“As vezes a gente quer se arrepender de coisas que foram ditas
ou feitas porque naquele momento não era possível agir de outra forma. Muito
depois, quando se está mais velho, mais ajustado é que aquela situação volta
pra nós e ai, embora tarde, a gente percebe que podia ter feito diferente.
Faltou alguma coisa. Talvez maturidade. Não sei”.
Carol olha para Androide e ri enquanto fala “Maturidade é uma
palavra que quase nunca esteve no teu dicionário”.
‘Embora a
ouvisse sempre na boca de meu pai e em suas atitudes. Ah, o velho general
devia ter razão sobre muitas coisas. Bem que eu poderia ter me espelhado
naquela velha raposa”. Responde ele e depois se cala enquanto pensa: Se eu
soubesse pedir pediria. Várias vezes. De vários modos. Para todos. Para quem me
escutasse. Até para o tal coisa ruim que as vezes parece ter mais força que
deus. Mas parece que a coisa não é tão fácil assim. Não basta pedir, tem que
existir uma troca. Alguém tem que ganhar alguma coisa. Eu não sei o que tenho
pra dar. E nem sei se iriam querer o que tenho.
“A gente
só pensa no que vai perder quando esta pra morrer. Podíamos fazer como os
faraós. Levar tudo para o túmulo. Recomeçar do outro lado como se ainda estivéssemos
aqui. Será que teria graça desse modo? Acho que seria chato demais. Do outro
lado deve ser diferente senão porque morrer? Bastava ficar por aqui mesmo como
fantasma aproveitando o conforto dos ditos bens materiais”.
Ele a
ouve, porém continua pensando: Acho que eles não me ouviriam. Nunca falei com
eles porque agora me ouviriam? Podia tentar. Não é por mim. Podem levar isso em
consideração. Não sei se Carol acredita. Nunca falou que sim ou que não. Mas se
eu pedir como se fosse ela, daria resultado? Podia procurar uma daquelas
cartomantes que trazem a pessoa amada em três dias. Elas devem ter um canal
aberto com as entidades. É quase um sedex.
A mão direita de Androide vem se
arrastando com o celular pelo rosto e para na altura do peito. Pisca devagar. Calmo.
Sabe que precisa ter calma e controlar a situação. Ouve-se risos altos e alguns
tiros. A cabeça se inclina para a esquerda para onde esta Carol sentada,
recostada sobre entulhos que estão ao lado de uma caçamba também com entulhos.
Carol ferida, olhos semiabertos e respirando com dificuldade. Uma das mãos ao
lado esquerdo do ventre, ensanguentada. Na outra mão, também ensanguentada a pistola 9mm. Apesar da dor tenta sorrir. Mais
alguns tiros e vozes falando que estão chegando, que vão pega-los, que não tem
como escaparem.
Carol o olha e se esforça ainda mais para sorrir. Tosse e faz
cara de dor enquanto aperta o ferimento. Androide retira o carregador da arma e
confere quantas munições.
“Sete munições. O que você tem ai ainda”?
Carol com
esforço libera o carregador da arma e com expressão de dor pelo movimento diz "dez". Com muita
dificuldade retira das costas um revólver inox pequeno e mostra para Androide dessa
vez com um sorriso bem aberto.
“Ah, esta com o Magnum 357...”
“Lembra dele”?
“Lembro. Meu presente para você quando completou um
ano comigo”.
“Era da coleção do teu pai. Senti um puta orgulho
quando me disse isso”.
“Eu vi. Você quase chorou”.
“Chorei nada, não inventa’.
Carol tosse e Androide sabe que ela esta fazendo
muito esforço.
“Vai conseguir usar”?
“Claro. A última bala é sua ou minha”?
“Nem minha nem sua. A gente vai sair dessa, te
prometo”.
“Me faz um favor”.
“O que quiser Carol. Somos parceiros. Fala”.
“Me apaga se a gente não conseguir ok? Não quero
ficar nas mãos desses babacas”.
Androide a olha fixo, sério e não consegue falar
mais nada.
“Como esta o ombro”? Pergunta ela depois do longo
silêncio.
“Foi de raspão. Da pra ficar legal. Ainda bem que
atiro com as duas mãos”.
Androide
escuta um barulho e num reflexo se vira atirando sobre a caçamba. O homem cai
morto sobre os entulhos com a mão pendurada segurando uma pistola desert eagle
quase sobre a cabeça de Carol.
“Uma desert eagle...”
Carol com esforço e dificuldade ergue a cabeça e
olha a arma. Tosse.
“Esse babaca com uma arma dessas... ótima arma, mas
pesada. Ele teria que me acertar no primeiro tiro”.
“O coice dela é de matar”.
“Mas quem morreu foi o burro que tentou atirar”.
Androide se levanta e pega a arma da mão do homem.
“Quantos será que são”?
“Acho que agora só uns três”.
O celular de Androide toca duas vezes e para.
“São eles”? Pergunta Carol
Som de um
helicóptero se aproximando rápido. Logo depois carros freando e tiros. Gritos e
breve tiroteio. Androide e Carol continuam atentos, de arma em punho. Androide
olha para Carol que sorri enquanto deixa a cabeça pender para o lado ao mesmo
tempo em que a arma que tem na mão se solta devagar sobre sua barriga.
(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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