quarta-feira, 29 de agosto de 2012

AMOR E MEDO (16ª parte)


Senti-me uma criminosa diante de tal pergunta.
      O advogado manteve os olhos fixos aos meus e sua expressão séria me lembrou da presa encurralada que sabendo que vai morrer pretende vender caro sua vida.
         Queria dizer que aquilo não era da conta dele, que não o pagava para saber dos meus desejos. Ao mesmo tempo desejei que ele rasgasse minhas roupas e com elas me amarrasse para depois abusar do meu corpo, da minha alma.
Entretanto, se isso acontecesse eu perderia todo meu poder sobre ele, a imagem que criei se desfaria trazendo de volta Midori Hirata, funcionária licenciada de uma multinacional japonesa, estressada, trinta e poucos anos, casada, sem filhos.
Recuperei meu folego e terminei de beber a água. Ele continuava esperando uma resposta. Entreguei-lhe o copo.
- A pergunta demonstra sua ingenuidade e falta de percepção. Não importa o que sua cliente é, importa sim o fato de querer que descubra o que pede. O que na sua concepção considera como anormalidade, doença, ou sei lá qual o nome que daria a tal comportamento, não pode ou deve influenciar no relacionamento com quem o contrata.
         Ele pegou o copo e desceu da mesa. Pensei que fosse se desculpar.
- Existe uma regra clara – disse ele – que o cliente não deve esconder nada de seu advogado. Baseio-me nesse principio para saber seu interesse em descobrir quem matou aquela mulher.
         Precisava agir com firmeza ou ele me dominaria.
- Contratei-o para investigar um assassinato e não para entender minhas preferencias sexuais. Além do mais o senhor já fez um julgamento da vitima considerando-a uma pervertida.
- Ao contrário. Ela era uma profissional.
         Pegou em uma das gavetas uma pasta e me entregou.
- Sayuri Kuroki. Foi analista de sistemas, divorciada, dois filhos, um menino de 14 e uma menina de 10.
         Folhei a pasta e vi fotos dela, dos filhos e de um homem e inclusive as do laudo da necropsia. Praticamente toda a vida dela estava naquele pequeno dossiê.
- Era uma mulher inteligente – concluiu – como pode ver. Portanto, o fato de ser lésbica ou outra coisa qualquer é meramente subjetivo eu meu julgamento, caso o tenha feito.
         Entreguei-lhe a pasta e esperei.
- Entretanto, descobrir quem a matou e porque depende de todas as pessoas que estavam envolvidas com ela. E isso inclui a senhora.

(Fim da 16ª parte – continua)

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