noticias correm rápido. Ninguém esta livre de um
disse-me-disse. A própria filha do prefeito já deu suas escorregadas, e foi só
ela passar uns sete meses fora, fazendo um curso de sei lá do que, e não é que
inventaram que estava grávida? Que o pai da criança era fulano, era cicrano...
e toda semana aparecia um candidato novo. A criança mesmo nunca apareceu. Falam
que deixou com uma família na capital e que todo mês mandam dinheiro para o
sustento da criatura. Já ouvi dizer tanta coisa: que eram gêmeos, que uma delas
tinha problemas, era paralitica, excepcional, que não tinha os braços... as pessoas vão falando sem saber e a coisa
vai crescendo e vira um bolo só! Mas meu nome nunca entrou em fofoca nenhuma.
Mesmo porque não sou do tipo que se preocupa com a vida alheia. Meu negócio é
trabalhar e nada mais. É claro que devem falar de mim. Mas nunca chegou nada
aos meus ouvidos. Vão falar o quê? Minha vida é aberta, é da casa para o
trabalho e do trabalho para casa. De vez em quando tomo mais de uma cerveja na
pensão do seu Rafael, ele senta comigo, nós conversamos sobre as noticias da
capital, de futebol, até da novela já falamos. Política nós não discutimos,
esse assunto eu evito porque política é algo meio nojento. Espero que tenha gostado do clima. No inverno
é bem frio. Mas a temperatura média fica entre Vinte e dois a trinta graus e
parece ser a temperatura ideal. Pena que talvez a senhora não tenha sentido o
ar agradável da manhã, não tenha visto o orvalho cobrindo a grama da praça. No
inverno, a noite, uma neblina meio acinzentada cobre algumas partes da cidade.
Nesses dias saio para caminhar e ouvir os grilos, ver as mariposas rodando em
torno das lâmpadas, tentando se aquecer. É gostoso sentir o ar frio entrando
pelo casaco e ver a fumacinha que sai da minha boca quando respiro.
Faz
uma ligeira pausa e assume uma postura mais profissional, menos intima.
- Segundo li em seu prontuário, logo que desceu do
ônibus foi até a lanchonete do seu Raul e tomou um café pingado. Depois saiu da
rodoviária, caminhou até a praça sentou-se no banco e morreu. Ficou ali com se
esperasse por alguma coisa, por um alguém que jamais iria aparecer. Parece que
a vida é só isso, uma procura por alguma coisa que não sabemos, mesmo quando
chega a morte nós não conseguimos saber o porquê da nossa vida. Talvez fique um
vazio, uma vontade de ainda procurar algo, acreditar que valeu a pena passar
por tanta coisa mesmo sem saber pra que. As pessoas que passaram pelo local
relataram ao delegado Mizael que senhora ficou olhando para o céu, as mãos
postas sobre o colo como quem reza. Só perceberam que estava morta quando seu
Nicanor sentou-se ao seu lado para dar-lhe as boas vindas, mas na verdade
sabemos que queria mesmo era lhe dar uma cantada, pois seu Nicanor é o velho
mais tarado dessa cidade. Ouvi dizer que a cena foi um pouco cômica. Ele ali
falando, querendo se aproximar e a senhora, imóvel, olhando reto, para o nada.
Dizem que nenhuma mulher entra na casa de seu Nicanor com medo de ser agarrada.
O boato que corre é que ele toma uma garrafada, um elixir afrodisíaco, receita
antiga feita por um pajé de uma tribo que existia por estas bandas. Coisa
secretíssima! Segredo guardado a sete chaves ou mais! Eu até que tentei
averiguar essa história, interesse puramente cientifico claro. Sou contra essas
coisas para esses propósitos. Acho que a natureza sabe o que faz, mas pelo lado
da ciência, se esse tônico for verdadeiro pode servir para alguma coisa. Não
que eu saiba exatamente para que serviria, mas as coisas funcionam assim, a
gente acredita em algo e vai atrás. Afinal, a ciência não é tudo, precisamos
acreditar em alguma coisa, embora, particularmente eu tenha deixado de
acreditar em algo há bastante tempo. Numa primeira analise, a julgar por seu
estado aparente, sua morte foi tranqüila, sem espasmos, sem dor. Exceto é claro
pela agonia que toda morte causa por dentro. Morrer não é uma coisa tão fácil
assim como aparentemente pode parecer. É muito complexo, embora as vezes passe
como uma coisa simples. Assim, a pessoa esta ali sentada vendo televisão e sem
mais nem menos tem um treco e pronto: cai dura. Simples não é? Causa da morte:
um treco. Mas não é assim que funciona. A morte acontece dentro da nossa cabeça
quando um órgão já não consegue executar sua função primaria, ou seja,
trabalhar com o conjunto do nosso corpo. E como é interessante isso não é? O
cérebro não pode compensar essa perda transferindo a função do órgão morto para
outro órgão. Morremos porque o coração, por exemplo, já não tem forças para
bombear sangue para todo o nosso corpo e o cérebro não consegue fazer que o
sangue ande sozinho por nossas veias. Morrer também envolve o apego que temos
pelo mundo material, isso é, por coisas abstratas pelas quais nos apegamos sem
ter certeza de que precisamos realmente delas. Ninguém em sã consciência está
preparado para deixar o próprio corpo e abdicar dos prazeres que ele nós
permite ter. Tudo que esta a nossa volta só serve para nos dar conforto e
prazer. E o prazer na verdade não é sentido no corpo, mas no cérebro. Todas as
sensações são transportadas a ele pelo corpo e depois de processadas,
analisadas e assimiladas vão determinar o que sentir. Mas tudo isso acontece no
cérebro, na cabeça. O dia que se inventar um processo, ou qualquer coisa que
possa manter o cérebro funcionando, independente do corpo, ai sim, teremos vida
eterna. Poderemos nos sentir
verdadeiramente livres desse medo de morrer, de ver nosso corpo perder a
vitalidade, ser destruído por doenças.
Olha
para o corpo como se esperasse um comentário.
- A senhora deve estar se perguntando por que estou
falando estas coisas sem propósito, alongando-me em assuntos que nem lhe dizem
respeito ou ao menos possam lhe interessar. Não pense que ajo assim por algum
receio, ou mesmo por falta de experiência. Sou formado há muitos anos e tenho
larga experiência nessa atividade. Fique sabendo que trabalhei durante anos na
capital e lá, pode crer, se trabalhava muito. Mas não foi por preguiça que
resolvi trabalhar aqui nesta cidade. Na verdade, alguns fatos e certa
indisposição com o chefe do IML da capital é que me obrigou a optar por essa
cidade. Posso adiantar que em minhas mãos esta absolutamente segura. Ninguém
aqui vai comercializar seus órgãos para transplante, roubar suas obturações de
ouro para transformar em brinco ou aliança, muito menos vender seu corpo para
estudos. A senhora nem imagina o que a medicina fez para chegar aonde chegou!
