Amei aquela mulher com um desespero que não era meu.
Queria não ter amado. Queria não ter aprendido a querer. Queria que fosse apenas ilusão que criei e dei nome, sentimento. Queria não entender aquilo que posso compreender como dor e olhar a lua cheia sem vontade de uivar como um velho e triste lobo. Queria não sentir saudade, apenas raiva. Bastaria apenas uma pitada de ódio para então me sentir humana e voltar ao mundo verdadeiro do qual nunca devia ter saído.
O corpo se esticou. Sua cabeça se contorceu, o nariz descendo por meu rosto, sua boca procurando a minha boca. Apertei os olhos o mais que pude porque assim poderia mergulhar naquela escuridão que não via, mergulhando em nada, na infrutífera tentativa de esconder-me de mim mesma. Deixei que ele me beijasse e mesmo sentindo repulsa ao sentir sua língua invadindo minha boca procurei retribuir. Seria a maneira mais rápida daquilo acabar. Ao menos naquela noite.
Ele continua jogado ao lado, respirando fraco, dormindo profundamente depois do gozo. Saio devagar da cama e pego no chão a camisola que escorregou enquanto ele me possuía. Penso em ir ao banheiro me lavar, tirar do meu corpo o gosto de uma coisa que me incomoda, um cheiro que me dá ânsias de vomito. Não posso. Não devo. Já é tarde para voltar atrás em minhas escolhas, já é tarde para fingir que sou feliz, que não vivo uma farsa, em um pesadelo. Sei que sou forte para viver para sempre esse casamento hipócrita, não como um castigo que me imponho, mas porque não terei capacidade de viver a outra vida que deveria ter vivido.
Deito no chão da sala. Passo minhas mãos pelo tapete para secar o suor. Queria tocar em seus cabelos. Estávamos tão próximas que sentia o aroma do shampoo entrando pelo meu nariz como um perfume embriagador. Queria tocar com a ponta dos dedos em seus cabelos molhados e me arrepiar. Ela falava mas não lembro o que dizia. Queria só sentir seus cabelos molhados caindo por sobre meus ombros, se nos abraçássemos. Queria ter podido pedir-lhe um abraço. Ter seu corpo encostado ao meu. Sentir o calor do seu peito no meu peito, os corações batendo. Fechar os olhos e aspirar o cheiro de seu cabelo como se estivesse num jardim encantado, rodeado por cerejeiras.
Volto para a cama de madrugada e ele ainda esta na mesma posição. Deito devagar e me encolho, as pernas quase tocando meu queixo. O quarto parece estar impregnado com um odor estranho. Porra e muco. Suor e lagrimas. Preciso dormir. Sonhar com aquela mulher que amei com um desespero que não era meu. Mas era. Talvez não desespero. Talvez só ansiedade. Talvez só fantasia. Talvez só um pouco de loucura.
Acordo com o sol sobre a cama, em minhas pernas. Abro os olhos. Sim sou eu. Midori Hirata. Trinta e poucos anos. Funcionaria licenciada de uma multinacional japonesa. Diagnostico: estresse.
Me olho no espelho do banheiro e quero rir. Sou eu. Midori Hirata.
Sou eu mesma? Midori Hirata? Quem é você?
Me olho. Um rosto sem expressão. Sem a expressão daquilo que senti quando amei aquela mulher com um desespero que não era meu. Então de quem era?
Meu ventre encosta no mármore frio e fico arrepiada. É quase a lembrança de um tesão. Abro a bica e deixo a água espirrar sobre meu corpo. É quase um tesão. Não devia ter amado aquela mulher.
Dou um violento tapa em meu próprio rosto. É quase um tesão. Preciso daquela mulher.
Paro o carro em frente ao prédio de aspecto duvidoso, de muitos andares, de muitas pessoas que entram e saem. Pessoas mal vestidas, mal encaradas, carregando coisas, descarregando coisas.
Subo ao décimo sexto andar naquele elevador que se arrasta, vendo pelas grades da porta pantográfica as paredes encardidas, manchadas, sujas. As sete outras pessoas não se olham. Finge m que não se olham. Os cheiros de seus corpos velhos, baratos, pobres contaminam o meu tão limpo e sadio, perfumado. Midori Hirata. Trinta e poucos anos. Funcionaria estressada de uma multinacional japonesa.
Em frente ao numero mil seiscentos e seis. Olho para a campainha. Um botão escuro, meio ocre, meio amarelo amarronzado, como um mamilo bem feito, mas sem despertar nenhum desejo. Meu indicador o toca de leve, rodeia-o e finalmente o empurra para dentro.
Ela abre a porta. Fingi que sorri ao me ver. Eu sei. Parece um sorriso sincero. Provavelmente debochado. Quase irônico. Irritante. Também é bonito. Aos poucos ele se abre e seus dentes surgem como dentes de um dragão que pretende me engolir. Ela abre a porta e com um gesto de cabeça me convida para entrar.
Dou alguns passos e nem ouço a porta se fechar. Sinto sua mão pegar meu braço e torcê-lo com força para trás e para cima enquanto me empurra de encontro a parede. Seu corpo pressiona o meu contra a parede, espreme com a outra mão meu rosto na parede áspera. Ela morde meu pescoço. Rosna e me xinga de filha da puta, de piranha, de vagabunda.
Fecho os olhos. Não devia amar essa mulher com um desespero que não é meu. Midori Hirata. Estressada. Funcionaria de uma multinacional japonesa.
Arranca-me da parede e me arremessa de encontro aos moveis. Caio, a bolsa ao chão se abrindo e expondo meus pertences.
Beija minha boca e da tapas em meu rosto que arde. Me beija com violência. Puxa meus cabelos lisos para trás me obrigando a deitar no chão. Me imobiliza e me vira. Novamente o rosto sendo esfregado, dessa vez no chão sujo, num tapete que pretendia ser imitação de um persa. Sinto o clique da algema fria em meus pulsos, dessa vez mais apertada.
Puxa meus cabelos lisos erguendo minha cabeça e me beija com mais força. Meu corpo treme. Midori Hirata.
Não devia amar essa mulher com esse desespero que não é meu.
(Fim da primeira parte – continua)
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