IMÃ (3ª parte)
Quando ela chegou, estranhou. Ele já estava lá, o que não deixava de ser inusitado uma vez que sempre chegava atrasado.
Tentou evitar o beijo dele demorando-se no abraço. Sentiu que ele aspirava o perfume em seu pescoço e aquilo pareceu incomodá-la. Separaram-se e ela rapidamente beijou-lhe o rosto. Sentaram-se e o garçom trouxe um drinque para ela. Esperou que o garçom se afastasse e tentando dissipar a sensação ruim que começou a sentir pelo comportamento dela perguntou:
- Ainda é o seu preferido não é?
Ela apenas rodou o copo sem olhá-lo diretamente. Não sabia exatamente como começar, mas sabia que não poderia fazer rodeios e deixar que ele procurasse saber o que estava havendo. Respondeu de forma intuitiva:
- Não sei. As coisas mudam. O que ontem parecia muito bom um tempo depois já não é tão bom assim.
Ele olhou para o lado, depois pegou seu copo e bebeu devagar.
- Parece que aconteceu alguma coisa durante a minha ausência.
- Muita coisa acontece até mesmo quando a pessoa esta presente, talvez a distância entre elas é que comprove o que já se sabe mas por comodismo não se fez questão de perceber.
Não o olhou mas sabia que ele a olhava.
- Você conheceu outra pessoa?
Ela demorou a responder.
- Sim. Conheci uma mulher que deveria ter conhecido a muito tempo.
Ergueu o olhar em direção a ele e falou procurando pôr na voz uma tranqüilidade que não existia naquele momento:
- Essa mulher sou eu. Essa é a mulher que sempre deveria ter existido no lugar da outra que você conheceu.
Ele mexeu no copo, ajeitou-se na cadeira.
- O que te fez mudar em relação a nós?
- A relação esvaziou. Simplesmente não tive necessidade de você durante a sua ausência e aí me olhei, me vi, me senti, me descobri. Aproximei-me de uma mulher que era outra pessoa, que me disse como agir, como ser realmente. Como aceitar sem medo o que quero da vida, das pessoas.
Ele olhou para as próprias mãos e ficou em silêncio. Ela continuou:
- Não teve nada a haver com você propriamente, mas sinto que acabou, que não existe mais aquilo do inicio, do reboliço que você fez na minha vida, mesmo porque essa vida era algo pequeno, sem vida mesmo. Era apenas a sua sombra que eu seguia. Quando você viajou tive que escolher, pensar, executar... o mundo voltou a acontecer e era eu que decidia o quê, quando, porque... com quem.
- Não imaginei que pudesse estar te oprimindo.
A expressão de seu rosto era de quem estava aturdido.
- Não oprimia, era eu que me anulava, que deixava uma coisa acontecer sem entender se era assim que eu queria que fosse. Estava vivendo sem precisar pensar, só isso.
- Parece que isso já estava acontecendo a algum tempo não é? A minha ausência é que fez com que tomasse a decisão.
Ela bebeu um pouco e o liquido desceu por sua garganta como se engolisse uma pedra.
- Confesso que sua ausência foi decisiva para que tudo acontecesse. Foi assim que percebi que não estava e não era feliz. Gostaria que entendesse o que estou dizendo.
Seu rosto se emoldurou com um sorriso sarcástico.
- Entender o quê exatamente? Quando uma relação como a nossa acaba não dá para entender. Tínhamos uma afinidade fantástica, um sexo maravilhoso...
- Será que era mesmo maravilhoso? Para quem?
Olharam-se e pela primeira vez o semblante dele demonstrou mais do que perplexidade.
- Só falta dizer que você fingiu esse tempo todo! Isso ia ser demais para mim!
Ela deu um suspiro e não pensou em voltar atrás.
- Olha, pode estar certo de que nesse ponto nunca fingi nada, mas caímos numa mesmice na cama que não me deixava ver que aquilo não me bastava mais. Era bom o suficiente para você, mas se fosse realmente maravilhoso eu teria sentido falta.
Depois de um longo tempo em que ambos permaneceram calados e imóveis, ele falou:
- Ok, se é isso que você decidiu, não posso forçá-la a continuar comigo.
O corpo dela relaxou. Esticou sua mão e tocou na nele.
- Sem magoas?
Olhou-a firme nos olhos por instantes. Era tarde para dizer-lhe que havia descoberto que a amava, que se sentia triste com a morte da mãe mesmo sabendo ter sido ela uma pessoa ruim, que o havia abandonado e aos irmãos menores para fugir com outro homem, que seria difícil viver sem o amor que ele acredita ter dela. Pediu apenas para ficar só.
Ela bebeu mais um pouco, depois levantou-se devagar. Olhou-o, mas ele mantinha a cabeça levemente inclinada para baixo e enquanto ela se afastava com passos leves ele ouvia o matraquear das pessoas a sua volta, vozes em conflito, sons em desarmonia, como se, também de uma hora para outra estivesse entrando no meio do caos, caindo por um abismo cujo fundo parecia não existir.
Deixa sobre a mesa o dinheiro e ergue-se ainda tonto, as pernas sem comando. Pega a motocicleta e sai devagar misturando-se aos carros, na procissão de luzes. E sem perceber ou sentir vai deixando escorrer por seu rosto, para o asfalto, as lágrimas guardadas desde que aprendeu a ser homem.
(Este conto faz parte do livro ‘O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO” de Ivo Linhares e é continuação do conto ÍMÃ)
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