Se hoje podemos fazer com que um corpo nos revele o motivo de sua morte é por
causa dos dedicados homens que em nome da ciência fizeram muita merda com os
corpos alheios! Imagine que inicialmente a justiça permitia que somente os
corpos dos enforcados pudessem ser utilizados para estudo, entretanto, isso era
insuficiente e diante dessa escassez, acredite se quiser, roubavam-se os corpos
logo após serem enterrados para se vender aos anatomistas. Quem diria que mesmo
depois de morto ainda valíamos alguma coisa.
Na falta de cadáveres, uns malucos tiveram a brilhante ideia de
assassinar algumas pessoas, pois os “corpos mais frescos” valiam bem mais nesse
mercado. Ah, a historia da ciência as vezes parece sórdida, mas como diria o
cardeal Richelieu, o fim justifica os meios. Quem sabe depois, com mais calma
lhe conte algumas historias, coisas que vi, ouvi... mas nunca participei delas!
Deixo isso bem claro porque sou um profissional! O quê precisa ser dito e
espero que compreenda, é que tenho profundo respeito pelo que irei fazer ao seu
corpo, e assim podemos ter certeza de estarmos estabelecendo uma, digamos,
relação de confiança profissional. Apesar de a senhora estar inerte, sem vida
sobre esta mesa ainda considero que existe, vagando em algum lugar, um
espírito. Gostaria de esclarecer que não tenho religião e que não aceito de
maneira alguma que homens inescrupulosos entrincheirados em templos ou igrejas
e que decoraram livros ditos sagrados, que foram na verdade escritos por homens
movidos por algum interesse e sabe-se lá a serviço de quem, queiram ditar
regras para que possa me comunicar com qualquer coisa ou entidade oculta que
existe em outra dimensão e que muitas vezes, por ignorância ou medo, não
podemos ou sabemos explicar. Acredito sim, num espírito que ficará com seu
corpo até que grande parte dele se desintegre. Entretanto, sua alma já terá
ido. Particularmente considero alma e espírito duas coisas bem distintas. Alma
no meu entender é aquela energia, a força vital que movimenta a todos nós,
enquanto o espírito representa a ligação com o plano, digamos, imaterial aos
nossos olhos, porém, não a nossos sentidos e que não se liberta do corpo quando
exalamos aquele ultimo suspiro.
Portanto, respeito essa coisa que embora imperceptível em seus órgãos
ainda compõe todo o seu ser. Mas deixemos essa filosofia de lado e passemos aos
procedimentos propriamente ditos. Olhe, - faz uma breve buscando as palavras -
o que farei ao seu corpo será um tanto quanto desagradável para a senhora, uma
vez que terei que abri-la e retirar seus órgãos para analise. Isso é necessário
porque preciso saber a causa de sua morte. Mas não se preocupe que depois
colocarei tudo no lugar novamente. – sorri - Sei o que esta pensando. A
comparação é um tanto que imprópria, mas é quase igual quando se compra uma
galinha no aviário e eles colocam os miúdos dentro. Infelizmente não existe
ainda outro processo... Lógico que acredito que no futuro próximo inventarão
uma máquina que realizará essa função sem que seja preciso abrir as pessoas. Se
alguns colegas usassem o bom senso, isso até já seria possível. Por exemplo: há
uns três anos morreu dona Mirtes, quase 100 anos... um amor de velhinha,
sabe? Cheia de histórias, histórias que
os filhos querem ouvir dez, vinte, cem vezes... que os netos ouvem e não
entendem... De vez em quando a encontrava na padaria e ficava ouvindo-a falar
do tempo do mil-réis, do Doutor Getúlio, o pai dos pobres, o melhor presidente
que o Brasil já teve! Da revolução de 32 e do golpe de 64. De como era bonito o
Francisco Cuoco, da maldade que foi a Marta Rocha não ter sido eleita miss
universo por causa das tais polegadas. Do sacrilégio que foi quando o homem
pisou na Lua. Aonde já se viu tamanho desrespeito com São Jorge? Eu olhava
aquela mulher curvada, apoiando-se numa bengala com cabo em marfim, a bolsa
pendurada no antebraço, balançando enquanto andava com seus passinhos curtos e
de onde ela tirava um batom vermelho ou o lencinho bordado com as iniciais de
seu nome para secar os olhos úmidos por tantas lembranças. Sempre bem vestida,
perfumada, fazendo questão de falar com todos. Eu ficava imaginando a vida que
teve, os amores que viveu, as doenças que vieram com a velhice. Foi quase um
choque quando o corpo veio para autopsia. Parecia mais frágil. Ainda se sentia
o aroma da água de colônia que ela usava. O cabelinho tão branquinho e ralo,
penteadinho, fixado pelo laquê. E no velório? Muitas velhinhas mais novas mas
em pior estado do que ela relembrando fatos, conversas. Os parentes
cabisbaixos, todos realmente muito sentidos. Fiquei com uma impressão de que
viver não valia muito a pena. Cem anos e todo aquele conhecimento, tanto
aprendizado perdido. Quer dizer, partilhado como os amigos, os filhos, os
netos, os bisnetos, mas para ela o que sobrou? E eu ainda deveria abrir aquela
senhora para dizer do que morreu. Mas sinceramente, para que abrir o corpo de
uma senhora de 100 anos? Qual a importância de saber se morreu de
arteriosclerose, pneumonia, ataque do miocárdio, insuficiência respiratória ou
de velhice? Além do mais, aquela pele estava tão enrrugadinha que fiquei com
muita pena. Conversamos longamente e como ela não se opôs fiz todos os
procedimentos legais e ela foi enterrada sem nenhum corte. No seu caso,
entretanto, existem certas dificuldades tendo em vista não haver nada que ajude
a identificar a causa de sua morte. Diferente do seu Antenor, por exemplo.
Morreu de câncer na próstata. E por quê? Recusava-se a fazer um simples exame
de toque retal. O que é a dor de um toquezinho no reto comparado a todo aquele
sofrimento? Agora me diga, porque eu iria abrir seu Antenor para constatar que
morreu porque não quis levar uma dedada no rabo? Por quê? Agora, repito, seu
caso é diferente. Se pelo menos houvesse um bilhete de suicídio, uma marca
corporal ou mesmo um frasco de veneno... mas nem bagagem a senhora trouxe. Os
objetos em sua bolsa só indicam o quanto a senhora era vaidosa. Três perfumes
diferentes. - cheira o próprio braço em três partes diferentes - Armani, Dior,
Chanel... vaidosa e de posses.
