Três ou quaro meses. Não sei. Não tem
mais importância quanto tempo se passou. Mas percebo que meu marido envelheceu
muito nesse tempo que não sei medir. Parece que algo o consome cada dia um
pouco mais. As vezes tenta fazer amor comigo e na maioria das vezes desiste
antes do fim. Não pergunto nada. Fingimos dormir. Fingir sempre pareceu fazer
parte de nosso mundo.
Pego o elevador e o ascensorista me diz
que o advogado esta lá mas não irá abrir a porta. Quer que pensem que saiu.
Ontem recebeu a visita de dois homens de aspecto ruim. Um deles tinha garras de
dragão tatuada em uma das mãos subindo-lhe pelo braço. O outro usava um terno
claro e apesar do perfume não cheirava bem. O advogado só saiu bem mais tarde,
quando o prédio estava praticamente vazio e tinha um corte no lado esquerdo do
rosto.
Subimos até o último andar e ele pegou
em um armário de madeira ao final do corredor uma sacola. Disse que antes que
levassem as coisas da morta ele pegou coisas que poderiam me interessar. A polícia
havia liberado o apartamento e o senhorio iria aluga-lo. Deixou-me sozinha no
corredor mal iluminado. Despejei o conteúdo da sacola no chão. Cartas antigas,
fotos antigas, uma caixa antiga com cadeado, uma lista com nomes, a maioria de
mulheres e ao lado deles datas e números, um caderno grosso, velho, amarelado,
chaves coloridas numeradas. Juntei tudo novamente na sacola e esperei o
elevador.
O cabineiro não me olhou quando entrei.
Nunca olhava, entretanto me via. Eles são assim. Podem dizer que não sabem de
nada, porem sabem sempre de tudo. Antes de chegarmos ao térreo ele me deu o
papel com o endereço do advogado. Retribui dando-lhe mais algumas notas. Antes
de sair pude ouvi-lo dizer de forma clara para que tomasse cuidado pois quando
não sabemos como é o terreno devemos ir devagar.
(fim da nona parte –
continua)
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