Habilmente a defesa demonstrou
que a vítima induziu o réu pelo comportamento lascivo e trajes sumários que
estava disponível para o sexo quando aceitou ir ao seu apartamento. Mesmo havendo, conforme os laudos indicavam marcas
corporais provocadas possivelmente por uso de força excessiva, não ficou
caracterizado o estupro. Era a palavra da vitima contra a do réu.
Dessa vez a humilhação fora maior
e diante do julgamento pífio em que o agressor se transformava em vitima “de
uma mulher desesperada por sexo” na descrição do advogado de defesa, coube-lhe
apenas o suicídio como ultima alternativa de recuperar a paz.
Deixou aos pais uma carta em que
pedia perdão pelo ato, porém, era incapaz de conseguir conviver com tamanha
humilhação.
No dia seguinte após o enterro a família
recebe uma breve ligação cuja voz feminina diz: “onde a justiça falha a
vingança prevalece. Não se preocupem o castigo dele esta a caminho. Fiquem em
paz.”
Em menos de uma semana o corpo do
rapaz fora encontrado enforcado num beco com um bilhete no bolso que dizia: “onde
a justiça falha a vingança prevalece”.
“Esse foi o primeiro caso, em
2010”. Diz a delegada Nakamura
entregando a pasta a Androide.
“Lembro-me do caso. O pai da
vitima tentou culpar os pais da garota, entretanto nada foi provado”.
Acrescenta Androide.
“Em 2011, outro caso semelhante e
com o mesmo bilhete, só que dessa vez a vitima foi envenenada.” Continua
Nakamura. “No mesmo ano mais um acusado de estupro é encontrado envenenado com o
“cartão de visita” no bolso”.
“Um serial killer com função
social”, Insinua Carol.
“Um assassino, nada mais do que
um assassino como outro qualquer”, retruca Nakamura.
“Não aparenta ser obra de um
assassino qualquer. Ele é motivado por vingança. Possivelmente sofreu abuso
quando criança.” Explica Androide.
“A única diferença entre os casos
é que somente o primeiro foi enforcado e os outros envenenados. Pode não ser a
mesma pessoa.” Conclui Nakamura.
“E agora esses outros dois
inocentes”, finaliza Carol com ironia, “igualmente envenenados cada um com seu
cartãozinho no bolso”.
“A diferença é que esses tem
pedigree” Arremata Androide.
“Filhinhos de gente graúda”,
conclui Carol.
“Não é nossa função selecionar os
crimes que iremos investigar em função da posição social da vitima, crime é
crime e nosso dever é investigar e se possível solucionar o caso”. Retruca
Nakamura pondo na voz a dureza habitual. “O caso é de vocês.”
“Crime é crime” fala Carol com
desdém assim que sai da sala de
Nakamura, “estupro é crime e esses caras saíram livres, só porque agora dois filhinhos
de poderosos foram pro beleléu é que precisamos achar os culpados. Faça-me o
favor.”
“Não reclame Carol, façamos nosso
serviço e deixemos a lei cuidar do resto.”
Carol olha Androide de soslaio
pondo no rosto sapeca um quê de ironia.
“A lei pode ser falha, injusta aos olhos de
quem foi vitimado, mas é a lei e disso não podemos nos esquecer”. Finaliza ele indo em direção a sua mesa.
(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
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