Perfuminhos caros... também depois que inventaram o cartão de credito e
parcelamento em 10 vezes sem juros tudo é possível. Importante é que a senhora
tinha bom gosto. Pelo menos para perfumes porque aquela sua roupinha, não sei
não. Uma mulher que gosta de perfumes caros poderia estar vestida melhor - aproxima
o nariz do corpo e aspira com suavidade quase entrando em êxtase, mas logo se
recompõe - Como os frascos estavam ainda lacrados podem ter sido roubados de
alguma loja ou quem sabe a senhora furtou de uma amiga ou ainda, da casa em que
trabalhava como baba. Sim, babá. Porque empregada não era tendo em vista suas
unhas estarem bem cuidadas. Podem também ter sido dados por três pessoas
diferentes que sabiam do seu gosto para perfumes, ou apenas queriam
impressioná-la. Sabe, algumas mulheres ficam encantadas com presentes caros. Já
foi tempo que um buquê de rosas tinha efeito devastador. Uma caixa de bombom
tinha o peso de um anel de brilhantes. Por isso que ainda não casei, meu
salário não permite extravagâncias. Embora por aqui seja considerado um
partidão, vou me esquivando de qualquer compromisso! Bem que noto os olhares
das moçoilas, e como ás vezes é difícil escapar das investidas das mães e dos
pais sugerindo “um almoço domingo lá em casa”. Bem sei no que daria esse
almoço! É claro que já tive algumas
mulheres, não cheguei a me casar, estive bem perto, mas com sinceridade, e a
senhora há de concordar, vocês mulheres são muito instáveis. Se somos românticos
vocês choram, se somos insensíveis e canalhas vocês choram. Choram também de
tristeza e de alegria. Se não sentem prazer na cama, choram e se gozam choram
também. Sem falar na bendita mestruação que uma vez por mês faz de vocês as
criaturas mais descontroladas da face da terra. Entretanto, é impossível viver
sem vocês, mesmo com toda essa carga que são obrigadas a carregar - como que
entrando em transe levanta a ponta do lençol e admira o corpo com expressão de
desejo - Não há como evitar a maciez da sua pele -tenta tocar no corpo e não
completa o gesto -, o aroma que exala de seus cabelos - aproxima o nariz e aspira -, a suavidade e o ardor de seus
lábios - curva-se sobre o corpo e aproxima-se para beijá-la, fecha os olhos,
uma das mãos quase tocando um seio a outra abrindo o zíper de sua calça. Recompõem-se
e se afasta rápido - Enfim, nascemos para sermos escravos dessa falsa
fragilidade, para sermos dominados por seus caprichos e devorados por seu corpo
quente e lascivo como deve ser as profundezas do inferno, que é como eu disse
antes, o lugar em que vocês nos metem depois que nos envolvem. Ah, por favor,
não pense que olho as mulheres apenas como objetos para um prazer
momentâneo... já me apaixonei algumas
vezes sim e confesso que não foi tão ruim. Quer dizer, a última vez foi a mais
difícil. Amar as vezes doí. Doí mais do que martelar o próprio dedo. Ah, não
deveria ter me lembrado disso! Ainda sinto como se tudo tivesse acabado de
acontecer. Como o ser humano é impressionante não é? Uma coisa que aconteceu há
tanto tempo e ainda posso sentir como se estivesse vivendo tudo no mesmo
instante! A mesma intensidade da dor, o sofrimento, a sensação de vazio, o
gosto amargo da solidão dos dias. A senhora gostaria de ouvir minha triste
história? - Consulta o relógio - Para falar a verdade temos tempo. Deixe-me
pegar um café, é só um momento... não saia daí - ri - Foi só uma piadinha...
Enquanto
ele se dirige ao fundo da sala, do corpo coberto se levanta num pulo ao mesmo
tempo em que a luz pisca uma mulher nua. Ela puxa o ar como se finalmente
conseguisse respirar. O Legista leva um susto, como se pressentisse uma
presença. Olha ao redor e nada vê. Vai até a porta do banheiro e verifica se
esta tudo em ordem. A Mulher esta de olhos fechados, porém em suas pálpebras
estarão desenhados olhos abertos. Ao fundo, ainda meio assustado, o legista se
movimenta de modo lento como se ele estivesse em outra dimensão. Se serve de um
café de forma bem criteriosa, pondo três ou quatro colheres de açúcar com a mesma
quantidade. Despeja café na xícara até atingir um ponto especifico, depois mexe
um sem número de vezes. Pega numa das gaveta um pacote de biscoitos e come
lentamente.
A
Mulher desce tonta da mesa, perdendo o equilíbrio. As pernas não tem
coordenação e ela se apoia na mesa.
- Como me sinto mal, estranha. O que será que comi?
Alguém pode acender a luz, por favor? - alisa a barriga e com a mão limpa o
suor da pela testa – Olá! Alguém pode me ajudar?
Esta
assustada, atônita, olhando o local sem entender o que esta acontecendo.
- O que esta havendo? Que lugar é esse? Que cheiro
horrível! - leva a mão ao nariz e tem ânsia de vomito - Que lugar é esse? –
ergue as mãos tateando o ar - Por favor, me ajudem! Alguém acenda a luz!
Socorro! Tem alguém ai? - Anda devagar, tateando, sem achar nenhum ponto de
apoio além da mesa - Olá!!!! Alguém pode me ajudar? Alguém pode acender a luz?
Socorro! Que lugar é esse? Que cheiro insuportável!
Consegue
caminhar além da mesa e para com os braços abertos procurando algo em que se
apoiar. Há ao seu redor uma nevoa negra embora fora dela possa se ver o legista
tomando café.
- O que esta havendo aqui? Onde estou?
Passa
a mão pelo próprio corpo.
- Não consigo sentir meu corpo. Me sinto tão
pesada, presa a alguma coisa.
Tenta
se desvencilhar de alguma coisa que não vê mas sente estar em seu corpo, como
uma corda a prende-la em algo.
- E esse cheiro insuportável que agora parece
familiar, mas não consigo lembrar o que é... cadê minha bolsa, meus perfumes!
Não consigo respirar direito... meu peito doí... não consigo entender essas
coisas em minha cabeça... e porque essa
escuridão? Afinal, que lugar estranho é esse? Como vim parar aqui? Não consigo
me lembrar de mais nada depois que sentei na praça.
Escuta
um sussurro e apura os ouvidos.
- Olá! Estou aqui! Por favor me ajude!
Subitamente
ouve várias vozes ao mesmo tempo, vários tons, vários idiomas, ora alto, ora
baixo todas falando ao mesmo tempo coisas que ela não entende.
- Quem são vocês, o que querem? Falem um de cada
vez? O que? Heim? Não entendo. Pode repetir? Meu nome? Quer saber meu nome? Meu
nome... como é meu nome? Não sei qual meu nome... não lembro do meu nome. Tanta
coisa passando em minha cabeça mas não sei o que significam... Será que estou
sonhando? - se apalpa - Mas não consigo me sentir! - puxa a pele, se arranha -
Não sinto roupa nenhuma, estou nua? Que diabo de sonho é esse? A gente sonha e
sabe que esta sonhando? Calma, calma...
por que se for um sonho vou acordar e tudo ficará bem. – respira fundo -
Não, isto não parece ser um sonho, se fosse eu acordaria agora, sentiria meu
corpo no macio da cama! Meu quarto, não consigo lembrar dele... minha casa,
como é minha casa? Deus, o que esta acontecendo comigo? Fiquei louca? Será que
me internaram? Como pode de uma hora para outra o mundo desaparecer? Fui
sequestrada? Mas não sou rica, não tenho posses! E quem me sequestraria? - se
desespera - Meu Deus, será que foi algum
pervertido que me sequestrou? – respira descompassadamente - Não consigo me
lembrar de nada. Devo ter sido dopada. Socorro! Alguém me ajude! Socorro! Estou presa em algum lugar... estou presa... sim...
presa... presa... essa sensação de angustia... estar presa é um sentimento que
sinto, que conheço, mas não entendo. E porque não sinto meu corpo, porque não
ouço nada só essas vozes? As palavras. Eu as ouço dentro da minha cabeça antes
de pronuncia-las. Essas palavras são minhas mas existem outras que não entendo,
elas falam ao mesmo tempo umas com as outras. Algumas parecem conhecidas mas
não me lembro de quem são. Deus do céu o que é isso que esta acontecendo?
