sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quando disse que papai enriqueceu durante a ditadura não quis dizer exatamente que foi de forma ilícita.  O general apoiou a tal coisa que eles chamavam de revolução ainda que admitisse que tudo, no fundo, foi mesmo um golpe de estado. Havia uma constituição e ela merecia respeito. Mas como eu dizia, papai fez fortuna criando uma espécie de agencia de proteção privada para os empresários e suas famílias que morriam de medo de ser sequestrados. De alguma maneira muita gente se beneficiou com o golpe, de forma licita ou ilícita. Depois que as forças de repressão desbarataram as frágeis forças revolucionárias o negócio acabou perdendo a força, porém graças a ele papai pode aplicar seu lucro no mercado financeiro e ver seu capital aumentar sem que precisasse fazer esforço.
Não posso dizer que indiretamente não me beneficiei com isso. Estudei em bons colégios, viajei para a Europa. Recebia uma boa mesada para gastar em bobagens e com mulheres. Coisa que qualquer adolescente filho de general faria. Não me arrependo de não ter seguido a carreira militar, aliás, o próprio general não recomendava. Dizia que o exército havia mudado muito, que havia se perdido mais uma vez se passando para o lado dos americanos que embora democrata não era diferente de outros colonizadores. Deixávamos de ser colônia de Portugal para ser satélite dos Estados Unidos. Diferente do exército, na policia não se faz amigos. Não existe aquela camaradagem própria das casernas. Militares lutam contra um inimigo comum a pátria. Na policia nem sempre esse inimigo é realmente inimigo de todos os policiais. As vezes a lei e a ordem não são os objetivos comuns dos membros dessas corporações. Por isso resolvi trabalhar em homicídios, afinal, é preciso sempre haver um culpado.

Carol adora ouvir minhas histórias. Ouve como se fosse uma garotinha de dez anos, prestando atenção aos detalhes para depois perguntar tudo. Vou falando enquanto remexo a papelada sobre os assassinatos dos estupradores. Ela observa meus gestos, o modo como organizo a bagunça que faço sobre a mesa. Sou um exemplo.

“Quem cometeu o primeiro crime foi a mesma pessoa que cometeu os outros”, diz Carol vendo as fotos dos corpos e os laudos.
“Porque”, pergunto.
“O assassino não deixou marcas no pescoço da vitima, o que demonstra certa preocupação em preservar a aparência externa, como a maioria dos estupradores que não matam suas vitimas  faz, pois seu objetivo é o sofrimento interior. A asfixia é uma morte cruel porém relativamente rápida.  O mesmo não pode ser aplicado ao veneno. Segundo o laudo necrológico o produto utilizado provocou perda dos movimentos mas não da consciência. A morte foi mais lenta”.
“O que exatamente você esta sugerindo”, insisto.
Carol me olha por alguns segundos. Depois sentencia:
“O assassino pode não ter sentido prazer em mata-los,  entretanto, os fez pensar em como era perder a vida. O mesmo sentimento de suas vitimas”.

(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
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