segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O LEGISTA



          O toc-toc das passadas pelo corredor quebra o silencio do local ecoando na sala escura onde esta um Corpo despido e coberto por um lençol sobre a mesa para autopsia. 
          A porta se abre e a luz do corredor ilumina fracamente a sala, a mesa com o corpo, de modo que a penumbra ao redor torne o ambiente um pouco assustador.
          O legista, vestindo um impecável e branquíssimo jaleco, acende a luz e entra terminando de comer a maça. Anda alguns passos e para, morde a fruta enquanto de longe olha o corpo. Mastiga sem pressa, engole e passa a língua nos lábios. Depois vai até sua mesa onde há um cesto de lixo e segurando o que restou da maçã pelo cabo e a deixa cair no cesto. Ainda fica um tempo olhando para dentro do cesto. Lambe e chupa o caldo dos dedos saboreando com prazer. Vai até o banheiro. Urina soltando gemidos de alivio. O barulho da descarga é alto e forte, quase que assustador. Volta para a sala secando as mãos em uma toalha de papel que descarta depois de transformá-la em uma bola de papel arremessando-a ao cesto de lixo. Faz com a boca aquele barulho que a torcida faz quando seu time marca o ponto.  Retira do bolso um par de luvas e por um tempo olha de longe o corpo sobre a mesa. Passa uma das mãos sobre o queixo, expressão séria. Volta a andar em direção a mesa com o corpo desta vez decidido, parando logo depois, reflexivo. Volta devagar para a mesa atrás se si e senta-se. Olhar vago, a mão deslizando sobre a testa. Levanta-se desanimado e remexe os objetos sobre a mesa sem qualquer objetivo. Examina três frascos de perfume. Vez por outra olha para o corpo.  Pega alguns papéis, lê de modo burocrático. Enfia os dedos indicadores pelas laterais dos óculos e esfrega os olhos.  Olha o corpo. Abaixa a cabeça e com os cotovelos apoiados na mesa cobre as orelhas com as mãos. Depois de um tempo faz como que vai levantar, porém volta a sentar-se. Repete as ações anteriores, abrindo gavetas, trocando objetos de lugar. Para repentinamente, ergue-se rápido e caminha com decisão para a mesa de autopsia. Com calma coloca uma das luvas enquanto aproxima-se do corpo. Rodeia o corpo algumas vezes passando o dedo pela borda da mesa com um sorriso de prazer. Pega a ponta do lençol e tenta levantá-lo. O semblante se fecha. Hesita. Solta rápido a ponta do lençol. Respira fundo.  Arruma meticulosamente o lençol. Com o braço limpa o suor da testa. Volta a circular a mesa dessa vez mais devagar, olhando para o chão, vendo por onde pisa. Subitamente para. Respira fundo. Apoia-se na mesa curvando-se sobre o corpo. Olha devagar de uma ponta a outra, preocupado, nervoso, aos poucos vai ficando feliz. Fecha os olhos, respira fundo. 
          Abre os olhos e mantem o olhar fixo para o nada por alguns segundos. Assume uma postura profissional e com voz calma, pausada, fala para o corpo:
– Aqui esta a senhora. Quer dizer, aqui esta um corpo que representa uma pessoa. Uma pessoa que já teve ideias, sentimentos, amou e foi amada. Uma pessoa que tinha segredos, pois todos nós temos segredos. Segredos pequenos, medíocres, íntimos, segredos dos outros, que pegamos para nós resguardar de inimigos, de futuros falsos amigos. Temos aqui uma pessoa com uma história que poderia dar um romance, um filme, um documentário ou não. Pode ter tido uma vida simples, quem sabe até medíocre, vivendo para o marido, para os filhos, vivendo a vida dos outros por nada ou mesmo para esquecer-se da sua. Quem de fato foi a senhora?  Ninguém sabe. Porém, agora é somente um corpo. Um corpo morto. Sem história, sem afeto. Um corpo esperando para ser digerido pelo tempo em um buraco escuro. No fim é somente isso que nos resta: trancados em um caixão entupido de flores que com o tempo e a umidade farão de nós um prato delicioso para os milhares de vermes que destruirão nossa carne. Ah, a carne! Tão fraca tão sensível. Nosso corpo só nos vale enquanto estamos vivos, depois disso, se não somos doadores, tudo se perderá. Nem ao menos nossas emoções estarão salvas. Existiremos em fotos, em filmes caseiros. Existiremos na saudade de alguns familiares, de um ou outro amigo mais chegado, e isso por pouco tempo. Seremos um número numa sepultura, num jazigo, lembrados uma vez por ano no feriado de finados. Isso se o feriado não cair numa sexta-feira...  Ah, mas acabei nem me apresentando! Olá, sou Pedro Amílcar seu médico legista. Antes de qualquer outra coisa gostaria de agradecer por ter vindo morrer aqui. Particularmente fico feliz que tenha escolhido nossa bela cidade para viver seus últimos momentos.
          Caminha ao redor da mesa em passos lentos limpando os óculos com um lenço de papel que depois é dobrado com cuidado e guardado no bolso do jaleco.
- Não imagino de que forma ficou sabendo sobre ela, uma vez que não faz parte de nenhum roteiro turístico. Na realidade, nossa cidade é apenas caminho de passagem para cidades maiores. Somos uma típica cidade do interior com uma gente simples e honesta, do tipo que praticamente não existe mais em lugar algum.  Imagine que essa gente ainda se senta depois do jantar em frente a porta de casa para conversar com os vizinhos ou com quem passa enquanto as crianças correm de um lado para o outro, umas pulando corda, outras brincando com bola. Ao entardecer casais jovens passeiam de mãos dadas esperando um momento de descuido dos adultos para trocarem um rápido beijo. Dá para imaginar isso em nossos dias? O tempo passando sem que se perceba, a vida acontecendo de modo lento, com tempo para se aproveitar, para dar bom dia ao outro, para trocar dois dedinhos de prosa e depois seguir em frente. Pode a principio, parecer entediante viver num local assim, porém, tenho certeza de que se tivesse tempo acharia a cidade muito boa. Levaria um tempo para se acostumar com tanta educação, tanta gentileza, tanta cordialidade. Quem vem da capital acaba achando essas coisas meio que sem sentido, medíocres até. Falo isso porque no inicio eu mesmo estranhei. As pessoas passavam por mim e me cumprimentavam. Pessoas que nunca havia visto. E nos lugares, os atendentes me serviam sorrindo, puxavam conversa. Era estranho... não havia pressa, ninguém esbravejando porque não havia sido atendido, nada de reclamações... as pessoas sabem os nomes uns dos outros... consegue imaginar isso? Eu tenho nome para eles. Entende o que significa quando alguém fala com você e te trata pelo seu nome? Sou eu. Não é um “bom dia” formal, obrigatório. É um “bom dia seu Pedro Amilcar”. Pedro Amilcar. Sou eu. Meu nome diz quem eu sou e não o meu cargo. Sabe que nunca havia prestado atenção nisso quando morava na capital? Lá eu era apenas o doutor. Aqui eu sou Pedro Amilcar. Não me vejo de forma fragmentada. Sou uma pessoa completa. Entende o que é ser uma pessoa completa?
          Fica alguns instantes em silencio, olhando para o vazio.