Preciso me lembrar do que aconteceu.
Se
concentra pondo os dedos sobre a testa.
- Calem a boca! Saiam da minha cabeça! Estou
querendo me concentrar, descobrir o que houve! Que pesadelo é esse que estou
vivendo! O que? Não estou entendendo? São muitas vozes ao mesmo tempo!
Sentimentos? Emoções? É isso? Foi isso? É verdade. Não sinto medo, sinto algo
estranho, não sei se é angustia. Sim, é muito estranho não sentir nada estando
nessa situação. Eu só quero entender o que houve.
A névoa
negra a envolve totalmente enquanto o Legista
sai dos movimentos lentos voltando ao normal. Guarda o pacote de biscoitos e
ainda ressabiado se aproxima do corpo.
- Bem, por
onde começo? Ah, sim. Devo preveni-la de que é uma historia um tanto que forte.
- limpa a boca delicadamente com um lenço muito branco - Quer mesmo ouvir? Bom,
que seja. Depois não diga que não avisei.
Dobra
o lenço meticulosamente e guarda no bolso. Faz uma pausa mais longa, como quem
se concentra buscando o inicio da história. Fala olhando para o corpo como se
ele pudesse realmente estar ouvindo.
- Eu já trabalhava como legista havia uns bons
cinco anos e nessa época comecei a namorar uma menina... menina é modo de
falar, né? Era uma morena clara com seus 27 anos e que tinha um corpo quase que
perfeito, não fosse pelas nádegas um pouco saliente demais, nada exagerado, mas
isso a tornava, podemos dizer, mais notada. Era uma mulher excepcional!
Educada, inteligente e estava terminando o curso de direito. Trabalhava como
estagiaria em um escritório de advocacia, recomendado por um antigo professor,
um senhor bem distinto, quase que um pai para ela. Eu a conheci durante uma
visita da turma dela ao IML. Foi uma coisa assim de pele. Estava fazendo a
autopsia de um homem negro de um metro e setenta, pesando cerca de noventa
quilos, assassinado com oito tiros de um revolver calibre .38 disparado a curta
distancia, sendo que três disparos foram
efetuados de cima para baixo, quando a vitima já estava caída. Três na cabeça,
dois no peito, um na mão direita, outro no braço direito e o último na perna
esquerda. Nossos olhos se encontravam o tempo todo e depois que terminei ela
aproximou-se para me perguntar qual a sensação de cortar uma pessoa, de retirar
seus órgãos e estuda-los. Disse que meu trabalho era cientifico, aqueles corpos
não eram corpos de pessoas, eram simplesmente material de trabalho, não os via
como pessoas. Eram apenas objetos. No inicio pode ver um corpo, porém, depois
de três ou quatro autopsias eles são apenas objetos. Por falta de mais tempo
trocamos telefones para conversar melhor sobre o assunto. Estávamos
magnetizados um com o outro. Começamos a nos encontrar nos finais de semana e
não demorou para que começássemos a namorar. Eu a esperava depois da faculdade
e íamos para um motel. Ela me ouvia falar da minha rotina e de como era lidar
com todas aquelas pessoas mortas, que na maioria das vezes chegavam em estado
deplorável. Ficava fascinada quando descrevia um procedimento simples de abrir
um crânio para retirar o cérebro... ah, e quando disse de como era segurar um
coração? Foi pura poesia! - recita como se estivesse segurando um coração - Abro
um peito e com desejo pego com emoção um coração repleto de morte por amor.
Beijo-o com sofreguidão e alucino-me, embriagado pela mesma paixão. Ah, como
era lindo ver naqueles olhos o brilho de um desejo! Olha, vou contar um segredo, por favor não conte
isso para ninguém. Por umas duas vezes fizemos amor sobre uma mesa igual a
essa, ao lado de um cadáver que ia ser autopsiado. Aquilo foi uma loucura! Ela
parecia estar possuída por um desejo insaciável! Dizia que se sentia excitada
imaginando que a qualquer momento um daqueles corpos se levantaria, como num
filme de terror e avançaria para ela, querendo fazer amor. Riamos muitos dessas
fantasias. E ela tinha muitas até. As vezes me visitava durante um plantão e
ficava andando pelo IML, vendo os corpos que chegavam. Uma vez me pediu para abrir
o peito de um senhor de uns setenta anos parecido com o pai dela e que havia se
suicidado com gás. Olha, ela nem conseguiu cortar o corpo direito, gozou só de
encostar a lamina no peito dele e fazer um talho. As pernas dela bambearam, o
corpo todo tremeu e só ouvi o gemido longo, baixinho. Nós transamos ali mesmo,
ela debruçada sobre o corpo, segurando os pés do morto. Depois de uns dois anos
já fazíamos planos para alugar um apartamento. Eu me sentia o homem mais feliz
do mundo. O que sentíamos quando fazíamos amor era indescritível!. O sexo era
mais do que complemento do amor, sabe? É ele que nos move quase sempre para
conseguirmos tudo na vida. Estávamos dentro do sentimento do outro e não do
nosso próprio. Sentíamos a emoção do outro, o beijo do outro, o corpo do outro.
Tudo era letalmente bom, e também perigoso porque nos arriscávamos num
investimento que não tínhamos ideia de quanto tempo poderia durar ou das
consequências daquele envolvimento. Não precisávamos do futuro, não queríamos
imaginar, planejar. Queríamos o beijo, as caricias, as palavras, o corpo, o
segundo que não passamos juntos. O tempo que foi e não estivemos juntos. As
lembranças do último encontro sempre em nossas cabeças nos atormentando,
esperando o momento do reencontro. Vivíamos do passado quando estávamos longe
um do outro. - assume uma postura menos sonhadora - Mas, continuando, um dia
ela me liga e diz que precisa visitar um parente doente não sei bem aonde,
aproveitando um final de semana. Deixa bilhetes apaixonados pela casa declarando
amor eterno, dizendo que seu corpo já sentia saudade do meu, etc... - maquinalmente
pega no bolso papéis amassados, gastos, velhos, porém não os abre - me fazendo lembrar da última
noite... dos beijos, dos carinhos, das caricias... de palavras sussurradas, de
frases tolas, de promessas... do cheiro
das flores que lhe dei perfumando o quarto, do gosto do vinho em sua
boca... e eu ficando louco de saudades,
sonhando com sua volta. – recoloca os papéis no bolso - Entretanto, ela nunca mais voltaria. Aquilo
que para mim seria eterno, um sonho infinito de alegria, de paixão, terminaria
em dor, em um choro engasgado como um osso na garganta. A vida me puxando para o rodamoinho da
desgraça, estraçalhando planos que sem querer fizemos e fingimos não existir. A
luz desse amor que girava ao nosso redor, que antes podia iluminar nosso
caminho havia se transformado num espectro fantasmagórico que me consumiria por
muito tempo. – ajeita os óculos – Quer saber o que houve? O carro que dirigia
colidiu com uma carreta e ela morreu. Morreu. Morreu. Morreu como se nunca
tivesse existido. Vi depois as fotos da perícia. O pouco que restou dos corpos
carbonizados, irreconhecíveis. Fragmentos de membros misturados ao que restou
do carro. Uma massa retorcida de ferros. Podia sentir pelas fotos o cheiro da
carne queimada, os ossos esfarelando em minhas mãos... A senhora pode imaginar como fiquei não é? Um
homem apaixonado é um bobo, porém um homem apaixonado que perde a mulher que
ama pode virar qualquer coisa. Ainda mais com aquela ideia batendo em minha
cabeça dia e noite em todas as horas. Porque ela mentiu? Porque não quis que
fosse com ela? Quem era o homem no porta-malas do carro e todos aqueles
instrumentos cirúrgicos junto ao corpo? Porque estaria ali, o que pretendia
ela? Ninguém da família soube dizer que parente era esse que estava doente.
