Pensei em Tomiko. Eu a desejava. Por
mais que pensasse em não querer estar com ela era impossível apagar essa
vontade. Tudo que me disse volta e meia voltava a minha cabeça como um
rodamoinho sugando tudo ao redor. Até então não havia me dado conta que era
lésbica. Possivelmente porque nunca amei de fato uma mulher. Amei a outra com
um desespero que não era meu. Amei na verdade o desespero de amar um objeto que
não posso ter e só existe dentro da minha imaginação. Mas Tomiko era real.
Existia além de mim e da possibilidade de tê-la. Não poderia ser lésbica porque tinha um
comportamento doméstico, uma atuação social, um meio profissional para
julgar-me, definir como ser. Um padrão, um modelo. Tinha consciência
de que não saberia quem era devido a minha vida estar sendo regulada pela razão
dos que me cercavam. A minha função biológica era ser somente mulher.
Então,
um dia tive um colapso nervoso. Meu organismo se deu conta de que vivia além do
que poderia suportar e resolveu agir por mim. Foi quando conheci aquela mulher
que amei com um desespero que não era meu e aceitei minha dor. A dor que me diz
quem sou e o que quero fazer com meu corpo, que afinal, passou a ser
exclusivamente meu.
(Fim da 14ª parte – continua)
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