Quando disse que papai enriqueceu durante a ditadura não
quis dizer exatamente que foi de forma ilícita.
O general apoiou a tal coisa que eles chamavam de revolução ainda que
admitisse que tudo, no fundo, foi mesmo um golpe de estado. Havia uma
constituição e ela merecia respeito. Mas como eu dizia, papai fez fortuna
criando uma espécie de agencia de proteção privada para os empresários e suas
famílias que morriam de medo de ser sequestrados. De alguma maneira muita gente
se beneficiou com o golpe, de forma licita ou ilícita. Depois que as forças de
repressão desbarataram as frágeis forças revolucionárias o negócio acabou
perdendo a força, porém graças a ele papai pode aplicar seu lucro no mercado
financeiro e ver seu capital aumentar sem que precisasse fazer esforço.
Não posso dizer que indiretamente não me beneficiei com
isso. Estudei em bons colégios, viajei para a Europa. Recebia uma boa mesada
para gastar em bobagens e com mulheres. Coisa que qualquer adolescente filho de general
faria. Não me arrependo de não ter seguido a carreira militar, aliás, o próprio
general não recomendava. Dizia que o exército havia mudado muito, que havia se
perdido mais uma vez se passando para o lado dos americanos que embora
democrata não era diferente de outros colonizadores. Deixávamos de ser colônia
de Portugal para ser satélite dos Estados Unidos. Diferente do exército, na
policia não se faz amigos. Não existe aquela camaradagem própria das casernas.
Militares lutam contra um inimigo comum a pátria. Na policia nem sempre esse
inimigo é realmente inimigo de todos os policiais. As vezes a lei e a ordem não
são os objetivos comuns dos membros dessas corporações. Por isso resolvi
trabalhar em homicídios, afinal, é preciso sempre haver um culpado.
Carol adora ouvir minhas histórias. Ouve como se fosse uma
garotinha de dez anos, prestando atenção aos detalhes para depois perguntar
tudo. Vou falando enquanto remexo a papelada sobre os assassinatos dos
estupradores. Ela observa meus gestos, o modo como organizo a bagunça que faço
sobre a mesa. Sou um exemplo.
“Quem cometeu o primeiro crime foi a mesma pessoa que
cometeu os outros”, diz Carol vendo as fotos dos corpos e os laudos.
“Porque”, pergunto.
“O assassino não deixou marcas no pescoço da vitima, o que
demonstra certa preocupação em preservar a aparência externa, como a maioria
dos estupradores que não matam suas vitimas
faz, pois seu objetivo é o sofrimento interior. A asfixia é uma morte
cruel porém relativamente rápida. O
mesmo não pode ser aplicado ao veneno. Segundo o laudo necrológico o produto utilizado
provocou perda dos movimentos mas não da consciência. A morte foi mais lenta”.
“O que exatamente você esta sugerindo”, insisto.
Carol me olha por alguns segundos. Depois sentencia:
“O assassino pode não ter sentido prazer em mata-los, entretanto, os fez pensar em como era perder a
vida. O mesmo sentimento de suas vitimas”.
(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
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