Perguntas que vão e voltam em minha cabeça e até hoje estão sem respostas. Como
as ilustrações e um livro de anatomia que o irmão dela me entregou pensando que
fosse meu e estavam com ela. Porque aquilo estava com ela? Talvez tivesse
comprado para me dar de presente. Quem sabe não precisasse de respostas porque
todo aquele sofrimento era uma forma de continuar amando aquela mulher, de
manter entre nós uma lembrança.
O
Legista se levanta novamente lentamente e se senta na ponta da mesa.
A
nevoa negra reaparece trazendo a mulher.
- Não sinto que doí, mas sei que doí. E saber que doí e não sentir a dor é
terrível! Talvez seja como amar alguém que nunca existiu, porém você espera que
exista. É ter essa coisa para o resto da vida te assombrando, te consumindo sem
que possa se dar ao outro. Parece que existe agora em mim um outro mundo. Posso
saber que não sinto essa coisa me tomando, mas sei que ela existe e cresce, me
envolve. Não ouço mais nenhuma voz e esse silêncio não me apavora ou consola.
Talvez me explique o que aconteceu. Ou o que fiz. Sinto-me tão calma. Essa paz
que sinto em mim e vem de algum lugar que não vejo, porém sinto ao meu redor é
algo estranho. É um vazio que me entende, me preenche, me conforta.
A
Mulher desaparece com a nevoa enquanto o Legista desce da mesa rapidamente.
- Eu nunca fui um homem de muitos amigos ou mesmo
de poucos amigos. Nunca me expus ou deixei que as pessoas tivessem acesso a
mim. Não era também um homem estanque, isolado e de difícil aceitação. Mas
sempre preferi ficar na minha, evitando alongar minhas opiniões. Meter-me em
discussões estéreis para que? Era mais de ouvir do que falar e com a morte dela
tudo pareceu ficar pior. Não gosto das pessoas porque através delas sou capaz
de me revelar. Isolei-me e procurei ignorar as pessoas ao meu redor e aquele
mundo que havia me tirado a mulher amada deixando em seu lugar uma coisa tão
diferente e igualmente perturbadora. Aquele vazio estava cheio de ódio, de
rancor, de medo, de desejo, de pensamentos destrutivos. O que havia agora para
sentir, para viver? O mundo só era um lugar onde as pessoas me olhavam e talvez
sentissem pena ao comentar a minha desgraça. Mas só. Ninguém podia sentir a
minha dor, viver a acidez em meu estomago me corroendo, impedir as explosões em
minha cabeça com a fúria de milhares de vozes gritando. E nenhuma delas pedia
socorro. Apenas gritavam cada vez mais e mais. Quantas vezes pensei em me matar
e de tão variados modos que acho que foi essa indecisão que me salvou. Me via deitado sobre uma mesa e um colega me
abrindo o peito sem o menor interesse. A burocracia da morte. A explicação cientifica
para o final da minha vida. Depois, somente um laudo para amarelar em uma caixa
numa prateleira de um depósito num lugar qualquer. Minhas vísceras expostas,
pesadas, medidas, analisadas como se meu passado estive ali, com minha
historia. Que história? Pessoas comuns
não tem história, vivem alienadas e acham que só existe vida nos finais de
semana quando pensam que são donas do próprio corpo. Eu enlouqueço com a
insanidade daqueles que se apegam as coisas pequenas achando que elas são
essenciais e vivem a vida como se elas fossem sua razão para viver.
Caminha
para um lado em modo “câmera lenta” enquanto a nevoa reaparece com a Mulher.
– Minha vida? Não lembro dela. É assim como se eu
não existisse. Não conheço nada de um mundo que não sei definir, que não
consigo enxergar. Não sei se sou uma pessoa humilde, arrogante, sincera, calma,
introvertida, destemida, inteligente. O mundo começa no caos para depois ir se
organizando. Não, não foi assim que aconteceu. Eram duas pessoas... duas
pessoas diferentes... o que um tinha não completava o que o outro queria. Depois
descobriram algo que não podiam descobrir e então o caos se instalou. Mas
quando passaram a ser verdadeiramente felizes? Na paz ou no caos?
A
nevoa se dilui e o Legista se move normalmente em torno do corpo.
- Todo dia me olho no espelho pela manhã e pergunto
"quem é você cara, que me olha perguntando quem sou". Todo dia as
respostas são diferentes. E essas respostas podem aparecer quando menos se
espera e te tirar do marasmo, ou simplesmente te jogar no caos total. Durante
um plantão uma dessas respostas apareceu e de forma surpreendente.
Fala
ao ouvido do corpo.
- A noite, deu entrada um corpo de mulher incrivelmente
parecido com aquele que eu mais havia amado até então. O tamanho, o peso, a cor
da pele, os cabelos cacheados. Não parecia estar morta, mas apenas dormindo
profundamente e sua expressão era de uma felicidade que podia pensar-se que
sonhava com anjos. Tão logo fiquei a sós com o corpo, num impulso peguei em sua
mão - pega por debaixo do lençol a mão do corpo - ainda levemente quente, como
a sua e senti a mesma delicadeza, a mesma suavidade da mão da minha amada - passa
a mão do corpo em seu rosto com carinho - Fui invadido por um sentimento
indescritível e sem pensar beijei-a timidamente, porém logo fui me deixando
tomar pela emoção própria dos amantes que se encontram e se esquecem do mundo
ao seu redor. Fechei os olhos e pus-me a beijar-lhe a boca macia, sugando-lhe o
ar morno e sem perceber me despi ardendo de desejo, vendo naquele corpo inerte
a materialização de um corpo que amei mais do que tudo. Beijava-lhe a boca
procurando sugar-lhe a língua morta enquanto acariciava os seios e deslizava a
mão por seu corpo macio. Ah, sentia suas mãos passando por minhas costas, as
unhas afiadas e pintadas de esmalte vermelho me rasgando a carne, expandindo
meu tesão com fúria por todo o corpo! A pressão entre nossos corpos impedindo
que um entrasse por dentro do outro. Sua
respiração ofegante expulsando a alma em uivos selvagens e desesperados como se
precisasse libertar um gozo para dizer que não estava verdadeiramente morta.
