quarta-feira, 16 de abril de 2014

Habilmente a defesa demonstrou que a vítima induziu o réu pelo comportamento lascivo e trajes sumários que estava disponível para o sexo quando aceitou ir ao seu apartamento.  Mesmo havendo, conforme os laudos indicavam marcas corporais provocadas possivelmente por uso de força excessiva, não ficou caracterizado o estupro. Era a palavra da vitima contra a do réu. 
Dessa vez a humilhação fora maior e diante do julgamento pífio em que o agressor se transformava em vitima “de uma mulher desesperada por sexo” na descrição do advogado de defesa, coube-lhe apenas o suicídio como ultima alternativa de recuperar a paz.
Deixou aos pais uma carta em que pedia perdão pelo ato, porém, era incapaz de conseguir conviver com tamanha humilhação.
No dia seguinte após o enterro a família recebe uma breve ligação cuja voz feminina diz: “onde a justiça falha a vingança prevalece. Não se preocupem o castigo dele esta a caminho. Fiquem em paz.”
Em menos de uma semana o corpo do rapaz fora encontrado enforcado num beco com um bilhete no bolso que dizia: “onde a justiça falha a vingança prevalece”.

“Esse foi o primeiro caso, em 2010”.  Diz a delegada Nakamura entregando a pasta a Androide.
“Lembro-me do caso. O pai da vitima tentou culpar os pais da garota, entretanto nada foi provado”. Acrescenta Androide.  
“Em 2011, outro caso semelhante e com o mesmo bilhete, só que dessa vez a vitima foi envenenada.” Continua Nakamura. “No mesmo ano mais um acusado de estupro é encontrado envenenado com o “cartão de visita” no bolso”.
“Um serial killer com função social”, Insinua Carol.
“Um assassino, nada mais do que um assassino como outro qualquer”, retruca Nakamura.   
“Não aparenta ser obra de um assassino qualquer. Ele é motivado por vingança. Possivelmente sofreu abuso quando criança.” Explica Androide.
“A única diferença entre os casos é que somente o primeiro foi enforcado e os outros envenenados. Pode não ser a mesma pessoa.” Conclui Nakamura.
“E agora esses outros dois inocentes”, finaliza Carol com ironia, “igualmente envenenados cada um com seu cartãozinho no bolso”.
“A diferença é que esses tem pedigree” Arremata Androide.
“Filhinhos de gente graúda”, conclui Carol.
“Não é nossa função selecionar os crimes que iremos investigar em função da posição social da vitima, crime é crime e nosso dever é investigar e se possível solucionar o caso”. Retruca Nakamura pondo na voz a dureza habitual. “O caso é de vocês.”

“Crime é crime” fala Carol com desdém  assim que sai da sala de Nakamura, “estupro é crime e esses caras saíram livres, só porque agora dois filhinhos de poderosos foram pro beleléu é que precisamos achar os culpados. Faça-me o favor.”
“Não reclame Carol, façamos nosso serviço e deixemos a lei cuidar do resto.”
Carol olha Androide de soslaio pondo no rosto sapeca um quê de ironia.
 “A lei pode ser falha, injusta aos olhos de quem foi vitimado, mas é a lei e disso não podemos nos esquecer”.  Finaliza ele indo em direção a sua mesa.

(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
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