- Deve ter reparado logo que o ônibus entrou na cidade a alameda de hortênsias que foi plantada na penúltima gestão do prefeito Euzébio. Ele adora flores... a mulher dele é a dona Margarida e dizem que dona Hortência, a mulher do açougueiro, o vereador Jodimar, também conhecido como “Jo do boi”, é amante dele. Essa paixão pelas “flores” inclusive gerou um conflito com o pessoal da câmara municipal que preferia algo menos chamativo. Realmente foi uma guerra, com direito a bate-boca no plenário e a oposição fazendo insinuações, acusações sem provas, exigindo explicações, etc e tal. Mas graças a um plebiscito a população decidiu que as hortênsias emoldurariam melhor a entrada da cidade. Aliás, estão também no cemitério, na praça, em torno da câmara municipal, no prédio da prefeitura, aqui na modesta Santa Casa e em quase todos os jardins da cidade. Na verdade, foi o modo que o prefeito Euzébio achou para sacanear o pessoal da câmara. Distribuir milhares de mudas de hortênsias para a população. O que gerou nova crise porque se achou que essas mudas foram compradas com o dinheiro da prefeitura, de forma irregular. Quase deu cassação! Um bafafá dos diabos! Mas o prefeito Euzébio, macaco velho em politica, provou que foi legal a compra das mudas, pagas com dinheiro do próprio bolso. Em represália, é claro que o vereador Jodimar passou a não vender mais fiado. Fiado só para o pessoal do partido dele. Mal sabe ele que por trás, esse pessoal também o chama de corno. Mas política é assim mesmo: se engana quem quer. Eu que não me meto nessa historia de jeito nenhum. Política? Estou fora, e olhe que tentaram me colocar dentro um monte de vezes, eu é que não sou bobo nem nada! Não tenho a mínima intenção de cair nessas armadilhas. Bem que escuto o povo discutindo a boca miúda se o vereador Jodimar merecia ser corno ou não. Cada um sabe de si. Outro dia fui ao armarinho da dona Naná e estavam debatendo se dona Hortência era safada ou fogosa demais. Mas quando cheguei mudaram logo de assunto. Enfim, se o prefeito Euzébio consegue espaço em sua agenda para esse tipo de aventura, que seja! Melhor mesmo é cada um tomar conta da sua vida e deixar a dos outros pra lá. Lógico que em cidade pequena tudo se sabe, as noticias correm rápido. Ninguém esta livre de um disse-me-disse. A própria filha do prefeito já deu suas escorregadas, e foi só ela passar uns sete meses fora, fazendo um curso de sei lá do que, e não é que inventaram que estava grávida? Que o pai da criança era fulano, era cicrano... e toda semana aparecia um candidato novo. A criança mesmo nunca apareceu. Falam que deixou com uma família na capital e que todo mês mandam dinheiro para o sustento da criatura. Já ouvi dizer tanta coisa: que eram gêmeos, que uma delas tinha problemas, era paralitica, excepcional, que não tinha os braços...  as pessoas vão falando sem saber e a coisa vai crescendo e vira um bolo só! Mas meu nome nunca entrou em fofoca nenhuma. Mesmo porque não sou do tipo que se preocupa com a vida alheia. Meu negócio é trabalhar e nada mais. É claro que devem falar de mim. Mas nunca chegou nada aos meus ouvidos. Vão falar o quê? Minha vida é aberta, é da casa para o trabalho e do trabalho para casa. De vez em quando tomo mais de uma cerveja na pensão do seu Rafael, ele senta comigo, nós conversamos sobre as noticias da capital, de futebol, até da novela já falamos. Política nós não discutimos, esse assunto eu evito porque política é algo meio nojento.  Espero que tenha gostado do clima. No inverno é bem frio. Mas a temperatura média fica entre Vinte e dois a trinta graus e parece ser a temperatura ideal. Pena que talvez a senhora não tenha sentido o ar agradável da manhã, não tenha visto o orvalho cobrindo a grama da praça. No inverno, a noite, uma neblina meio acinzentada cobre algumas partes da cidade. Nesses dias saio para caminhar e ouvir os grilos, ver as mariposas rodando em torno das lâmpadas, tentando se aquecer. É gostoso sentir o ar frio entrando pelo casaco e ver a fumacinha que sai da minha boca quando respiro.
          Faz uma ligeira pausa e assume uma postura mais profissional, menos intima.
- Segundo li em seu prontuário, logo que desceu do ônibus foi até a lanchonete do seu Raul e tomou um café pingado. Depois saiu da rodoviária, caminhou até a praça sentou-se no banco e morreu. Ficou ali com se esperasse por alguma coisa, por um alguém que jamais iria aparecer. Parece que a vida é só isso, uma procura por alguma coisa que não sabemos, mesmo quando chega a morte nós não conseguimos saber o porquê da nossa vida. Talvez fique um vazio, uma vontade de ainda procurar algo, acreditar que valeu a pena passar por tanta coisa mesmo sem saber pra que. As pessoas que passaram pelo local relataram ao delegado Mizael que senhora ficou olhando para o céu, as mãos postas sobre o colo como quem reza. Só perceberam que estava morta quando seu Nicanor sentou-se ao seu lado para dar-lhe as boas vindas, mas na verdade sabemos que queria mesmo era lhe dar uma cantada, pois seu Nicanor é o velho mais tarado dessa cidade. Ouvi dizer que a cena foi um pouco cômica. Ele ali falando, querendo se aproximar e a senhora, imóvel, olhando reto, para o nada. Dizem que nenhuma mulher entra na casa de seu Nicanor com medo de ser agarrada. O boato que corre é que ele toma uma garrafada, um elixir afrodisíaco, receita antiga feita por um pajé de uma tribo que existia por estas bandas. Coisa secretíssima! Segredo guardado a sete chaves ou mais! Eu até que tentei averiguar essa história, interesse puramente cientifico claro. Sou contra essas coisas para esses propósitos. Acho que a natureza sabe o que faz, mas pelo lado da ciência, se esse tônico for verdadeiro pode servir para alguma coisa. Não que eu saiba exatamente para que serviria, mas as coisas funcionam assim, a gente acredita em algo e vai atrás. Afinal, a ciência não é tudo, precisamos acreditar em alguma coisa, embora, particularmente eu tenha deixado de acreditar em algo há bastante tempo. Numa primeira analise, a julgar por seu estado aparente, sua morte foi tranqüila, sem espasmos, sem dor. Exceto é claro pela agonia que toda morte causa por dentro. Morrer não é uma coisa tão fácil assim como aparentemente pode parecer. É muito complexo, embora as vezes passe como uma coisa simples. Assim, a pessoa esta ali sentada vendo televisão e sem mais nem menos tem um treco e pronto: cai dura. Simples não é? Causa da morte: um treco. Mas não é assim que funciona. A morte acontece dentro da nossa cabeça quando um órgão já não consegue executar sua função primaria, ou seja, trabalhar com o conjunto do nosso corpo. E como é interessante isso não é? O cérebro não pode compensar essa perda transferindo a função do órgão morto para outro órgão. Morremos porque o coração, por exemplo, já não tem forças para bombear sangue para todo o nosso corpo e o cérebro não consegue fazer que o sangue ande sozinho por nossas veias. Morrer também envolve o apego que temos pelo mundo material, isso é, por coisas abstratas pelas quais nos apegamos sem ter certeza de que precisamos realmente delas. Ninguém em sã consciência está preparado para deixar o próprio corpo e abdicar dos prazeres que ele nós permite ter. Tudo que esta a nossa volta só serve para nos dar conforto e prazer. E o prazer na verdade não é sentido no corpo, mas no cérebro. Todas as sensações são transportadas a ele pelo corpo e depois de processadas, analisadas e assimiladas vão determinar o que sentir. Mas tudo isso acontece no cérebro, na cabeça. O dia que se inventar um processo, ou qualquer coisa que possa manter o cérebro funcionando, independente do corpo, ai sim, teremos vida eterna.  Poderemos nos sentir verdadeiramente livres desse medo de morrer, de ver nosso corpo perder a vitalidade, ser destruído por doenças.
          Olha para o corpo como se esperasse um comentário.