Suas pernas me enlaçando como aços que se fundem quando aquecidos e a voz rouca,
em êxtase, pedindo que a penetrasse com força, com amor, para que nossos corpos
se unissem numa única forma, como uma melodia que se encaixa perfeitamente nos
versos feitos pelo poeta apaixonado a sua amada. Eu sussurrando o nome dela
como uma canção em seu ouvido, “Rose, Rose, Rose”, enquanto nossos corpos
ardiam nesse delírio de amor até que explodiu meu gozo e... e meus olhos se abriram como quem acorda do pior pesadelo para a
realidade de quem eu era, onde estava e o que de fato havia feito. Meu deus! Meu deus! O que havia feito? Como
foi possível descontrolar-me daquele jeito e ter praticado tamanha infâmia? Em
que espécie de monstro havia me transformado? Como consegui perder o controle e
ser capaz de praticar ato tão abominável, tão desprezível? Caí de joelhos abraçando minhas roupas como
se pudesse me esconder entre elas, meu sexo ainda pulsando, sentindo escorrer
por entre minhas pernas o sêmen viscoso, quente e abundante comprovando meu crime. Não, não, não, não!
Não fiz isso! Não fui eu! Mas não havia
como negar. O corpo estava lá, inerte sobre a mesa. A virgindade destruída
maculando um prazer que guardava para alguém que a merecesse e eu a destruí. Então me vesti devagar. Peça por peça tentando
ainda não acreditar no que havia feito aquela menina. O sêmen gelado secando em
minhas pernas como pregos me cravando a essa cruz que sou obrigado a trazer
comigo até hoje. Arrastei-me até o corpo e escalei a mesa agarrando-me a uma
última esperança de tudo aquilo não ter passado de um sonho. Mas era verdade.
Ali estava o corpo ensangüentado de uma jovem que eu acabara de profanar. Sim,
sim, sim! Eu havia feito aquela barbaridade! O monstro dentro de mim lançava
pensamentos de escárnio sobre meu ato e queria me fazer acreditar que afinal
ainda havia vida dentro do meu corpo, que meu gozo provara isso e essa poderia
ser, ainda que sórdida, a maneira de continuar a acreditar no amor, porque se
não tinha mais capacidade de amar uma mulher viva poderia amar todas as mortas
porque não sentiria a dor por sua partida. Não sofreria com a ausência de seu
corpo porque todos os corpos estariam sempre ali, me esperando para concretizar
meu amor. Não, não, não, não! Gritei alto para abafar esses malditos
pensamentos que se enfiavam em minha cabeça como lanças, mas ouvia-os dizendo
que não podia mentir sobre aquilo porque afinal eu havia gostado de possuir um
corpo morto e que daqui para á frente só poderia ser assim. Não, não, não, não!
Eu repetia cada vez mais alto e as lanças se multiplicavam, afiadas, lancinantes,
se aprofundando, tomando conta também do meu corpo. Ah, meu corpo. Maldito
corpo que respondia a elas revelando meus segredos, se enfeitiçando com aquela
nova proposta de prazer enquanto meu coração dizia não, não, não, não! Não hei
de fazer isso novamente porque não sou um monstro, um insensível! Sentia meu
corpo se aliando as lanças e eu cada vez mais acuado dentro de mim, já quase
sem saída. Foi então que o absurdo tomou forma e desesperado, em busca de
saídas, fui abrindo todas as geladeiras para olhar aqueles corpos socialmente
destruídos, sem história, abraçados somente pela morte, esquecidos por seus
parentes, próximos da destruição cruel em um caixão. Privados da luz, do ar.
Corpos que estão ali somente para alimentar as bactérias, os vermes que irão
brotar do fundo da terra, como emissários do demônio para consumi-los
lentamente, com um prazer igual ao que tive quando violei aquele corpo.
Olhava-os e tentava entender porque estavam ali. Precisava recontar suas
historias, seus excessos, a necessidade da transformação estética, seja por
intervenção cirúrgica ou pelos exercícios em aparelhos que prometem o corpo
perfeito. Precisava entender o último momento de vida, se foram felizes, se
foram maus, se mereceram a morte que tiveram. Se em seus corpos havia as marcas
sociais ou simplesmente a genética foi a responsável por empurrá-los para o
abismo da decomposição, do esquecimento. Porque a medicina não os salvou?
Porque não mereceram ser salvos? Queria
entender de que forma o mundo se apoderou de seus corpos e os obrigou a ser o
que talvez não quisessem ser. Então, as lanças deixaram de ser uma tortura para
significar a abertura de um conhecimento que não imaginava necessário a
construção da minha verdade. O mal que causara aquela mulher era menor do que
talvez a vida tenha lhe feito ao negar sua continuação no mundo. Aquele corpo
morto me trazia a vida com seu sacrifício e sua profanação beirava a um
propósito cientifico que se iluminava a minha frente. Todos os corpos agora
faziam sentindo para mim. Meu trabalho não era somente descobrir o porquê da
morte física, mas essencialmente o porquê da morte social, da morte
espiritual. Aqueles corpos estavam
abertos para o meu desejo de vida e eu poderia possuí-los sem medo ou vergonha.
Eles me dariam um gozo completo e eu os encheria de vida, de amor. Eu
procuraria as famílias, ouviria as historias, reconstituiria a trajetória até o
momento fatal em que o segundo derradeiro os impediu de dizer alguma coisa em
sua defesa. Aquele caminho sem volta só poderia ser completado por mim, a
ultima pessoa que esteve intimamente com aqueles corpos. A morte sempre esteve
presente me dizendo que é a ela que devo amar e não aos corpos que retalho,
mutilo, violo. Eles são apenas rascunhos da imagem de deus. É ela que me dá
esses corpos como um prêmio pela vida que levo, pela vida que escolhi. Ah,
quantas oportunidades desperdicei bancando apenas um açougueiro ingênuo quando
tinha em minhas mãos a identidade, o eu de cada pessoa que a morte me enviava
para purgá-lo da vaidade do silicone, do nariz modificado, das lipoaspirações
sem necessidade, dos implantes modeladores na ridícula tentativa de alimentar o
ego em crise. A morte me dizia no inicio, fale com eles que não será
modificando o corpo que alma se aquietará em suas angustias, que é preciso
aprender a aceitar o corpo como ele é com as mudanças que o tempo imprime nele.
Não é o corpo que está errado mas o olhar sobre esse corpo que deve ser
alterado. Não é alterando o corpo que a própria vida se modificará porque sua identidade,
seus sentimentos não nascem no corpo nem da visão que os outros têm dele. Não
somos como as lagartas que podem passar de repugnantes insetos rastejantes a
lindos insetos voadores. Nossa metamorfose é interna, não corporal, pois nossa
forma externa não se modifica enquanto crescemos, continuaremos a ter sempre
dez dedos, um nariz e dois olhos, não importa o quanto cresçamos. Aprenda a
amar seu corpo com seus defeitos por que Deus o fez assim com um propósito e
alterá-lo é dizer que Deus estava errado quando lhe deu a vida.
