segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TEIA

Escolhera o celibato. Por influência da família preferiu o silencio e a companhia inexistente de freiras que, como fantasmas, perambulavam silenciosas, taciturnas naquele convento que mais se parecia com um castelo assombrado e isolado do mundo. Frequentemente se lembrava dos filmes de Bela Lugosi como o vampiro Drácula sempre que via passar um morcego.
Era uma mulher de vinte e quatro anos. Os cabelos negros escondidos sobe o pesado véu não lhe tirava a beleza que resplandecia em seus olhos igualmente negros e brilhantes. O hábito, devidamente engomado não permitia distinguir-lhe as curvas precisas, generosas, quase um pecado imaginar que o próprio Deus as havia esculpido e num ato de ciúmes quis esconde-las dos olhares famintos, da fúria predadora dos homens. Somente as irmãs do convento  poderiam compartilhar sua acintosa beleza e se redimir, em penitência, aos pés das imagens santas rezando seus milhares de pai-nosso e centenas de ave-marias tentando expurgar do corpo e do espírito os lascivos pensamentos.
Embora escondesse de si própria tais qualidades físicas sabia perfeitamente que os olhares que recebia quando cruzava com outras freiras estavam carregados dos sentimentos que procurou evitar no mundo exterior.
Quase sempre ao fim da tarde gostava de rezar diante de uma imagem de Santa Inês, a protetora das virgens, que ficava numa pequena capela rodeada por um belo jardim. Naquele momento o sol entrava por um dos vitrais e projetava sobre a imagem uma espécie de arco-íris cuja visão lhe fazia bem ao espírito.
Numa dessas tardes ao invés de rezar ajoelhada diante da imagem postou-se perfilada próxima a ela e contemplou o reflexo das luzes. Sentiu um incontrolável  desejo de toca-la, de deslizar seus dedos castos no manto sacro e receber em seu corpo a paz que já não sentia ultimamente.  Notou então que entre a imagem e a parede havia uma extensa teia cuja malha também banhada pelas cores do vitral aprisionara uma asquerosa mosca negra e que em sua direção descia uma pequena aranha.
Seu primeiro impulso, apesar da repugnância, pensou em libertar a malfadada mosca de seu destino, porém, ao salvar um mataria o outro. Era necessário que o curso da vida seguisse com todas as suas consequências.
A medida que a aranha se aproximava  a mosca se debatia ficando irremediavelmente presa a teia. Subitamente ela sentiu seu coração acelerar. Era como se sentisse a vontade da aranha em devorar sua presa, de saciar sua fome, de sobreviver.  Um suor frio tomou-lhe de assalto o corpo moreno. O véu apertava-lhe a testa como uma coroa de espinhos e num gesto involuntário o arrancou da cabeça tentando secar do rosto o suor gelado.
A aranha, com desenvoltura envolvia a mosca retirando-lhe assim qualquer possibilidade de defesa. A freira, incapaz de compreender o que se passa dentro dela, olhava o inseto na eminencia de ser devorado e em delírio, via nos olhos dele o pavor da morte.
E sentindo crescer em sua vagina algo desconhecido e assustador, rasgou seu hábito e desesperada saiu nua da capela correndo pelo jardim enquanto o sol do fim da tarde lhe tocava o corpo.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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2 comentários:

  1. Simplesmente perfeito, mas uma vez tive a sensação de estar vivendo o momento descrição, seus contos conseguem me prender. Parabéns

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  2. Obrigado, fico feliz que tenha gostado!
    grande abraço

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