terça-feira, 6 de maio de 2014

“As vezes a gente quer se arrepender de coisas que foram ditas ou feitas porque naquele momento não era possível agir de outra forma. Muito depois, quando se está mais velho, mais ajustado é que aquela situação volta pra nós e ai, embora tarde, a gente percebe que podia ter feito diferente. Faltou alguma coisa. Talvez maturidade. Não sei”.
Carol olha para Androide e ri enquanto fala “Maturidade é uma palavra que quase nunca esteve no teu dicionário”.
‘Embora a ouvisse sempre na boca de meu pai e em suas atitudes. Ah, o  velho general devia ter razão sobre muitas coisas. Bem que eu poderia ter me espelhado naquela velha raposa”. Responde ele e depois se cala enquanto pensa: Se eu soubesse pedir pediria. Várias vezes. De vários modos. Para todos. Para quem me escutasse. Até para o tal coisa ruim que as vezes parece ter mais força que deus. Mas parece que a coisa não é tão fácil assim. Não basta pedir, tem que existir uma troca. Alguém tem que ganhar alguma coisa. Eu não sei o que tenho pra dar. E nem sei se iriam querer o que tenho.
“A gente só pensa no que vai perder quando esta pra morrer. Podíamos fazer como os faraós. Levar tudo para o túmulo. Recomeçar do outro lado como se ainda estivéssemos aqui. Será que teria graça desse modo? Acho que seria chato demais. Do outro lado deve ser diferente senão porque morrer? Bastava ficar por aqui mesmo como fantasma aproveitando o conforto dos ditos bens materiais”.
Ele a ouve, porém continua pensando: Acho que eles não me ouviriam. Nunca falei com eles porque agora me ouviriam? Podia tentar. Não é por mim. Podem levar isso em consideração. Não sei se Carol acredita. Nunca falou que sim ou que não. Mas se eu pedir como se fosse ela, daria resultado? Podia procurar uma daquelas cartomantes que trazem a pessoa amada em três dias. Elas devem ter um canal aberto com as entidades. É quase um sedex.
A mão direita de Androide vem se arrastando com o celular pelo rosto e para na altura do peito. Pisca devagar. Calmo. Sabe que precisa ter calma e controlar a situação. Ouve-se risos altos e alguns tiros. A cabeça se inclina para a esquerda para onde esta Carol sentada, recostada sobre entulhos que estão ao lado de uma caçamba também com entulhos. Carol ferida, olhos semiabertos e respirando com dificuldade. Uma das mãos ao lado esquerdo do ventre, ensanguentada. Na outra mão, também ensanguentada a  pistola 9mm. Apesar da dor tenta sorrir. Mais alguns tiros e vozes falando que estão chegando, que vão pega-los, que não tem como escaparem.
Carol o olha e se esforça ainda mais para sorrir. Tosse e faz cara de dor enquanto aperta o ferimento. Androide retira o carregador da arma e confere quantas munições.
“Sete munições. O que você tem ai ainda”?
Carol com esforço libera o carregador da arma e com expressão de dor  pelo movimento diz "dez". Com muita dificuldade retira das costas um revólver inox pequeno e mostra para Androide dessa vez com um sorriso bem aberto.
“Ah, esta com o Magnum 357...”
“Lembra dele”?
“Lembro. Meu presente para você quando completou um ano comigo”.
“Era da coleção do teu pai. Senti um puta orgulho quando me disse isso”.
“Eu vi. Você quase chorou”.
“Chorei nada, não inventa’.
Carol tosse e Androide sabe que ela esta fazendo muito esforço.
“Vai conseguir usar”?
“Claro. A última bala é sua ou minha”?
“Nem minha nem sua. A gente vai sair dessa, te prometo”.
“Me faz um favor”.
“O que quiser Carol. Somos parceiros. Fala”.
“Me apaga se a gente não conseguir ok? Não quero ficar nas mãos desses babacas”.
Androide a olha fixo, sério e não consegue falar mais nada.
“Como esta o ombro”? Pergunta ela depois do longo silêncio.
“Foi de raspão. Da pra ficar legal. Ainda bem que atiro com as duas mãos”.
Androide escuta um barulho e num reflexo se vira atirando sobre a caçamba. O homem cai morto sobre os entulhos com a mão pendurada segurando uma pistola desert eagle quase sobre a cabeça de Carol.
“Uma desert eagle...”
Carol com esforço e dificuldade ergue a cabeça e olha a arma. Tosse.
“Esse babaca com uma arma dessas... ótima arma, mas pesada. Ele teria que me acertar no primeiro tiro”.
“O coice dela é de matar”.
“Mas quem morreu foi o burro que tentou atirar”.
Androide se levanta e pega a arma da mão do homem.
“Quantos será que são”?
“Acho que agora só uns três”.
O celular de Androide toca duas vezes e para.
“São eles”? Pergunta Carol

Som de um helicóptero se aproximando rápido. Logo depois carros freando e tiros. Gritos e breve tiroteio. Androide e Carol continuam atentos, de arma em punho. Androide olha para Carol que sorri enquanto deixa a cabeça pender para o lado ao mesmo tempo em que a arma que tem na mão se solta devagar sobre sua barriga. 

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
direitos reservados

Nenhum comentário:

Postar um comentário