Fica
cabisbaixo, parado, o olhar sem expressão. A mulher abre a nevoa e anda em
passos de balé.
– As coisas, eu as sentia como se estivessem
submersas, embaçadas. Aquilo que era uma ilusão estava envolta por uma película
de liberdade e essa liberdade estava presa na ilusão de um dia poder acontecer.
Lembro-me de viver no tormento de me sentir inútil, fraca, afogada na estupidez
dos outros que tomava como modelo. Eles tinham uma vida e eu apenas um corpo
para esconder. Mas quem de fato é dono do corpo, a quem o corpo pertence?
Talvez a Lei seja dona do corpo uma vez que ela pode prendê-lo, pode decretar o
fim da vida que ele conduz. Talvez as religiões sejam a dona do corpo quando o
induzem a evitar o pecado, a permanecer casto. Talvez o poder financeiro seja o
dono do corpo produzindo-o socialmente, dizendo o quanto pode comer e o que
vestir ou como ser. O corpo pode ser alugado, vendido, negociado para promover
uma marca, uma imagem, um sentimento. Então, provavelmente nem meu corpo é de
fato meu. Eu o uso enquanto me permitem.
Eu senti alguém segurar a minha mão. Acho que não estou só.
O Legista ergue a cabeça e olha ao redor
sentindo uma presença.
- Sabe, tive a certeza de que entendia o que a
morte me soprava quando um dia fiz a autopsia de um rapaz de 25/30 anos. Ele
era um viciado em informática, um desses sujeitos que se deixa dominar pelo
computador e passa a viver 24 por dia em frente daquela coisa que lhe suga a
vida lentamente.
Rodeia
a mesa.
- Estava magro, desnutrido, olheiras assustadoras,
os dedos iniciando um processo de desvio devido ao uso prolongado do mouse ou
do teclado. Tinha uma acentuada calvície e seus dentes amarelados denunciavam
que fumava muito. Sua coluna apresentava uma curvatura que comprometia sua
postura ereta. Os rins estavam seriamente abalados e de tanto ficar sentado
suas pernas apresentavam indícios de atrofia. Sua existência só se justificava
pelo comprometimento com sua missão, fosse ela qual fosse. Sua vida era
pertencer a máquina até que ele a vencesse ou ela o destruísse. Assim, abriu
mão de seus amigos, de uma vida normal e da própria saúde para viver o único
êxtase que conseguia entender. Foi uma criança saudável, um adolescente normal,
me disse sua mãe. Até ganhar seu primeiro computador, depois disso, excluiu-se
do mundo real, e o contraste desse isolamento é que estava em contato com
milhões de outras pessoas como peixes em uma rede se debatendo para sair dela e
voltar ao mar. Sabe, não consigo entender bem a atração que essas pessoas
sentem pela máquina. Elas são completamente diferentes de nós, seres humanos. Não
sentem dor nem muito menos prazer. Não tem vida própria, dependem do homem para
tudo, até mesmo para serem criadas. Eu acho, não posso afirmar com certeza, mas
parece que essas pessoas projetam na máquina uma vida da qual são incapazes de
viver realmente. Seus corpos são apenas extensão da própria máquina. Você se
vicia naqueles jogos imbecis de dar tiros e fica se achando o máximo. Uma vez
até tentei jogar um desses e quando me dei conta havia passado o dia jogando.
No final achei que desperdicei momentos que poderia estar compartilhando com
outras pessoas. São jogos para pessoas que aceitam essa fantasia como uma
possível fuga da realidade social. Como pode alguém perder tempo com uma coisa
tão absurda? É como se o computador passasse a ser nosso corpo virtual e
pudesse fazer todo tipo de merda sem nenhuma consequência real. Sabe, o cara
perde um pouco a noção de civilidade porque, embora sejam só figuras, bonecos
animados, eles representam pessoas, seres humanos. Do que esse jogador estará
se vingando? Que pessoas na verdade ele estará matando ali? Jogos de luta que o
vencedor mata o oponente de forma cruel, expirando sangue para tudo quanto é
lado. Será que na vida real ele poderia fazer isso com os concorrentes, com o
patrão, com o cara que acidentalmente pisou em seu pé na rua? O sujeito vai perdendo o afeto, a compaixão,
vai virando meio-máquina. Esquece de se perguntar por que esta jogando aquilo, porque fizeram
esse tipo de jogo para que ele fique preso a ele, com que propósito nos fazem
matar, destruir? Não foi para isso que Deus nos fez. É como se quisessem nos
fazer acreditar que a morte é uma besteira, um jogo irreal, fantasia para nosso
deleite. Tudo isso teria sentido se procurassem um fundamento, uma lógica para
tirá-los da ilusão de que tudo é permitido, quando na verdade não é bem assim,
pois a vida exige regras, compromissos. Caso contrário somos apenas corpos
manipulados, sem segredos. Não há laços entre o vivo e o autônomo, somente os
fios que nos prendem a quem nos manipula, igual como achamos que comandamos o
computador, que ele faz o que queremos, no entanto ele já veio programado por
alguém que precisa nos controlar porque queremos ser dependentes, porque temos
medo de ver como somos fracos, ignorantes, violentos, pusilânimes e precisamos
disfarçar criando a fantasia de um poder vindo das máquinas. A vida virtual
cria um mundo utópico. Por ignorância se cultua um mundo que não existe. A
máquina nos suga para sua irrealidade fazendo com que não saibamos mais
diferenciar o mundo real das fantasias que criam para nos prender. Dentro desse
mundo imaginário cria-se uma realidade com linguagem e cultura própria, criamos
um outro eu melhor do que somos e acabamos nos convencendo de que de fato, ele
é melhor do que nós. Abrindo vocês eu descobri que estou vivo, que não sou
máquina. Olhando minhas mãos rasgando suas entranhas as sensações são fortes,
eu sinto o cheiro da decomposição dos líquidos, vejo o sangue se diluir,
escorrer, se perder pelo esgoto. Vejo a carne cortada, exposta, aberta,
arreganhada. Os nervos, as vísceras, como quebra-cabeças sem importância porque
depois que se morre o corpo é apenas um monte de nada sem razão como peças de
um computador que não pode ser mais manipulado. Desde que o mundo é mundo nós
fazemos isso. Lembra dos campos de concentração? Todas aquelas pessoas sendo
mortas de modo organizado. Pessoas trabalhando para o aprimoramento da
destruição, tentando minimizar o caos, dando aqueles assassinatos um caráter
científico. Aquela guerra foi o ápice das guerras onde matar atingiu um patamar
cínico inquestionável. O que para nós
era horror para os monstros era somente a obrigação de atingir um proposito. O
mundo virtual é mais ou menos como um campo de concentração com o mesmo
objetivo: mostrar que existe uma inteligência superior e que nossos corpos,
nossas mentes são dela. O computador nos aprisionou com suas infinitas
possibilidades de informação, de conhecimento, de diversão. Ele descobre nossas
necessidades, nossas mentiras, nos leva a acreditar que temos infinitas
possibilidades de viver vidas que jamais viveremos de fato. Não precisamos
imaginar! É só clicar e estaremos vivendo sonhos estranhos que nunca acabam
porque mudamos de fases. Morremos e ressuscitamos como quer a religião. Não
precisamos pensar porque a máquina pensa por nós. Todos os caminhos já estão
traçados. Sabe, eu não convivo com a
morte porque as pessoas que recebo já estão mortas. Os médicos, estes sim, os
guardiães da vida em duelo constante com a morte. Os únicos como o poder e a
frieza de informar ao seu paciente que ela virá para redimi-los de seus erros.