- A senhora deve estar se perguntando por que estou falando estas coisas sem propósito, alongando-me em assuntos que nem lhe dizem respeito ou ao menos possam lhe interessar. Não pense que ajo assim por algum receio, ou mesmo por falta de experiência. Sou formado há muitos anos e tenho larga experiência nessa atividade. Fique sabendo que trabalhei durante anos na capital e lá, pode crer, se trabalhava muito. Mas não foi por preguiça que resolvi trabalhar aqui nesta cidade. Na verdade, alguns fatos e certa indisposição com o chefe do IML da capital é que me obrigou a optar por essa cidade. Posso adiantar que em minhas mãos esta absolutamente segura. Ninguém aqui vai comercializar seus órgãos para transplante, roubar suas obturações de ouro para transformar em brinco ou aliança, muito menos vender seu corpo para estudos. A senhora nem imagina o que a medicina fez para chegar aonde chegou! Se hoje podemos fazer com que um corpo nos revele o motivo de sua morte é por causa dos dedicados homens que em nome da ciência fizeram muita merda com os corpos alheios! Imagine que inicialmente a justiça permitia que somente os corpos dos enforcados pudessem ser utilizados para estudo, entretanto, isso era insuficiente e diante dessa escassez, acredite se quiser, roubavam-se os corpos logo após serem enterrados para se vender aos anatomistas. Quem diria que mesmo depois de morto ainda valíamos alguma coisa.  Na falta de cadáveres, uns malucos tiveram a brilhante ideia de assassinar algumas pessoas, pois os “corpos mais frescos” valiam bem mais nesse mercado. Ah, a historia da ciência as vezes parece sórdida, mas como diria o cardeal Richelieu, o fim justifica os meios. Quem sabe depois, com mais calma lhe conte algumas historias, coisas que vi, ouvi... mas nunca participei delas! Deixo isso bem claro porque sou um profissional! O quê precisa ser dito e espero que compreenda, é que tenho profundo respeito pelo que irei fazer ao seu corpo, e assim podemos ter certeza de estarmos estabelecendo uma, digamos, relação de confiança profissional. Apesar de a senhora estar inerte, sem vida sobre esta mesa ainda considero que existe, vagando em algum lugar, um espírito. Gostaria de esclarecer que não tenho religião e que não aceito de maneira alguma que homens inescrupulosos entrincheirados em templos ou igrejas e que decoraram livros ditos sagrados, que foram na verdade escritos por homens movidos por algum interesse e sabe-se lá a serviço de quem, queiram ditar regras para que possa me comunicar com qualquer coisa ou entidade oculta que existe em outra dimensão e que muitas vezes, por ignorância ou medo, não podemos ou sabemos explicar. Acredito sim, num espírito que ficará com seu corpo até que grande parte dele se desintegre. Entretanto, sua alma já terá ido. Particularmente considero alma e espírito duas coisas bem distintas. Alma no meu entender é aquela energia, a força vital que movimenta a todos nós, enquanto o espírito representa a ligação com o plano, digamos, imaterial aos nossos olhos, porém, não a nossos sentidos e que não se liberta do corpo quando exalamos aquele ultimo suspiro.  Portanto, respeito essa coisa que embora imperceptível em seus órgãos ainda compõe todo o seu ser. Mas deixemos essa filosofia de lado e passemos aos procedimentos propriamente ditos. Olhe, - faz uma breve buscando as palavras - o que farei ao seu corpo será um tanto quanto desagradável para a senhora, uma vez que terei que abri-la e retirar seus órgãos para analise. Isso é necessário porque preciso saber a causa de sua morte. Mas não se preocupe que depois colocarei tudo no lugar novamente. – sorri - Sei o que esta pensando. A comparação é um tanto que imprópria, mas é quase igual quando se compra uma galinha no aviário e eles colocam os miúdos dentro. Infelizmente não existe ainda outro processo... Lógico que acredito que no futuro próximo inventarão uma máquina que realizará essa função sem que seja preciso abrir as pessoas. Se alguns colegas usassem o bom senso, isso até já seria possível. Por exemplo: há uns três anos morreu dona Mirtes, quase 100 anos... um amor de velhinha, sabe?  Cheia de histórias, histórias que os filhos querem ouvir dez, vinte, cem vezes... que os netos ouvem e não entendem... De vez em quando a encontrava na padaria e ficava ouvindo-a falar do tempo do mil-réis, do Doutor Getúlio, o pai dos pobres, o melhor presidente que o Brasil já teve! Da revolução de 32 e do golpe de 64. De como era bonito o Francisco Cuoco, da maldade que foi a Marta Rocha não ter sido eleita miss universo por causa das tais polegadas. Do sacrilégio que foi quando o homem pisou na Lua. Aonde já se viu tamanho desrespeito com São Jorge? Eu olhava aquela mulher curvada, apoiando-se numa bengala com cabo em marfim, a bolsa pendurada no antebraço, balançando enquanto andava com seus passinhos curtos e de onde ela tirava um batom vermelho ou o lencinho bordado com as iniciais de seu nome para secar os olhos úmidos por tantas lembranças. Sempre bem vestida, perfumada, fazendo questão de falar com todos. Eu ficava imaginando a vida que teve, os amores que viveu, as doenças que vieram com a velhice. Foi quase um choque quando o corpo veio para autopsia. Parecia mais frágil. Ainda se sentia o aroma da água de colônia que ela usava. O cabelinho tão branquinho e ralo, penteadinho, fixado pelo laquê. E no velório? Muitas velhinhas mais novas mas em pior estado do que ela relembrando fatos, conversas. Os parentes cabisbaixos, todos realmente muito sentidos. Fiquei com uma impressão de que viver não valia muito a pena. Cem anos e todo aquele conhecimento, tanto aprendizado perdido. Quer dizer, partilhado como os amigos, os filhos, os netos, os bisnetos, mas para ela o que sobrou? E eu ainda deveria abrir aquela senhora para dizer do que morreu. Mas sinceramente, para que abrir o corpo de uma senhora de 100 anos? Qual a importância de saber se morreu de arteriosclerose, pneumonia, ataque do miocárdio, insuficiência respiratória ou de velhice? Além do mais, aquela pele estava tão enrrugadinha que fiquei com muita pena. Conversamos longamente e como ela não se opôs fiz todos os procedimentos legais e ela foi enterrada sem nenhum corte. No seu caso, entretanto, existem certas dificuldades tendo em vista não haver nada que ajude a identificar a causa de sua morte. Diferente do seu Antenor, por exemplo. Morreu de câncer na próstata. E por quê? Recusava-se a fazer um simples exame de toque retal. O que é a dor de um toquezinho no reto comparado a todo aquele sofrimento? Agora me diga, porque eu iria abrir seu Antenor para constatar que morreu porque não quis levar uma dedada no rabo? Por quê? Agora, repito, seu caso é diferente. Se pelo menos houvesse um bilhete de suicídio, uma marca corporal ou mesmo um frasco de veneno... mas nem bagagem a senhora trouxe. Os objetos em sua bolsa só indicam o quanto a senhora era vaidosa. Três perfumes diferentes. - cheira o próprio braço em três partes diferentes - Armani, Dior, Chanel... vaidosa e de posses.  Perfuminhos caros... também depois que inventaram o cartão de credito e parcelamento em 10 vezes sem juros tudo é possível. Importante é que a senhora tinha bom gosto. Pelo menos para perfumes porque aquela sua roupinha, não sei não. Uma mulher que gosta de perfumes caros poderia estar vestida melhor - aproxima o nariz do corpo e aspira com suavidade quase entrando em êxtase, mas logo se recompõe - Como os frascos estavam ainda lacrados podem ter sido roubados de alguma loja ou quem sabe a senhora furtou de uma amiga ou ainda, da casa em que trabalhava como baba. Sim, babá. Porque empregada não era tendo em vista suas unhas estarem bem cuidadas. Podem também ter sido dados por três pessoas diferentes que sabiam do seu gosto para perfumes, ou apenas queriam impressioná-la. Sabe, algumas mulheres ficam encantadas com presentes caros. Já foi tempo que um buquê de rosas tinha efeito devastador. Uma caixa de bombom tinha o peso de um anel de brilhantes. Por isso que ainda não casei, meu salário não permite extravagâncias. Embora por aqui seja considerado um partidão, vou me esquivando de qualquer compromisso! Bem que noto os olhares das moçoilas, e como ás vezes é difícil escapar das investidas das mães e dos pais sugerindo “um almoço domingo lá em casa”. Bem sei no que daria esse almoço!   É claro que já tive algumas mulheres, não cheguei a me casar, estive bem perto, mas com sinceridade, e a senhora há de concordar, vocês mulheres são muito instáveis. Se somos românticos vocês choram, se somos insensíveis e canalhas vocês choram. Choram também de tristeza e de alegria. Se não sentem prazer na cama, choram e se gozam choram também. Sem falar na bendita mestruação que uma vez por mês faz de vocês as criaturas mais descontroladas da face da terra. Entretanto, é impossível viver sem vocês, mesmo com toda essa carga que são obrigadas a carregar - como que entrando em transe levanta a ponta do lençol e admira o corpo com expressão de desejo - Não há como evitar a maciez da sua pele -tenta tocar no corpo e não completa o gesto -, o aroma que exala de seus cabelos - aproxima o nariz  e aspira -, a suavidade e o ardor de seus lábios - curva-se sobre o corpo e aproxima-se para beijá-la, fecha os olhos, uma das mãos quase tocando um seio a outra abrindo o zíper de sua calça. Recompõem-se e se afasta rápido - Enfim, nascemos para sermos escravos dessa falsa fragilidade, para sermos dominados por seus caprichos e devorados por seu corpo quente e lascivo como deve ser as profundezas do inferno, que é como eu disse antes, o lugar em que vocês nos metem depois que nos envolvem. Ah, por favor, não pense que olho as mulheres apenas como objetos para um prazer momentâneo...  já me apaixonei algumas vezes sim e confesso que não foi tão ruim. Quer dizer, a última vez foi a mais difícil. Amar as vezes doí. Doí mais do que martelar o próprio dedo. Ah, não deveria ter me lembrado disso! Ainda sinto como se tudo tivesse acabado de acontecer. Como o ser humano é impressionante não é? Uma coisa que aconteceu há tanto tempo e ainda posso sentir como se estivesse vivendo tudo no mesmo instante! A mesma intensidade da dor, o sofrimento, a sensação de vazio, o gosto amargo da solidão dos dias. A senhora gostaria de ouvir minha triste história? - Consulta o relógio - Para falar a verdade temos tempo. Deixe-me pegar um café, é só um momento... não saia daí - ri - Foi só uma piadinha...

