sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ÍMÃ (2ª parte)




    Acorda assustada com o telefone tocando.
- Alô...
- Estou tocando uma punheta pensando em você.
   Ouve a voz ofegante do outro lado da linha e não a reconhece de imediato. Olha para o relógio com a vista embaçada, meio zonza e constata: duas e treze da madrugada. Não acredita que ele ligou a essa  hora para falar aquilo.
- Como foi o enterro da sua mãe? – Fala a primeira coisa que lhe vem a cabeça sem levar em consideração o que o outro esta fazendo.
- O de sempre, muita choradeira, alguns desmaios etc... aquele cheiro insuportável das flores misturado com o odor do morto, muito calor... queria estar aí te comendo...             
- Do que mesmo ela morreu? – Diz ela querendo quebrar a situação.
- Alguma doença de velho, não lembro de ter perguntado...  que tesão porra... mas isso também não importa, o negocio é que morreu, acabou, cumpriu seu papel, sua missão... ai, tô quase gozando.
  Percebe a respiração dele mais descompassada, alta, mas não consegue imaginá-lo se masturbando. Passa a mão pelos cabelos, da testa para a nuca e fecha os olhos.
- Tá. Você volta quando?
   Fica aguardando a resposta. Queria voltar a dormir mas ele ainda esta se masturbando, gemendo.
- Quando você volta? - Tornou a perguntar dessa vez elevando um pouco a voz, a mão na testa, o cotovelo apoiado no joelho.
- Aaaaaaaah... gozei... que delicia.. nossa...
    Sente a alma invadida por uma grande tristeza. Aperta os olhos com força como se pudesse esmagar a lembrança  dos momentos com a outra. Seu corpo treme. Já não presta atenção ao que ele fala ao telefone, não era aquilo que queria ouvir. Agora tinha certeza de que não havia mais dúvidas sobre o que sentia por ele. Precisa chorar e antes que o faça despede-se:
- Ok, depois a gente se fala, preciso dormir, tchau.
    Ainda o escuta falar alguma coisa mas desliga o telefone, depois se abraça ao travesseiro e chora em silêncio sentindo a imagem da mulher não como uma lembrança mas dentro de si, bem fundo.
    Aos poucos se acalma. Precisa ir ao banheiro lavar o rosto, assoar o nariz. Ouve, apesar de morar no sexto andar, o barulho dos  carros que passam, algumas vozes, risos. Queria ter dito a ele que precisavam conversar, mas isso poderia deixá-lo preocupado e de certo, ia querer que ela falasse logo o que tinha a dizer. Não era um homem propenso a rodeios, a joguinhos de namorados em crise, mesmo porque não eram namorados ou estavam em crise. Nem mesmo sabia o que eram. Encontravam-se e transavam, só isso. Não moravam juntos e, tão pouco tinham bens em comum. Eram, a bem da verdade, duas pessoas distintas.
   Engole o resto de choro e caminha se apoiando na parede em direção ao banheiro, a barra da calça do pijama arrastando no chão.
   O que fazer agora, pensa, enquanto enxuga o rosto na toalha, depois se olha no espelho.
- Por que choro? Porque transei com uma mulher ou porque vou terminar uma relação que nem sei o que é  com um cara que já sei o que é?
   Não queria dizer a si que era lésbica. Não se via assim. Era uma mulher desencantada com seu homem e que transou com uma mulher quase sem querer. Entretanto, admitia no intimo que havia gostado daquilo. Foi algo forte, sólido, impressionante, avassalador. Porém, não queria ser lésbica.  Não saberia conviver com um rotulo.

   Ele continuou algum tempo segurando o telefone, a outra mão no pênis que murchava lentamente.
- Deve estar ficando mestruada – disse, enquanto olhava o esperma escorrendo entre os dedos.
- Porra – diz depois de algum tempo – Sou um assassino. Quantas crianças já matei com essas punhetas infantis? Porque faço isso com meu corpo?  Sinto a sensação de que esvaziei meu corpo mas a verdade é que joguei fora também minha alma. Tinha um filho aqui na minha mão.

  A água quente desce por sua nuca e ela lembra da língua da mulher passando por seu pescoço. Toca o ventre com o indicador e sobe querendo reproduzir a sensação de prazer que a outra deixou em seu corpo. Sua mente diz que tudo foi um equivoco, que precisa esquecer o que houve, entretanto, seu corpo se nega, seus sentidos querem reviver novamente toda a emoção que surgiu de dentro de si e a colocou em xeque. Aperta o seio com carinho, como se sua mão fosse a mesma mão da primeira mulher que a amou, que a jogou num mundo estranho. Luta para parar com as caricias mas é tarde. A água se torna mais quente como o corpo da outra encostando ao seu enquanto se beijavam. A língua passeia nos lábios buscando no ar uma boca que murmurava sons de um prazer que ela não conhecia nem imaginava sentir.

   Volta para o quarto e ainda molhada se joga na cama. De bruços, um pé quase para fora do colchão, os braços cruzados em xis por debaixo do corpo. Os olhos fitam a porta do guarda-roupas.
   “Sou uma mulher”, pensa ela. “Sempre fui e sempre serei. Não lembro de ter tido na vida nenhum impulso que me fizesse acreditar que não sou isso que sempre fui.  O que tive foi uma experiência sensorial com uma mulher e que em nada pode ou vai modificar minha situação sexual. Continuo gostando de homens com seus pênis maravilhosos,  enlouquecedores.”
    Por um minuto fecha os olhos e lembra do beijo, da língua entrando em sua boca, de sua língua na língua de uma mulher, do arrepio vindo da espinha lhe eriçando os pelos e seus braços enlaçando aquele corpo quente e vibrante.
    Não posso amar isso! Diz com força a si mesma mas num tom muito baixo como se a voz não quisesse sair da garganta.
   Continua a pensar em seus lábios beijando os seios dela e nas mãos que apertavam sua nuca, seus ombros. Sua vagina repete os mesmos movimentos involuntários e novamente o prazer daquele momento volta, forte, intenso, dominador.
   Não posso amar isso, não posso querer sentir isso com uma mulher, não posso desejá-la ou amá-la porque não nasci para isso. As palavras martelam seu pensamento mesmo contra sua vontade.
   Quase que instantaneamente seus dedos buscam o calor e a umidade que sua vagina produz, e contrariando o que sua mente quer, se toca como a outra a tocou. Os quadris se erguem um pouco e a mão se aloja, fazendo com que seus dedos escrevam em seu corpo o significado da palavra prazer. Diz o nome da mulher num sussurro abafado, a voz dividida entre um grito libertador e um gemido contido. Enlouquece sentindo a outra a tocar-lhe a pele com seu corpo suado, escorregadio, quente. Já a ama e sabe que não é mais possível omitir isso de si.
   Gira-se rápido, as pernas abertas para o ar, os dedos frenéticos penetrando-a, tocando quase em sua alma, fazendo-a descobrir um mundo fantástico e proibido, de prazer e dor.

   Após o longo gozo abraça-se ao travesseiro. Aperta-o entre seus seios como se fosse o corpo da outra e não querendo acreditar diz com um entristecido sorriso:
- Te amo, te amo, te amo.
   Fecha os olhos e pela primeira vez lembra de que nunca havia dito isso ao seu homem.




(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares e é continuação do conto ÍMÃ)

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