Prolongando a tortura que é saber que vai morrer em breve, porem, sem ter a
certeza do dia e da hora e se isso poderá ser rápido ou penosamente longo.
Falam, no máximo, do sofrimento da carne, dos sintomas e dos remédios que
aliviam momentaneamente a dor, criando a ilusão de mais algumas horas de vida.
E pra que? Não é o corpo que morre! É a emoção de estar vivo borbulhando no
cérebro que irá se perder levando nossas ideias, nosso conhecimento, nossas
mentiras e verdades. Para onde? Para quem poderemos deixar nossa felicidade, a
alegria por tantos momentos bons ao lado de quem amamos? Quem amamos já morreu. Já não existe. É
apenas poeira do passado.
A
mulher surge envolta em uma nevoa branca, quase luminosa.
– Eu vivo, ou penso que vivo. Viver pode ser estar
além do limite físico que o corpo ocupa principalmente quando está sujeito a
percepção do outro, que o regula e determina, a partir do que supõe
conhecer de si próprio que é tomado como
padrão. Quando eu me dou espero ser o
outro e se ele me rejeita é porque não aceita em si essa parte que não
reconhece como socialmente concreta. Me transforma em fantasma e ser fantasma é
não ter palavra, é não ter voz. Porém, mesmo com meu silêncio ainda assim falo,
porque passei por cima de todas as frases para me transformar em uma ideia que como
doença principia pelo sintoma. Agora sei o que me aconteceu. O que eu fiz a mim
mesma quando me sentei naquela praça. Se não pertencia aquela vida então não
havia sentido em mantê-la comigo.
Em
torno da Mulher a nevoa roda lentamente e vai se evaporando.
O
Legista olha para trás por alguns segundos mas nada vê. Volta ajeitar o corpo
para a autopsia.
- Bom, poderia continuar a falar, a mostrar meu
mundo, mas acho que agora já chega. Precisamos terminar com isso. Mandei suas
impressões digitais para a capital e logo saberei quem é a senhora e sua
historia se construirá para que possa entender seus momentos finais. Agora,
precisarei cumprir minha obrigação.
Olha
demoradamente para o corpo envolto no lençol. Abraça-o com carinho, acaricia a
cabeça, beija-lhe o rosto, os olhos, a boca. Emociona-se como quem se despede
de um ente querido.
- Tomara que sua vida tenha valido a pena. Que
tenha amado e sido amada. Que tenha aproveitado os dias de sol e os de chuva
também. Se ninguém vier reclamar seu corpo prometo que farei uma linda
cerimonia de despedida e levarei flores dia sim dia não para enfeitar seu tumulo.
Retira
o lençol do Corpo mas ele permanece com um lençol a cobri-lo. O legista se
afasta enquanto dobra o lençol lentamente. O Corpo se levanta calmamente,
senta-se na mesa e olha ao redor. A mulher se aproxima e abraça o Corpo e
trocam um longo beijo na boca enquanto ela vai se deitando.
O Corpo depois de deitar a mulher volta a
se sentar na mesa.
- Por enquanto meu nome é ninguém. Ninguém tem uma
historia mas todos preferem não a ouvir. A quem pode interessar uma vida que já
nasceu morta? Ninguém tem sua vida porque ela pertence na verdade a sociedade,
ao mundo. Ninguém não pode ser o que quer. A família diz não. Os amigos dizem
não. A justiça diz não. Vivi num mundo que não era meu. Como minha mãe que
vivia na sombra de alguém que não a queria. Todos preferiam não ver ninguém,
preferiam não saber que ninguém existe, que devia continuar no anonimato. É
assim que devemos viver? Você pode negar o que sente, o que é, e esconder por
um tempo, mas nunca a sua vida toda. Mesmo quando não se olha no espelho a
verdade esta lá e você sabe disso, mesmo desempenhando um papel, fingindo que
engana os outros que fingem que são enganados e apenas te toleram. A vida não
deveria ser assim. Mas é. E não sou eu a culpada por ser o que sou, porém me
veem como um castigo e me isolam. Assim
como minha mãe que também experimentou a solidão. Uma casa vazia, silenciosa,
sem movimento. Rodando pelos cômodos querendo que os móveis lhe falassem ou ao
menos sorrissem. Que a luz que entrava pelas janelas não fosse tão triste e que
o vento que balançava a cortina não fosse como a mão de um homem a acenar-lhe
um adeus por erros que não cometeu. Experimentou a tristeza. Uma verdade que
sussurrava em seu peito o medo de compreender aquele e tantos outros momentos
que fingia não viver. Como quem sobrevive ao caos arrastava-se pelos
corredores, subia escadas em busca de uma pessoa que já não morava mais lá,
numa procura inútil. Vivia agora sem a obrigação de cuidar do marido que sempre
foi seu algoz e que a trocou por outra mulher mais jovem. Vivia sem a presença
do filho obediente, dedicado, amigo, que um dia precisou partir par assumir o
próprio sofrimento, libertando-a do compromisso de partilhar essa dor. Vivia
sem ter que lavar, passar, cozinhar. Vivia somente para ver a tarde na tv a
reprise da reprise da novela e fingir que não lembrava do que iria acontecer a
mocinha ingênua enganada pelo vilão. Também vivia esse personagem, mas sua
novela era real. A reprise daquela vida não interessava. Tinha a certeza de todas as coisas que
aconteciam, mas não acreditava nelas. A relação com as pessoas se arruinou
muito mais pela hipocrisia dela que se esforçava para viver o papel que todos
desempenham, como a vida dupla de seu marido, meu pai. Nunca seguiu o exemplo
dele. Afogou-se na lama da rotina e em
lembranças de como era infeliz antes de achar que virou adulta e de que poderia
escolher outro mundo que provavelmente não tinha certeza se gostaria de viver
nele. Não lhe disseram que não haveria opções. Então descobri, como minha mãe,
que queria só me sentar e morrer. Sentir o corpo evaporar, diluir-se num brilho
sentindo a luz passando pela carne e reduzindo meus ossos a pó, como purpurina
lançada ao ar. E assim ser, de alguma forma, feliz.
O
lençol escorrega revelando o órgão entre as pernas do Corpo. Depois ele se
deita sobre a mulher tornando-se uma única pessoa.
O
legista se aproxima e se senta. Olha o corpo.
- Posso entender sua vida. Sua não vida. E o mínimo
que posso fazer é dar agora o que em vida você não teve, não foi.
Com
uma das mãos pega o bisturi e com a outra o pênis da mulher.
- Então? Podemos começar?
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