          Enquanto ele se dirige ao fundo da sala, do corpo coberto se levanta num pulo ao mesmo tempo em que a luz pisca uma mulher nua. Ela puxa o ar como se finalmente conseguisse respirar. O Legista leva um susto, como se pressentisse uma presença. Olha ao redor e nada vê. Vai até a porta do banheiro e verifica se esta tudo em ordem. A Mulher esta de olhos fechados, porém em suas pálpebras estarão desenhados olhos abertos. Ao fundo, ainda meio assustado, o legista se movimenta de modo lento como se ele estivesse em outra dimensão. Se serve de um café de forma bem criteriosa, pondo três ou quatro colheres de açúcar com a mesma quantidade. Despeja café na xícara até atingir um ponto especifico, depois mexe um sem número de vezes. Pega numa das gaveta um pacote de biscoitos e come lentamente.
          A Mulher desce tonta da mesa, perdendo o equilíbrio. As pernas não tem coordenação e ela se apoia na mesa.
- Como me sinto mal, estranha. O que será que comi? Alguém pode acender a luz, por favor? - alisa a barriga e com a mão limpa o suor da pela testa – Olá! Alguém pode me ajudar?
          Esta assustada, atônita, olhando o local sem entender o que esta acontecendo.
- O que esta havendo? Que lugar é esse? Que cheiro horrível! - leva a mão ao nariz e tem ânsia de vomito - Que lugar é esse? – ergue as mãos tateando o ar - Por favor, me ajudem! Alguém acenda a luz! Socorro! Tem alguém ai? - Anda devagar, tateando, sem achar nenhum ponto de apoio além da mesa - Olá!!!! Alguém pode me ajudar? Alguém pode acender a luz? Socorro! Que lugar é esse? Que cheiro insuportável!
          Consegue caminhar além da mesa e para com os braços abertos procurando algo em que se apoiar. Há ao seu redor uma nevoa negra embora fora dela possa se ver o legista tomando café.
- O que esta havendo aqui? Onde estou?
          Passa a mão pelo próprio corpo.
- Não consigo sentir meu corpo. Me sinto tão pesada, presa a alguma coisa.
          Tenta se desvencilhar de alguma coisa que não vê mas sente estar em seu corpo, como uma corda a prende-la em algo.
- E esse cheiro insuportável que agora parece familiar, mas não consigo lembrar o que é... cadê minha bolsa, meus perfumes! Não consigo respirar direito... meu peito doí... não consigo entender essas coisas em minha cabeça...  e porque essa escuridão? Afinal, que lugar estranho é esse? Como vim parar aqui? Não consigo me lembrar de mais nada depois que sentei na praça.
          Escuta um sussurro e apura os ouvidos.
- Olá! Estou aqui! Por favor me ajude!
          Subitamente ouve várias vozes ao mesmo tempo, vários tons, vários idiomas, ora alto, ora baixo todas falando ao mesmo tempo coisas que ela não entende.
- Quem são vocês, o que querem? Falem um de cada vez? O que? Heim? Não entendo. Pode repetir? Meu nome? Quer saber meu nome? Meu nome... como é meu nome? Não sei qual meu nome... não lembro do meu nome. Tanta coisa passando em minha cabeça mas não sei o que significam... Será que estou sonhando? - se apalpa - Mas não consigo me sentir! - puxa a pele, se arranha - Não sinto roupa nenhuma, estou nua? Que diabo de sonho é esse? A gente sonha e sabe que esta sonhando? Calma, calma...  por que se for um sonho vou acordar e tudo ficará bem. – respira fundo - Não, isto não parece ser um sonho, se fosse eu acordaria agora, sentiria meu corpo no macio da cama! Meu quarto, não consigo lembrar dele... minha casa, como é minha casa? Deus, o que esta acontecendo comigo? Fiquei louca? Será que me internaram? Como pode de uma hora para outra o mundo desaparecer? Fui sequestrada? Mas não sou rica, não tenho posses! E quem me sequestraria? - se desespera -  Meu Deus, será que foi algum pervertido que me sequestrou? – respira descompassadamente - Não consigo me lembrar de nada. Devo ter sido dopada. Socorro! Alguém me ajude! Socorro!  Estou presa em algum lugar... estou presa... sim... presa... presa... essa sensação de angustia... estar presa é um sentimento que sinto, que conheço, mas não entendo. E porque não sinto meu corpo, porque não ouço nada só essas vozes? As palavras. Eu as ouço dentro da minha cabeça antes de pronuncia-las. Essas palavras são minhas mas existem outras que não entendo, elas falam ao mesmo tempo umas com as outras. Algumas parecem conhecidas mas não me lembro de quem são. Deus do céu o que é isso que esta acontecendo? Preciso me lembrar do que aconteceu.
          Se concentra pondo os dedos sobre a testa.
- Calem a boca! Saiam da minha cabeça! Estou querendo me concentrar, descobrir o que houve! Que pesadelo é esse que estou vivendo! O que? Não estou entendendo? São muitas vozes ao mesmo tempo! Sentimentos? Emoções? É isso? Foi isso? É verdade. Não sinto medo, sinto algo estranho, não sei se é angustia. Sim, é muito estranho não sentir nada estando nessa situação. Eu só quero entender o que houve. 
          A névoa negra a envolve totalmente enquanto o Legista sai dos movimentos lentos voltando ao normal. Guarda o pacote de biscoitos e ainda ressabiado se aproxima do corpo.
 - Bem, por onde começo? Ah, sim. Devo preveni-la de que é uma historia um tanto que forte. - limpa a boca delicadamente com um lenço muito branco - Quer mesmo ouvir? Bom, que seja. Depois não diga que não avisei.
          Dobra o lenço meticulosamente e guarda no bolso. Faz uma pausa mais longa, como quem se concentra buscando o inicio da história. Fala olhando para o corpo como se ele pudesse realmente estar ouvindo.
