sexta-feira, 24 de agosto de 2012

AMOR E MEDO (14ª parte)


                  Pensei em Tomiko. Eu a desejava. Por mais que pensasse em não querer estar com ela era impossível apagar essa vontade. Tudo que me disse volta e meia voltava a minha cabeça como um rodamoinho sugando tudo ao redor. Até então não havia me dado conta que era lésbica. Possivelmente porque nunca amei de fato uma mulher. Amei a outra com um desespero que não era meu. Amei na verdade o desespero de amar um objeto que não posso ter e só existe dentro da minha imaginação. Mas Tomiko era real. Existia além de mim e da possibilidade de tê-la.  Não poderia ser lésbica porque tinha um comportamento doméstico, uma atuação social, um meio profissional para julgar-me, definir como ser. Um padrão, um modelo. Tinha consciência de que não saberia quem era devido a minha vida estar sendo regulada pela razão dos que me cercavam. A minha função biológica era ser somente mulher.
                   Então, um dia tive um colapso nervoso. Meu organismo se deu conta de que vivia além do que poderia suportar e resolveu agir por mim. Foi quando conheci aquela mulher que amei com um desespero que não era meu e aceitei minha dor. A dor que me diz quem sou e o que quero fazer com meu corpo, que afinal, passou a ser exclusivamente meu.

(Fim da 14ª parte – continua)
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