Desembainhou a katana. Olhou-a com atenção. Viu seus olhos
refletidos na lamina. Passou a espada por sobre o ombro encostando-a nas costas
nuas sentindo o aço frio queimando seu corpo. Midori Hirata. A ponta da lamina
tocando-lhe as nádegas. Ergueu o braço fazendo com que a ponta afiada
percorresse a sua espinha. Midori Hirata. Não era mais ela. Havia outra pessoa.
Enquanto subíamos ao andar do advogado o ascensorista contou-me
que no dia da morte da mulher três pessoas haviam subido com ele em diferentes horários para supostamente visita-la. Descreveu-as: A primeira aparentava
dezoito anos, era agitada, mascava uma goma e fazia imensas bolas que lhe
explodiam no rosto. Vinha com relativa frequência e carregada livros e cadernos.
A segunda poderia ter uns trinta e carregava uma sacola com frutas frescas. Demorava
menos do que as outras. Saia sem as frutas. Mas a terceira era um pouco curvada, um metro e
setenta, um lenço cobria-lhe a cabeça e boa parte do rosto. Uma nesga de cabelo
claro, como uma vírgula, saía pelo lenço ficando no meio da testa. Apoiava-se
em uma bengala, entretanto parecia não precisar de apoio para andar. Veio
somente naquele dia.
O advogado fica surpreso vendo-me entrar enquanto fala ao
telefone. Ergue-se num impulso e tenta cortar a ligação. Noto que ficou ainda
mais nervoso. Paro próxima a porta logo depois que entro. Tenho vontade de
abrir meu sobretudo mostrando-lhe meu espartilho vinho e ver sua cara de tarado
pervertido. Faria com que ficasse nu e o pisaria com minha bota vinho. Usaria seu
próprio cinto como chicote. Engulo a saliva que se formou em minha boca com
satisfação.
Pede desculpas pela demora indicando a cadeira para que me
sente. Pergunto secamente se tem novidades sobre o caso e mais uma vez pede
desculpas por ainda não ter conseguido muita coisa, mas que esta se empenhando.
Falo sobre as três mulheres descritas pelo cabineiro do elevador e ele fica atônito,
quer saber como consegui a informação. Limpa o suor do rosto com um lenço encardido.
Falo gesticulando devagar com a mão do anel. O homem passa a limpar com mais frequência
o suor do rosto, do pescoço, da testa. Recomendo que se empenhe mais. Faço-o
ver por meus olhos que as pessoas para as quais trabalho tem pressa. Ele
confirma sobre as três mulheres, mas ainda não as conseguiu localizar.
Acrescenta que tem um amigo na policia que vai fornecer cópia das fichas dos
clientes da dominatrix. Fecho o olhar sobre ele com relativo ódio. Quero
dizer-lhe que a mulher não era uma dominatrix, porém, contento-me em criar em
minha mente uma imagem dele com os olhos vendados e pendurado pelos pulsos
sendo açoitado por mim.
Sem jeito, ele fala com voz baixa que precisa de dinheiro
para pagar seu amigo na policia e conseguir as cópias das fichas. Delicadamente
abro os dois primeiros botões do sobretudo deixando a amostra parte do
espartilho de onde retiro um pequeno maço com algumas notas. Estendo-lhe o
dinheiro com a mão do anel. Mesmo com sua cabeça curvada para o chão percebo que olha
rápido para meus seios e pisca nervosamente antes de pegar as notas.
Saio da sala ouvindo-o se desculpar e dizendo que da próxima vez
terá novidades. O corredor é mal iluminado, o piso esta sujo, as paredes tem
marcas de mãos. O elevador chega e entro devagar. Curvo-me para falar com o ascensorista
que ele esta fazendo um bom trabalho, deixando que veja meu espartilho. Dou-lhe
mais uma nota.
O homem abre a mão e mostra uma chave perguntando se quero ir
ao décimo sexto andar.
Não acendo a luz. Deixo que minha vista se acomode a
escuridão do aposento. Avanço tateando as paredes, sentindo sua aspereza.
Recordações me tomam o corpo onde as memórias da mulher que amei com um desespero
que não era meu estão fortemente gravadas. Caminho e sinto vontade de tirar o
sobretudo que deixo caído ao chão empoeirado. Na pequena sala distingo a mancha
de sangue sobre o tapete que queria ser um persa. Deito-me sobre a mancha com
meu espartilho vinho.
Masturbo-me.
(fim
da oitava parte – continua)
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