- Eu já trabalhava como legista havia uns bons cinco anos e nessa época comecei a namorar uma menina... menina é modo de falar, né? Era uma morena clara com seus 27 anos e que tinha um corpo quase que perfeito, não fosse pelas nádegas um pouco saliente demais, nada exagerado, mas isso a tornava, podemos dizer, mais notada. Era uma mulher excepcional! Educada, inteligente e estava terminando o curso de direito. Trabalhava como estagiaria em um escritório de advocacia, recomendado por um antigo professor, um senhor bem distinto, quase que um pai para ela. Eu a conheci durante uma visita da turma dela ao IML. Foi uma coisa assim de pele. Estava fazendo a autopsia de um homem negro de um metro e setenta, pesando cerca de noventa quilos, assassinado com oito tiros de um revolver calibre .38 disparado a curta distancia, sendo que  três disparos foram efetuados de cima para baixo, quando a vitima já estava caída. Três na cabeça, dois no peito, um na mão direita, outro no braço direito e o último na perna esquerda. Nossos olhos se encontravam o tempo todo e depois que terminei ela aproximou-se para me perguntar qual a sensação de cortar uma pessoa, de retirar seus órgãos e estuda-los. Disse que meu trabalho era cientifico, aqueles corpos não eram corpos de pessoas, eram simplesmente material de trabalho, não os via como pessoas. Eram apenas objetos. No inicio pode ver um corpo, porém, depois de três ou quatro autopsias eles são apenas objetos. Por falta de mais tempo trocamos telefones para conversar melhor sobre o assunto. Estávamos magnetizados um com o outro. Começamos a nos encontrar nos finais de semana e não demorou para que começássemos a namorar. Eu a esperava depois da faculdade e íamos para um motel. Ela me ouvia falar da minha rotina e de como era lidar com todas aquelas pessoas mortas, que na maioria das vezes chegavam em estado deplorável. Ficava fascinada quando descrevia um procedimento simples de abrir um crânio para retirar o cérebro... ah, e quando disse de como era segurar um coração? Foi pura poesia! - recita como se estivesse segurando um coração - Abro um peito e com desejo pego com emoção um coração repleto de morte por amor. Beijo-o com sofreguidão e alucino-me, embriagado pela mesma paixão. Ah, como era lindo ver naqueles olhos o brilho de um desejo!  Olha, vou contar um segredo, por favor não conte isso para ninguém. Por umas duas vezes fizemos amor sobre uma mesa igual a essa, ao lado de um cadáver que ia ser autopsiado. Aquilo foi uma loucura! Ela parecia estar possuída por um desejo insaciável! Dizia que se sentia excitada imaginando que a qualquer momento um daqueles corpos se levantaria, como num filme de terror e avançaria para ela, querendo fazer amor. Riamos muitos dessas fantasias. E ela tinha muitas até. As vezes me visitava durante um plantão e ficava andando pelo IML, vendo os corpos que chegavam. Uma vez me pediu para abrir o peito de um senhor de uns setenta anos parecido com o pai dela e que havia se suicidado com gás. Olha, ela nem conseguiu cortar o corpo direito, gozou só de encostar a lamina no peito dele e fazer um talho. As pernas dela bambearam, o corpo todo tremeu e só ouvi o gemido longo, baixinho. Nós transamos ali mesmo, ela debruçada sobre o corpo, segurando os pés do morto. Depois de uns dois anos já fazíamos planos para alugar um apartamento. Eu me sentia o homem mais feliz do mundo. O que sentíamos quando fazíamos amor era indescritível!. O sexo era mais do que complemento do amor, sabe? É ele que nos move quase sempre para conseguirmos tudo na vida. Estávamos dentro do sentimento do outro e não do nosso próprio. Sentíamos a emoção do outro, o beijo do outro, o corpo do outro. Tudo era letalmente bom, e também perigoso porque nos arriscávamos num investimento que não tínhamos ideia de quanto tempo poderia durar ou das consequências daquele envolvimento. Não precisávamos do futuro, não queríamos imaginar, planejar. Queríamos o beijo, as caricias, as palavras, o corpo, o segundo que não passamos juntos. O tempo que foi e não estivemos juntos. As lembranças do último encontro sempre em nossas cabeças nos atormentando, esperando o momento do reencontro. Vivíamos do passado quando estávamos longe um do outro. - assume uma postura menos sonhadora - Mas, continuando, um dia ela me liga e diz que precisa visitar um parente doente não sei bem aonde, aproveitando um final de semana. Deixa bilhetes apaixonados pela casa declarando amor eterno, dizendo que seu corpo já sentia saudade do meu, etc... - maquinalmente pega no bolso papéis amassados, gastos, velhos, porém  não os abre - me fazendo lembrar da última noite... dos beijos, dos carinhos, das caricias... de palavras sussurradas, de frases tolas, de promessas...  do cheiro das flores que lhe dei perfumando o quarto, do gosto do vinho em sua boca...  e eu ficando louco de saudades, sonhando com sua volta. – recoloca os papéis no bolso -  Entretanto, ela nunca mais voltaria. Aquilo que para mim seria eterno, um sonho infinito de alegria, de paixão, terminaria em dor, em um choro engasgado como um osso na garganta.  A vida me puxando para o rodamoinho da desgraça, estraçalhando planos que sem querer fizemos e fingimos não existir. A luz desse amor que girava ao nosso redor, que antes podia iluminar nosso caminho havia se transformado num espectro fantasmagórico que me consumiria por muito tempo. – ajeita os óculos – Quer saber o que houve? O carro que dirigia colidiu com uma carreta e ela morreu. Morreu. Morreu. Morreu como se nunca tivesse existido. Vi depois as fotos da perícia. O pouco que restou dos corpos carbonizados, irreconhecíveis. Fragmentos de membros misturados ao que restou do carro. Uma massa retorcida de ferros. Podia sentir pelas fotos o cheiro da carne queimada, os ossos esfarelando em minhas mãos...  A senhora pode imaginar como fiquei não é? Um homem apaixonado é um bobo, porém um homem apaixonado que perde a mulher que ama pode virar qualquer coisa. Ainda mais com aquela ideia batendo em minha cabeça dia e noite em todas as horas. Porque ela mentiu? Porque não quis que fosse com ela? Quem era o homem no porta-malas do carro e todos aqueles instrumentos cirúrgicos junto ao corpo? Porque estaria ali, o que pretendia ela? Ninguém da família soube dizer que parente era esse que estava doente. Perguntas que vão e voltam em minha cabeça e até hoje estão sem respostas. Como as ilustrações e um livro de anatomia que o irmão dela me entregou pensando que fosse meu e estavam com ela. Porque aquilo estava com ela? Talvez tivesse comprado para me dar de presente. Quem sabe não precisasse de respostas porque todo aquele sofrimento era uma forma de continuar amando aquela mulher, de manter entre nós uma lembrança.
          O Legista se levanta novamente lentamente e se senta na ponta da mesa.
          A nevoa negra reaparece trazendo a mulher.
- Não sinto que doí, mas sei que doí.  E saber que doí e não sentir a dor é terrível! Talvez seja como amar alguém que nunca existiu, porém você espera que exista. É ter essa coisa para o resto da vida te assombrando, te consumindo sem que possa se dar ao outro. Parece que existe agora em mim um outro mundo. Posso saber que não sinto essa coisa me tomando, mas sei que ela existe e cresce, me envolve. Não ouço mais nenhuma voz e esse silêncio não me apavora ou consola. Talvez me explique o que aconteceu. Ou o que fiz. Sinto-me tão calma. Essa paz que sinto em mim e vem de algum lugar que não vejo, porém sinto ao meu redor é algo estranho. É um vazio que me entende, me preenche, me conforta.
          A Mulher desaparece com a nevoa enquanto o Legista desce da mesa rapidamente.
