Olho, assim como a maioria, para a mulher que entra. Não tem como ignorar a morena esguia no jeans
colado ao corpo como se fosse a própria pele que depois de uma rápida busca
localiza quem procurava.
- Minha vida não é uma merda mas é privada!
Disse a mulher em alto e bom som
enquanto se curvava apoiando as duas mãos sobre a mesa do detetive Gaspar. A
blusa bem decotada deixando ver que esta sem sutiã.
Gaspar sorri enquanto olha os
seios cujos bicos estão duros. Depois ergue os olhos para a mulher e diz com
cara de deboche para esconder o tesão:
- Minha senhora, sou detetive de policia e investigar é minha
função. Além do mais a senhora esta na minha lista de suspeitos.
- Suspeita ou não isso não lhe dá
o direito de divulgar coisas ao meu respeito pela imprensa.
Gaspar se reclina na cadeira
querendo mostrar o volume dentro das calças e ainda mantendo no rosto o ar de
deboche.
- Cara senhora, não tenho culpa por
ser a senhora ser uma figura pública e sua vida interessar a imprensa. Além do
mais o que foi divulgado é do conhecimento de todos.
A mulher o olha e mesmo sem
querer reproduz a expressão que utiliza nas cenas da novela quando esta
discutindo com sua arqui-inimiga na disputa pelo amor do mocinho. Fala pausado
e devagar, um olhar penetrante enquanto se curva ainda mais sobre a mesa.
Gaspar espicha o olhar de cobiça e se perde dentro da blusa dela.
- Cuidado detetive, não se engane
achando que sou aquela tolinha da novela. Todos nós temos nossos podres, nossos
pontos fracos.
Gaspar fecha o semblante e tenta retribuir
o olhar penetrante.
- Isso é uma ameaça minha
senhora?
- Ameaça? Ora meu caro detetive,
como uma suspeita pode ameaçar um detetive? Mas pode ser que o dono da emissora
para a qual trabalho ligue para o chefe do seu chefe e o senhor seja obrigado a ter uma conversinha com ele.
Antes que Gaspar possa fazer ou
falar algo ela se recompõe e dá-lhe as costas. Na saída ainda para e dá meia
dúzia de autógrafos.
Gaspar fica remoendo a raiva por
não ter tido tempo de responder, porém, solta um “filha da puta” quase sem som
com os dentes trincados, apenas mexendo os lábios.
Otavio se aproxima devagar
trazendo como pretexto um copinho com café.
- Na novela ela perece ser mais
gostosa – diz enquanto entrega o café – mesmo assim dá pra pegar.
- Vaca filha da puta! Vem aqui me
ensinar a trabalhar. Agora mesmo é que vou ficar na cola dela. Passou a ser
minha suspeita número um.
- Cara, o marido morreu
acidentalmente.
- Otavio, um camarada que toma viagra
sabe que não pode tomar três comprimidos de uma vez! Mataram o velho sim, e pra
mim foi ela.
- Pô Gaspar, o cara estava no
motel com um traveco.
-
Ainda mais essa! Quem sai com veado quer dar e pra isso ele não
precisava de viagra. Aí tem coisa.
Da minha mesa eu olho os dois
conversando e noto a raiva de Gaspar. Sei que ele quer provar que o marido da
atriz foi assassinado. Precisa disso para se promover. Eu o encaro com um ar de
riso enquanto ele fecha ainda mais a cara.
Gaspar vira o resto de café de
uma vez num gesto rápido e depois joga o copinho com raiva na lata de lixo ao
seu lado. Otavio joga seu copinho do mesmo lixo e se afasta sem falar nada.
É, Gaspar daria para ator, penso
enquanto volto a escrever meu relatório. Pena que ele não se contentaria com um
papel pequeno.
(A orgias dos cães – Ivo linhares)
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