segunda-feira, 14 de abril de 2014

O SEGREDO DA FEMINISTA

O segredo da feminista

Havia perdido a virgindade ainda jovem quando tomou seu único porre com um rapaz, um aventureiro, que a seduziu como se fosse um príncipe encantado para depois evaporar como um gênio da lâmpada.
Depois que perdeu a virgindade passou a proteger seu desejo, inclusive de si mesma. Usava uma escova para lavar-se evitando assim sentir a própria mão em seu corpo.
Tornara-se uma feminista diabólica, dessas que lutam encarniçadamente pela igualdade entre os sexos, disposta a dar a vida pela causa. Entretanto, mantinha adormecida  a vontade de se entregar novamente a um homem, qualquer homem que produzisse outra vez todas as sensações que seu corpo escondia nas profundezas de sua alma juvenil. Por precaução nunca mais botou na boca nada que tivesse álcool.
Para fugir dos comentários maldosos mentia dizendo que mantinha um caso duradouro com uma pessoa casada. E isto bastava para ser feliz. Diziam, pelos corredores da repartição onde trabalhava,  que na verdade era lésbica não assumida.
Numa das férias em que foi para os Estados Unidos, acabou, acidentalmente indo parar numa grande loja de artigos de sexo. Foi ali que conheceu Robespierre.
Ele estava de pé, próximo a porta de entrada. Alto, garboso, os cabelos descendo-lhe pela testa, sedutor. O olhar lânguido, a boca carnuda de lábios entreabertos mostrando-se disposto a saciar qualquer desejo com beijos longos. E nu. Totalmente nu, expondo inacreditáveis vinte centímetros de uma pica roliça e dura.
Estancou na porta com o coração disparado. Quase perdeu o folego diante daquela visão.
O vendedor sorriu e para minimizar seu embaraço tomando-a pelo braço a aproximou de  Robespierre.  Foi amor a primeira vista. E apesar de ser francês falava além do inglês, chinês, russo e espanhol.
Retornou ao país só (Robespierre viria um mês depois). Enquanto isso continuou lutando por aquilo que a movia: igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mas agora havia Robespierre. O motivo que a fazia ter estampado no rosto um sorriso estranho, a fazê-la  voltar rápido para casa.
 Por seu desempenho profissional chegou a ser cogitada para assumir uma secretaria ligada aos direitos humanos. Mas não tinha padrinho politico. Tinha apenas Robespierre.
E ele estava sempre em sua cama com os vinte centímetros apontando para o alto esperando que ela o usasse. Que gozasse quantas vezes pudesse.
Na semana em que faria quarenta anos sem que houvesse necessidade sua vida começou a ser narrada antes que acordasse por Robespierre,  como um filme escrito por Felini, roteirizado por David Lynch e dirigido por Woody Allen.
Toda manhã Robespierre falava repetindo quase de forma obsessiva sempre a mesma história, quando ela nasceu, da infância, da adolescência até o momento em que, bêbada, havia feito amor com canalha que a desvirginou. Depois faziam amor e secretamente ela se lembrava de sua primeira vez.
E foi assim que o relógio biológico, enfim, foi acionando o despertador e o corpo, antes tão calado de tesão agora reclamava a falta de um dos ciclos da vida feminina.
Não lhe passou pela cabeça que um dia poderia sentir essa necessidade uma vez que excluíra qualquer possibilidade de relacionamento com homens que não fosse de forma profissional.
A ideia de engravidar cresceu em sua cabeça, depois em seu corpo.
Primeiro foram os enjoos, depois as vertigens.
Foi ao médico, fez exames e para seu espanto constatou que estava grávida de quatro meses.
Não acreditou. Sentia-se uma quase virgem apesar de Robespierre a possuir todas as noites.
Não podia ser um milagre. Não acreditava em milagres, em virgens santas, ou qualquer explicação divina para o fenômeno que lhe crescia no ventre.
Estava assustada e se sentindo louca, com toda certeza estava ficando louca. Pensou em voltar ao médico e pedir novo exame. Porém, como poderia estar gravida se tivera apenas uma e somente uma vez com um homem de verdade  e isso já fazia bastante tempo e que agora transava com um boneco que comprara numa viagem ao exterior.
Voltou para casa transtornada.
A mão tremula mal conseguia enfiar a chave na porta. Entrou e foi direto ao quarto.
 Robespierre estava lá, deitado com o pau esticado para o alto. Parecia sorrir, como se já soubesse da noticia.


(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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