- Eu nunca fui um homem de muitos amigos ou mesmo de poucos amigos. Nunca me expus ou deixei que as pessoas tivessem acesso a mim. Não era também um homem estanque, isolado e de difícil aceitação. Mas sempre preferi ficar na minha, evitando alongar minhas opiniões. Meter-me em discussões estéreis para que? Era mais de ouvir do que falar e com a morte dela tudo pareceu ficar pior. Não gosto das pessoas porque através delas sou capaz de me revelar. Isolei-me e procurei ignorar as pessoas ao meu redor e aquele mundo que havia me tirado a mulher amada deixando em seu lugar uma coisa tão diferente e igualmente perturbadora. Aquele vazio estava cheio de ódio, de rancor, de medo, de desejo, de pensamentos destrutivos. O que havia agora para sentir, para viver? O mundo só era um lugar onde as pessoas me olhavam e talvez sentissem pena ao comentar a minha desgraça. Mas só. Ninguém podia sentir a minha dor, viver a acidez em meu estomago me corroendo, impedir as explosões em minha cabeça com a fúria de milhares de vozes gritando. E nenhuma delas pedia socorro. Apenas gritavam cada vez mais e mais. Quantas vezes pensei em me matar e de tão variados modos que acho que foi essa indecisão que me salvou.  Me via deitado sobre uma mesa e um colega me abrindo o peito sem o menor interesse. A burocracia da morte. A explicação cientifica para o final da minha vida. Depois, somente um laudo para amarelar em uma caixa numa prateleira de um depósito num lugar qualquer. Minhas vísceras expostas, pesadas, medidas, analisadas como se meu passado estive ali, com minha historia.  Que história? Pessoas comuns não tem história, vivem alienadas e acham que só existe vida nos finais de semana quando pensam que são donas do próprio corpo. Eu enlouqueço com a insanidade daqueles que se apegam as coisas pequenas achando que elas são essenciais e vivem a vida como se elas fossem sua razão para viver.
          Caminha para um lado em modo “câmera lenta” enquanto a nevoa reaparece com a Mulher.
– Minha vida? Não lembro dela. É assim como se eu não existisse. Não conheço nada de um mundo que não sei definir, que não consigo enxergar. Não sei se sou uma pessoa humilde, arrogante, sincera, calma, introvertida, destemida, inteligente. O mundo começa no caos para depois ir se organizando. Não, não foi assim que aconteceu. Eram duas pessoas... duas pessoas diferentes... o que um tinha não completava o que o outro queria. Depois descobriram algo que não podiam descobrir e então o caos se instalou. Mas quando passaram a ser verdadeiramente felizes? Na paz ou no caos?
          A nevoa se dilui e o Legista se move normalmente em torno do corpo.
- Todo dia me olho no espelho pela manhã e pergunto "quem é você cara, que me olha perguntando quem sou". Todo dia as respostas são diferentes. E essas respostas podem aparecer quando menos se espera e te tirar do marasmo, ou simplesmente te jogar no caos total. Durante um plantão uma dessas respostas apareceu e de forma surpreendente.
          Fala ao ouvido do corpo.
- A noite, deu entrada um corpo de mulher incrivelmente parecido com aquele que eu mais havia amado até então. O tamanho, o peso, a cor da pele, os cabelos cacheados. Não parecia estar morta, mas apenas dormindo profundamente e sua expressão era de uma felicidade que podia pensar-se que sonhava com anjos. Tão logo fiquei a sós com o corpo, num impulso peguei em sua mão - pega por debaixo do lençol a mão do corpo - ainda levemente quente, como a sua e senti a mesma delicadeza, a mesma suavidade da mão da minha amada - passa a mão do corpo em seu rosto com carinho - Fui invadido por um sentimento indescritível e sem pensar beijei-a timidamente, porém logo fui me deixando tomar pela emoção própria dos amantes que se encontram e se esquecem do mundo ao seu redor. Fechei os olhos e pus-me a beijar-lhe a boca macia, sugando-lhe o ar morno e sem perceber me despi ardendo de desejo, vendo naquele corpo inerte a materialização de um corpo que amei mais do que tudo. Beijava-lhe a boca procurando sugar-lhe a língua morta enquanto acariciava os seios e deslizava a mão por seu corpo macio. Ah, sentia suas mãos passando por minhas costas, as unhas afiadas e pintadas de esmalte vermelho me rasgando a carne, expandindo meu tesão com fúria por todo o corpo! A pressão entre nossos corpos impedindo que um entrasse por dentro do outro.  Sua respiração ofegante expulsando a alma em uivos selvagens e desesperados como se precisasse libertar um gozo para dizer que não estava verdadeiramente morta. Suas pernas me enlaçando como aços que se fundem quando aquecidos e a voz rouca, em êxtase, pedindo que a penetrasse com força, com amor, para que nossos corpos se unissem numa única forma, como uma melodia que se encaixa perfeitamente nos versos feitos pelo poeta apaixonado a sua amada. Eu sussurrando o nome dela como uma canção em seu ouvido, “Rose, Rose, Rose”, enquanto nossos corpos ardiam nesse delírio de amor até que explodiu meu gozo e...  e meus olhos se abriram  como quem acorda do pior pesadelo para a realidade de quem eu era, onde estava e o que de fato havia feito.  Meu deus! Meu deus! O que havia feito? Como foi possível descontrolar-me daquele jeito e ter praticado tamanha infâmia? Em que espécie de monstro havia me transformado? Como consegui perder o controle e ser capaz de praticar ato tão abominável, tão desprezível?  Caí de joelhos abraçando minhas roupas como se pudesse me esconder entre elas, meu sexo ainda pulsando, sentindo escorrer por entre minhas pernas o sêmen viscoso, quente e abundante  comprovando meu crime. Não, não, não, não! Não fiz isso! Não fui eu!  Mas não havia como negar. O corpo estava lá, inerte sobre a mesa. A virgindade destruída maculando um prazer que guardava para alguém que a merecesse e eu a destruí.  Então me vesti devagar. Peça por peça tentando ainda não acreditar no que havia feito aquela menina. O sêmen gelado secando em minhas pernas como pregos me cravando a essa cruz que sou obrigado a trazer comigo até hoje. Arrastei-me até o corpo e escalei a mesa agarrando-me a uma última esperança de tudo aquilo não ter passado de um sonho. Mas era verdade. Ali estava o corpo ensangüentado de uma jovem que eu acabara de profanar. Sim, sim, sim! Eu havia feito aquela barbaridade! O monstro dentro de mim lançava pensamentos de escárnio sobre meu ato e queria me fazer acreditar que afinal ainda havia vida dentro do meu corpo, que meu gozo provara isso e essa poderia ser, ainda que sórdida, a maneira de continuar a acreditar no amor, porque se não tinha mais capacidade de amar uma mulher viva poderia amar todas as mortas porque não sentiria a dor por sua partida. Não sofreria com a ausência de seu corpo porque todos os corpos estariam sempre ali, me esperando para concretizar meu amor. Não, não, não, não! Gritei alto para abafar esses malditos pensamentos que se enfiavam em minha cabeça como lanças, mas ouvia-os dizendo que não podia mentir sobre aquilo porque afinal eu havia gostado de possuir um corpo morto e que daqui para á frente só poderia ser assim. Não, não, não, não! Eu repetia cada vez mais alto e as lanças se multiplicavam, afiadas, lancinantes, se aprofundando, tomando conta também do meu corpo. Ah, meu corpo. Maldito corpo que respondia a elas revelando meus segredos, se enfeitiçando com aquela nova proposta de prazer enquanto meu coração dizia não, não, não, não! Não hei de fazer isso novamente porque não sou um monstro, um insensível! Sentia meu corpo se aliando as lanças e eu cada vez mais acuado dentro de mim, já quase sem saída. Foi então que o absurdo tomou forma e desesperado, em busca de saídas, fui abrindo todas as geladeiras para olhar aqueles corpos socialmente destruídos, sem história, abraçados somente pela morte, esquecidos por seus parentes, próximos da destruição cruel em um caixão. Privados da luz, do ar. Corpos que estão ali somente para alimentar as bactérias, os vermes que irão brotar do fundo da terra, como emissários do demônio para consumi-los lentamente, com um prazer igual ao que tive quando violei aquele corpo. Olhava-os e tentava entender porque estavam ali. Precisava recontar suas historias, seus excessos, a necessidade da transformação estética, seja por intervenção cirúrgica ou pelos exercícios em aparelhos que prometem o corpo perfeito. Precisava entender o último momento de vida, se foram felizes, se foram maus, se mereceram a morte que tiveram. Se em seus corpos havia as marcas sociais ou simplesmente a genética foi a responsável por empurrá-los para o abismo da decomposição, do esquecimento. Porque a medicina não os salvou? Porque não mereceram ser salvos?  