Três
ou quatro meses. Não sei. No dia em que sai da clinica entardecia. Poderia ser
sábado porque as ruas não estavam tão movimentadas. Via poucas pessoas. Pessoas
andando devagar, aproveitando o entardecer.
Três
ou quatro meses. O inquérito foi arquivado. Mais um crime sem solução.
Esquecimento. A dor de alguém que amou aquela mulher com um desespero que não
era seu ficaria vagando em lembranças, em rumores de gemidos, nas pequenas
cicatrizes feitas pelos chicotes, pelas algemas, por beijos furiosos.
O
advogado tinha a expressão fechada, o olhar se fixava ao meu e tentava penetrar
na minha mente. Era um pequeno idiota que precisava impressionar seus clientes. Desconfiava
que eu era lésbica, provavelmente amante da morta. Imaginei-o preso a uma cama
sendo chicoteado por mim. Quase salivei.
Lembrava
do caso. Crime passional, disse sem dúvidas. A mulher era uma dominatrix com
vários clientes.
Pensei em levantar-me
e ir embora. Ela não era uma dominatrix pois mantinha um forte contato sexual
comigo, diferente da dominatrix profissional que apenas realiza as fantasias de
seus dominados sem envolver-se com eles. Infelizmente era o único advogado que
cobrava um valor que eu podia pagar. Alguns advogados são escrotos e querem que
confiemos cegamente neles. Encarei-o devassando sua medíocre alma. Levantei-me
devagar, os braços ao longo do corpo e enquanto ele acompanhava esse movimento
afastei lentamente para trás a cadeira com o pé. Ergui a perna direita pondo o
salto do scarpin rosa sobre uns papéis apontando para ele e ao curvar-me para frente projetando o
corpo na direção do assustado homem deixei que parte da coxa sobressaísse
acintosamente até que o prendedor do espartilho aparecesse preso a meia. Apoiei
o braço direito sobre a perna exibindo o anel com o desenho da serpente saindo
pelo olho da caveira. O corpo do homem recuou empurrando levemente a cadeira
para trás. Falei de forma pausada para que entendesse e não ficasse nenhuma
dúvida.
Então ele leu em meus
olhos que eu trabalhava para pessoas importantes interessadas em saber o
que havia acontecido, descobrir os culpados e puni-los. Ele engoliu em seco e
evitou olhar para a perna, mas fixou os olhos no scarpin rosa enquanto
afrouxava o nó da gravata. Pequenas gotas de suor brotaram em sua testa.
A porta do elevador se abre. Entro. O ascensorista me olha sem mover a cabeça. O elevador começa a descer lentamente. Pela porta pantografica vejo paredes sujas, manchadas, encardidas passando como quadros de pintores mediocres. Aproximo-me do homem e deixo que sinta meu perfume. Estendo-lhe a nota e digo que quero que descubra tudo que aconteceu no dia em que mataram a mulher. Ele pega a nota e vê o anel com a serpente saindo pelo olho da caveira.
Antes que a porta do elevador se abra a visão
do advogado sendo chicoteado me vem a mente. Novamente minha boca se enche d'água.
(Fim da sétima parte
– continua)
®
Direito
de reprodução reservado
Nenhum comentário:
Postar um comentário