Acorda assustada com o telefone
tocando.
-
Alô...
-
Estou tocando uma punheta pensando em você.
Ouve
a voz ofegante do outro lado da linha e não a reconhece de imediato. Olha para
o relógio com a vista embaçada, meio zonza e constata: duas e treze da
madrugada. Não acredita que ele ligou a essa
hora para falar aquilo.
- Como foi o enterro da sua mãe? – Fala a primeira
coisa que lhe vem a cabeça sem levar em consideração o que o outro esta
fazendo.
- O de sempre, muita choradeira, alguns desmaios
etc... aquele cheiro insuportável das flores misturado com o odor do morto,
muito calor... queria estar aí te comendo...
- Do que mesmo ela morreu? – Diz ela querendo
quebrar a situação.
- Alguma doença de velho, não lembro de ter
perguntado... que tesão porra... mas
isso também não importa, o negocio é que morreu, acabou, cumpriu seu papel, sua
missão... ai, tô quase gozando.
Percebe
a respiração dele mais descompassada, alta, mas não consegue imaginá-lo se
masturbando. Passa a mão pelos cabelos, da testa para a nuca e fecha os olhos.
- Tá. Você volta quando?
Fica
aguardando a resposta. Queria voltar a dormir mas ele ainda esta se
masturbando, gemendo.
- Quando você volta? - Tornou a perguntar dessa vez
elevando um pouco a voz, a mão na testa, o cotovelo apoiado no joelho.
- Aaaaaaaah... gozei... que delicia.. nossa...
Sente
a alma invadida por uma grande tristeza. Aperta os olhos com força como se
pudesse esmagar a lembrança dos momentos
com a outra. Seu corpo treme. Já não presta atenção ao que ele fala ao
telefone, não era aquilo que queria ouvir. Agora tinha certeza de que não havia
mais dúvidas sobre o que sentia por ele. Precisa chorar e antes que o faça
despede-se:
- Ok, depois a gente se fala, preciso dormir,
tchau.
Ainda
o escuta falar alguma coisa mas desliga o telefone, depois se abraça ao
travesseiro e chora em silêncio sentindo a imagem da mulher não como uma
lembrança mas dentro de si, bem fundo.
Aos
poucos se acalma. Precisa ir ao banheiro lavar o rosto, assoar o nariz. Ouve,
apesar de morar no sexto andar, o barulho dos
carros que passam, algumas vozes, risos. Queria ter dito a ele que precisavam
conversar, mas isso poderia deixá-lo preocupado e de certo, ia querer que ela
falasse logo o que tinha a dizer. Não era um homem propenso a rodeios, a
joguinhos de namorados em crise, mesmo porque não eram namorados ou estavam em
crise. Nem mesmo sabia o que eram. Encontravam-se e transavam, só isso. Não
moravam juntos e, tão pouco tinham bens em comum. Eram, a bem da verdade, duas
pessoas distintas.
Engole
o resto de choro e caminha se apoiando na parede em direção ao banheiro, a
barra da calça do pijama arrastando no chão.
O
que fazer agora, pensa, enquanto enxuga o rosto na toalha, depois se olha no
espelho.
- Por que choro? Porque transei com uma mulher ou
porque vou terminar uma relação que nem sei o que é com um cara que já sei o que é?
Não
queria dizer a si que era lésbica. Não se via assim. Era uma mulher
desencantada com seu homem e que transou com uma mulher quase sem querer.
Entretanto, admitia no intimo que havia gostado daquilo. Foi algo forte,
sólido, impressionante, avassalador. Porém, não queria ser lésbica. Não saberia conviver com um rotulo.
Ele
continuou algum tempo segurando o telefone, a outra mão no pênis que murchava
lentamente.
- Deve estar ficando mestruada – disse, enquanto
olhava o esperma escorrendo entre os dedos.
- Porra – diz depois de algum tempo – Sou um
assassino. Quantas crianças já matei com essas punhetas infantis? Porque faço
isso com meu corpo? Sinto a sensação de
que esvaziei meu corpo mas a verdade é que joguei fora também minha alma. Tinha
um filho aqui na minha mão.
A
água quente desce por sua nuca e ela lembra da língua da mulher passando por
seu pescoço. Toca o ventre com o indicador e sobe querendo reproduzir a
sensação de prazer que a outra deixou em seu corpo. Sua mente diz que tudo foi
um equivoco, que precisa esquecer o que houve, entretanto, seu corpo se nega,
seus sentidos querem reviver novamente toda a emoção que surgiu de dentro de si
e a colocou em xeque. Aperta o seio com carinho, como se sua mão fosse a mesma
mão da primeira mulher que a amou, que a jogou num mundo estranho. Luta para
parar com as caricias mas é tarde. A água se torna mais quente como o corpo da
outra encostando ao seu enquanto se beijavam. A língua passeia nos lábios
buscando no ar uma boca que murmurava sons de um prazer que ela não conhecia
nem imaginava sentir.
Volta
para o quarto e ainda molhada se joga na cama. De bruços, um pé quase para fora
do colchão, os braços cruzados em xis por debaixo do corpo. Os olhos fitam a
porta do guarda-roupas.
“Sou
uma mulher”, pensa ela. “Sempre fui e sempre serei. Não lembro de ter tido na
vida nenhum impulso que me fizesse acreditar que não sou isso que sempre
fui. O que tive foi uma experiência
sensorial com uma mulher e que em nada pode ou vai modificar minha situação
sexual. Continuo gostando de homens com seus pênis maravilhosos, enlouquecedores.”
Por
um minuto fecha os olhos e lembra do beijo, da língua entrando em sua boca, de
sua língua na língua de uma mulher, do arrepio vindo da espinha lhe eriçando os
pelos e seus braços enlaçando aquele corpo quente e vibrante.
Não
posso amar isso! Diz com força a si mesma mas num tom muito baixo como se a voz
não quisesse sair da garganta.
Continua
a pensar em seus lábios beijando os seios dela e nas mãos que apertavam sua
nuca, seus ombros. Sua vagina repete os mesmos movimentos involuntários e
novamente o prazer daquele momento volta, forte, intenso, dominador.
Não
posso amar isso, não posso querer sentir isso com uma mulher, não posso
desejá-la ou amá-la porque não nasci para isso. As palavras martelam seu
pensamento mesmo contra sua vontade.
Quase
que instantaneamente seus dedos buscam o calor e a umidade que sua vagina
produz, e contrariando o que sua mente quer, se toca como a outra a tocou. Os
quadris se erguem um pouco e a mão se aloja, fazendo com que seus dedos
escrevam em seu corpo o significado da palavra prazer. Diz o nome da mulher num
sussurro abafado, a voz dividida entre um grito libertador e um gemido contido.
Enlouquece sentindo a outra a tocar-lhe a pele com seu corpo suado,
escorregadio, quente. Já a ama e sabe que não é mais possível omitir isso de
si.
Gira-se
rápido, as pernas abertas para o ar, os dedos frenéticos penetrando-a, tocando
quase em sua alma, fazendo-a descobrir um mundo fantástico e proibido, de
prazer e dor.
Após
o longo gozo abraça-se ao travesseiro. Aperta-o entre seus seios como se fosse
o corpo da outra e não querendo acreditar diz com um entristecido sorriso:
-
Te amo, te amo, te amo.
Fecha
os olhos e pela primeira vez lembra de que nunca havia dito isso ao seu homem.
(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares e é continuação do conto ÍMÃ)
(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares e é continuação do conto ÍMÃ)
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