Queria entender de que forma o mundo se apoderou de seus corpos e os obrigou a ser o que talvez não quisessem ser. Então, as lanças deixaram de ser uma tortura para significar a abertura de um conhecimento que não imaginava necessário a construção da minha verdade. O mal que causara aquela mulher era menor do que talvez a vida tenha lhe feito ao negar sua continuação no mundo. Aquele corpo morto me trazia a vida com seu sacrifício e sua profanação beirava a um propósito cientifico que se iluminava a minha frente. Todos os corpos agora faziam sentindo para mim. Meu trabalho não era somente descobrir o porquê da morte física, mas essencialmente o porquê da morte social, da morte espiritual.  Aqueles corpos estavam abertos para o meu desejo de vida e eu poderia possuí-los sem medo ou vergonha. Eles me dariam um gozo completo e eu os encheria de vida, de amor. Eu procuraria as famílias, ouviria as historias, reconstituiria a trajetória até o momento fatal em que o segundo derradeiro os impediu de dizer alguma coisa em sua defesa. Aquele caminho sem volta só poderia ser completado por mim, a ultima pessoa que esteve intimamente com aqueles corpos. A morte sempre esteve presente me dizendo que é a ela que devo amar e não aos corpos que retalho, mutilo, violo. Eles são apenas rascunhos da imagem de deus. É ela que me dá esses corpos como um prêmio pela vida que levo, pela vida que escolhi. Ah, quantas oportunidades desperdicei bancando apenas um açougueiro ingênuo quando tinha em minhas mãos a identidade, o eu de cada pessoa que a morte me enviava para purgá-lo da vaidade do silicone, do nariz modificado, das lipoaspirações sem necessidade, dos implantes modeladores na ridícula tentativa de alimentar o ego em crise. A morte me dizia no inicio, fale com eles que não será modificando o corpo que alma se aquietará em suas angustias, que é preciso aprender a aceitar o corpo como ele é com as mudanças que o tempo imprime nele. Não é o corpo que está errado mas o olhar sobre esse corpo que deve ser alterado. Não é alterando o corpo que a própria vida se modificará porque sua identidade, seus sentimentos não nascem no corpo nem da visão que os outros têm dele. Não somos como as lagartas que podem passar de repugnantes insetos rastejantes a lindos insetos voadores. Nossa metamorfose é interna, não corporal, pois nossa forma externa não se modifica enquanto crescemos, continuaremos a ter sempre dez dedos, um nariz e dois olhos, não importa o quanto cresçamos. Aprenda a amar seu corpo com seus defeitos por que Deus o fez assim com um propósito e alterá-lo é dizer que Deus estava errado quando lhe deu a vida.
          Fica cabisbaixo, parado, o olhar sem expressão. A mulher abre a nevoa e anda em passos de balé.
– As coisas, eu as sentia como se estivessem submersas, embaçadas. Aquilo que era uma ilusão estava envolta por uma película de liberdade e essa liberdade estava presa na ilusão de um dia poder acontecer. Lembro-me de viver no tormento de me sentir inútil, fraca, afogada na estupidez dos outros que tomava como modelo. Eles tinham uma vida e eu apenas um corpo para esconder. Mas quem de fato é dono do corpo, a quem o corpo pertence? Talvez a Lei seja dona do corpo uma vez que ela pode prendê-lo, pode decretar o fim da vida que ele conduz. Talvez as religiões sejam a dona do corpo quando o induzem a evitar o pecado, a permanecer casto. Talvez o poder financeiro seja o dono do corpo produzindo-o socialmente, dizendo o quanto pode comer e o que vestir ou como ser. O corpo pode ser alugado, vendido, negociado para promover uma marca, uma imagem, um sentimento. Então, provavelmente nem meu corpo é de fato meu. Eu o uso enquanto me permitem.  Eu senti alguém segurar a minha mão. Acho que não estou só.
          O Legista ergue a cabeça e olha ao redor sentindo uma presença.
- Sabe, tive a certeza de que entendia o que a morte me soprava quando um dia fiz a autopsia de um rapaz de 25/30 anos. Ele era um viciado em informática, um desses sujeitos que se deixa dominar pelo computador e passa a viver 24 por dia em frente daquela coisa que lhe suga a vida lentamente.
          Rodeia a mesa.
- Estava magro, desnutrido, olheiras assustadoras, os dedos iniciando um processo de desvio devido ao uso prolongado do mouse ou do teclado. Tinha uma acentuada calvície e seus dentes amarelados denunciavam que fumava muito. Sua coluna apresentava uma curvatura que comprometia sua postura ereta. Os rins estavam seriamente abalados e de tanto ficar sentado suas pernas apresentavam indícios de atrofia. Sua existência só se justificava pelo comprometimento com sua missão, fosse ela qual fosse. Sua vida era pertencer a máquina até que ele a vencesse ou ela o destruísse. Assim, abriu mão de seus amigos, de uma vida normal e da própria saúde para viver o único êxtase que conseguia entender. Foi uma criança saudável, um adolescente normal, me disse sua mãe. Até ganhar seu primeiro computador, depois disso, excluiu-se do mundo real, e o contraste desse isolamento é que estava em contato com milhões de outras pessoas como peixes em uma rede se debatendo para sair dela e voltar ao mar. Sabe, não consigo entender bem a atração que essas pessoas sentem pela máquina. Elas são completamente diferentes de nós, seres humanos. Não sentem dor nem muito menos prazer. Não tem vida própria, dependem do homem para tudo, até mesmo para serem criadas. Eu acho, não posso afirmar com certeza, mas parece que essas pessoas projetam na máquina uma vida da qual são incapazes de viver realmente. Seus corpos são apenas extensão da própria máquina. Você se vicia naqueles jogos imbecis de dar tiros e fica se achando o máximo. Uma vez até tentei jogar um desses e quando me dei conta havia passado o dia jogando. No final achei que desperdicei momentos que poderia estar compartilhando com outras pessoas. São jogos para pessoas que aceitam essa fantasia como uma possível fuga da realidade social. Como pode alguém perder tempo com uma coisa tão absurda? É como se o computador passasse a ser nosso corpo virtual e pudesse fazer todo tipo de merda sem nenhuma consequência real. Sabe, o cara perde um pouco a noção de civilidade porque, embora sejam só figuras, bonecos animados, eles representam pessoas, seres humanos. Do que esse jogador estará se vingando? Que pessoas na verdade ele estará matando ali? Jogos de luta que o vencedor mata o oponente de forma cruel, expirando sangue para tudo quanto é lado. Será que na vida real ele poderia fazer isso com os concorrentes, com o patrão, com o cara que acidentalmente pisou em seu pé na rua?  O sujeito vai perdendo o afeto, a compaixão, vai virando meio-máquina. Esquece de se perguntar  por que esta jogando aquilo, porque fizeram esse tipo de jogo para que ele fique preso a ele, com que propósito nos fazem matar, destruir? Não foi para isso que Deus nos fez. É como se quisessem nos fazer acreditar que a morte é uma besteira, um jogo irreal, fantasia para nosso deleite. Tudo isso teria sentido se procurassem um fundamento, uma lógica para tirá-los da ilusão de que tudo é permitido, quando na verdade não é bem assim, pois a vida exige regras, compromissos. Caso contrário somos apenas corpos manipulados, sem segredos. Não há laços entre o vivo e o autônomo, somente os fios que nos prendem a quem nos manipula, igual como achamos que comandamos o computador, que ele faz o que queremos, no entanto ele já veio programado por alguém que precisa nos controlar porque queremos ser dependentes, porque temos medo de ver como somos fracos, ignorantes, violentos, pusilânimes e precisamos disfarçar criando a fantasia de um poder vindo das máquinas. A vida virtual cria um mundo utópico. Por ignorância se cultua um mundo que não existe. A máquina nos suga para sua irrealidade fazendo com que não saibamos mais diferenciar o mundo real das fantasias que criam para nos prender. Dentro desse mundo imaginário cria-se uma realidade com linguagem e cultura própria, criamos um outro eu melhor do que somos e acabamos nos convencendo de que de fato, ele é melhor do que nós. Abrindo vocês eu descobri que estou vivo, que não sou máquina. Olhando minhas mãos rasgando suas entranhas as sensações são fortes, eu sinto o cheiro da decomposição dos líquidos, vejo o sangue se diluir, escorrer, se perder pelo esgoto. Vejo a carne cortada, exposta, aberta, arreganhada. Os nervos, as vísceras, como quebra-cabeças sem importância porque depois que se morre o corpo é apenas um monte de nada sem razão como peças de um computador que não pode ser mais manipulado. Desde que o mundo é mundo nós fazemos isso. Lembra dos campos de concentração? Todas aquelas pessoas sendo mortas de modo organizado. Pessoas trabalhando para o aprimoramento da destruição, tentando minimizar o caos, dando aqueles assassinatos um caráter científico. Aquela guerra foi o ápice das guerras onde matar atingiu um patamar cínico inquestionável.  O que para nós era horror para os monstros era somente a obrigação de atingir um proposito. O mundo virtual é mais ou menos como um campo de concentração com o mesmo objetivo: mostrar que existe uma inteligência superior e que nossos corpos, nossas mentes são dela. O computador nos aprisionou com suas infinitas possibilidades de informação, de conhecimento, de diversão. Ele descobre nossas necessidades, nossas mentiras, nos leva a acreditar que temos infinitas possibilidades de viver vidas que jamais viveremos de fato. Não precisamos imaginar! É só clicar e estaremos vivendo sonhos estranhos que nunca acabam porque mudamos de fases. Morremos e ressuscitamos como quer a religião. Não precisamos pensar porque a máquina pensa por nós. Todos os caminhos já estão traçados.  Sabe, eu não convivo com a morte porque as pessoas que recebo já estão mortas. Os médicos, estes sim, os guardiães da vida em duelo constante com a morte. Os únicos como o poder e a frieza de informar ao seu paciente que ela virá para redimi-los de seus erros. Prolongando a tortura que é saber que vai morrer em breve, porem, sem ter a certeza do dia e da hora e se isso poderá ser rápido ou penosamente longo. Falam, no máximo, do sofrimento da carne, dos sintomas e dos remédios que aliviam momentaneamente a dor, criando a ilusão de mais algumas horas de vida. E pra que? Não é o corpo que morre! É a emoção de estar vivo borbulhando no cérebro que irá se perder levando nossas ideias, nosso conhecimento, nossas mentiras e verdades. Para onde? Para quem poderemos deixar nossa felicidade, a alegria por tantos momentos bons ao lado de quem amamos?  Quem amamos já morreu. Já não existe. É apenas poeira do passado.
          A mulher surge envolta em uma nevoa branca, quase luminosa.
– Eu vivo, ou penso que vivo. Viver pode ser estar além do limite físico que o corpo ocupa principalmente quando está sujeito a percepção do outro, que o regula e determina, a partir do que supõe conhecer  de si próprio que é tomado como padrão.  Quando eu me dou espero ser o outro e se ele me rejeita é porque não aceita em si essa parte que não reconhece como socialmente concreta. Me transforma em fantasma e ser fantasma é não ter palavra, é não ter voz. Porém, mesmo com meu silêncio ainda assim falo, porque passei por cima de todas as frases para me transformar em uma ideia que como doença principia pelo sintoma. Agora sei o que me aconteceu. O que eu fiz a mim mesma quando me sentei naquela praça. Se não pertencia aquela vida então não havia sentido em mantê-la comigo.
          Em torno da Mulher a nevoa roda lentamente e vai se evaporando. 
          O Legista olha para trás por alguns segundos mas nada vê. Volta ajeitar o corpo para a autopsia.
- Bom, poderia continuar a falar, a mostrar meu mundo, mas acho que agora já chega. Precisamos terminar com isso. Mandei suas impressões digitais para a capital e logo saberei quem é a senhora e sua historia se construirá para que possa entender seus momentos finais. Agora, precisarei cumprir minha obrigação.
          Olha demoradamente para o corpo envolto no lençol. Abraça-o com carinho, acaricia a cabeça, beija-lhe o rosto, os olhos, a boca. Emociona-se como quem se despede de um ente querido.
- Tomara que sua vida tenha valido a pena. Que tenha amado e sido amada. Que tenha aproveitado os dias de sol e os de chuva também. Se ninguém vier reclamar seu corpo prometo que farei uma linda cerimonia de despedida e levarei flores dia sim dia não para enfeitar seu tumulo.
          Retira o lençol do Corpo mas ele permanece com um lençol a cobri-lo. O legista se afasta enquanto dobra o lençol lentamente. O Corpo se levanta calmamente, senta-se na mesa e olha ao redor. A mulher se aproxima e abraça o Corpo e trocam um longo beijo na boca enquanto ela vai se deitando. 
          O Corpo depois de deitar a mulher volta a se sentar na mesa.
- Por enquanto meu nome é ninguém. Ninguém tem uma historia mas todos preferem não a ouvir. A quem pode interessar uma vida que já nasceu morta? Ninguém tem sua vida porque ela pertence na verdade a sociedade, ao mundo. Ninguém não pode ser o que quer. A família diz não. Os amigos dizem não. A justiça diz não. Vivi num mundo que não era meu. Como minha mãe que vivia na sombra de alguém que não a queria. Todos preferiam não ver ninguém, preferiam não saber que ninguém existe, que devia continuar no anonimato. É assim que devemos viver? Você pode negar o que sente, o que é, e esconder por um tempo, mas nunca a sua vida toda. Mesmo quando não se olha no espelho a verdade esta lá e você sabe disso, mesmo desempenhando um papel, fingindo que engana os outros que fingem que são enganados e apenas te toleram. A vida não deveria ser assim. Mas é. E não sou eu a culpada por ser o que sou, porém me veem como um castigo e me isolam.  Assim como minha mãe que também experimentou a solidão. Uma casa vazia, silenciosa, sem movimento. Rodando pelos cômodos querendo que os móveis lhe falassem ou ao menos sorrissem. Que a luz que entrava pelas janelas não fosse tão triste e que o vento que balançava a cortina não fosse como a mão de um homem a acenar-lhe um adeus por erros que não cometeu. Experimentou a tristeza. Uma verdade que sussurrava em seu peito o medo de compreender aquele e tantos outros momentos que fingia não viver. Como quem sobrevive ao caos arrastava-se pelos corredores, subia escadas em busca de uma pessoa que já não morava mais lá, numa procura inútil. Vivia agora sem a obrigação de cuidar do marido que sempre foi seu algoz e que a trocou por outra mulher mais jovem. Vivia sem a presença do filho obediente, dedicado, amigo, que um dia precisou partir par assumir o próprio sofrimento, libertando-a do compromisso de partilhar essa dor. Vivia sem ter que lavar, passar, cozinhar. Vivia somente para ver a tarde na tv a reprise da reprise da novela e fingir que não lembrava do que iria acontecer a mocinha ingênua enganada pelo vilão. Também vivia esse personagem, mas sua novela era real. A reprise daquela vida não interessava.  Tinha a certeza de todas as coisas que aconteciam, mas não acreditava nelas. A relação com as pessoas se arruinou muito mais pela hipocrisia dela que se esforçava para viver o papel que todos desempenham, como a vida dupla de seu marido, meu pai. Nunca seguiu o exemplo dele.  Afogou-se na lama da rotina e em lembranças de como era infeliz antes de achar que virou adulta e de que poderia escolher outro mundo que provavelmente não tinha certeza se gostaria de viver nele. Não lhe disseram que não haveria opções. Então descobri, como minha mãe, que queria só me sentar e morrer. Sentir o corpo evaporar, diluir-se num brilho sentindo a luz passando pela carne e reduzindo meus ossos a pó, como purpurina lançada ao ar. E assim ser, de alguma forma, feliz.
          O lençol escorrega revelando o órgão entre as pernas do Corpo. Depois ele se deita sobre a mulher tornando-se uma única pessoa.
          O legista se aproxima e se senta. Olha o corpo.
- Posso entender sua vida. Sua não vida. E o mínimo que posso fazer é dar agora o que em vida você não teve, não foi.
          Com uma das mãos pega o bisturi e com a outra o pênis da mulher.
- Então? Podemos começar?

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