quarta-feira, 18 de julho de 2012



IMÃ

         Sempre gostei de homens. Do cheiro, dos pelos, do modo desajeitado  como nos pegam. Mesmo sendo insensíveis e machistas sempre fui dependente do pênis. Minha vida sexual com Luiz nunca foi monótona porque desde o inicio do nosso relacionamento me apaixonei por aquela pica e o modo como ele me comia. Luiz era diferente de todos com quem fui para a cama. Era um cara que falava sobre o porque da vida, sobre a natureza das relações entre as pessoas e não necessariamente sobre o amor. Uma vez gastou um tempo enorme falando sobre ódio, guerras e morte. Depois trepamos alucinadamente e no dia seguinte para levantar e ir trabalhar foi uma barra.  O que existia entre nós era um amor estranho, nada convencional e como não morávamos juntos ficávamos dias sem nos falar ou ver e nem por isso tínhamos necessidade de estar com outra pessoa. Não havia necessariamente amor de nossa parte, mas uma atração magnética, algo carnal, necessário, como ele mesmo classificou certa vez, a única na verdade, que tentamos entender o que sentíamos ou éramos um para o outro.
        Conheci Luiz numa festa onde praticamente éramos os únicos caretas e ainda por cima e por coincidência tomávamos cuba libre. Tudo começou assim, ele veio sem a menor cerimônia e começou a falar sobre Cuba, Fidel,  a Revolução e culminou com uma longa explanação sobre Che Guevara. Mesmo com minhas respostas monossilábicas e balançar de cabeça, ora positiva ora negativamente ficou ali falando por quase umas duas horas. Depois me perguntou se eu estava a fim de dormir na casa dele. Fomos de moto e ele me obrigou a usar o capacete.
        Fiquei quase uma semana morando lá. Depois do trabalho ia me encontrar com ele em qualquer lugar e saímos sem saber bem para onde ir. Não sabíamos nada um do outro, nunca perguntamos sobre o passado, sobre o presente e muito menos sobre o futuro. A relação acontecia, andava, crescia. O sexo era fantástico porque não estava baseado naquelas questões de amor, ciúme, posse e propriedade. Naquela primeira noite e nos outros encontros o que mais me marcou foi ele não ter deixado eu chupar seu pau.  Pediu que só olhasse e compreendesse o que era seu pênis. Era um pau normal. Achei estranho porque afirmou categoricamente que ele não era seu pênis e vice-versa e que havia respeito e compreensão entre eles. Isso despertou em mim uma vontade de ter aquele pau em minha boca de uma forma que nunca havia sentido e  me fez ver que aquele pênis tinha uma vida própria. Ah! Como ficava imaginando estar com ele em minha boca, engolindo, soltando, mordendo, lambendo, sentindo seu cheiro, seu gosto, sua testura, sua grossura.        
        Essa questão do pau sempre existiu em mim. Freud podia ter razão quanto as questões que envolviam o pênis enquanto objeto não só de um poder fálico-mitologico capaz de dominar e impulsionar o homem a conquistas, mas eu o percebia como um instrumento de descoberta interior se o dono o soubesse explorar como Luiz o explorava.  Nosso gozo era repleto de questões existenciais que explodiam como pipocas na panela. Havia um porque de existirmos para compreender o que vinha depois do gozo. Era absurdamente incrível falar sobre o que sentíamos ou percebíamos depois disso. Não sobre sexo ou prazer, mas de tudo que já tínhamos vivido até ali, isso incluía de lembranças da infância até o palavrão falado em qualquer momento. É claro que fora do sexo nossas conversas eram para lá de complexas, porém sem nenhum conteúdo filosófico. Dificilmente citávamos pensadores ilustres, grandes escritores ou qualquer pessoa notável. Nossos exemplos englobavam pessoas próximas como amigos, que eram poucos, ou porteiros, atendentes de lanchonetes, vendedores de lojas, lixeiros, enfim, pessoas comuns, como nós. Desse modo ficávamos impedidos de teorizar a vida ou compor arranjos  para justificar se tínhamos razão ou não. Entendíamos que  pensamento e sentimento estavam associados de tal forma que um movimentava o outro a todo momento. Também sabíamos que isso era um jogo perigoso porque cada pensamento despertava um sentimento e que por trás desse sentimento poderia estar escondido um complexo ou algo parecido. Mas não tínhamos a preocupação de nos controlar ou esconder o que pensávamos, apenas procurávamos ignorar que aquilo estivesse alimentando nossa relação.
        Vivemos por muito tempo dessa forma e não nos demos conta disso até que um dia aconteceu uma coisa comigo. Foi uma coisa tão sem importância que demorei a compreender o que se passava.
        Tinha decidido que naquela semana não trabalharia, mesmo porque Luiz teve que viajar para ficar com a mãe que estava a beira da morte, e eu queria me sentir só, cumprindo uma rotina, que na verdade sabia já existir até mesmo dentro da nossa relação. E era tão horrível dizer “nossa relação” que isso me  incomodava porque parecia uma coisa gasta, bolorenta e fedida.
        Mais ou menos no meio da semana acordei cedo e fiquei parada olhando pela janela o dia que nascia. “Meu deus”, pensei, “todo dia isso acontece e repetimos sempre esse ritual sem perceber o que realmente fazem conosco.” Estava sem roupa e o vento fresco me tocava como uma mão aveludada, mas tinha a sensação de que eram unhas entrando em mim. No prédio em frente um senhor apareceu na janela e depois de percorrer com a cabeça as duas extremidades da rua olhou em minha direção como se só existíssemos nós dois no mundo naquele momento. Continuei parada olhando-o e depois de algum tempo ele entrou. Parecia ter me ignorado. Olhei meu corpo nu e toquei meu ventre. Havia um vazio, uma ausência. Meu corpo parecia não estar mais aberto ao meu toque como se esse tempo todo tivesse projetado o meu prazer no corpo de Luiz. Passei a mão na parte interna de minhas coxas e elas estavam frias, insensíveis. Olhei minhas mãos e elas nada me disseram.

        Chequei na praia antes das oito. Fiquei de pé olhando o mar. Estava só de biquíni. Deixei tudo no carro. Sentei próximo ao mar que estava calmo. Por que? Porque  as ondas não tinham força e apenas murmuravam uma coisa que mesmo de olhos fechados eu conseguia ouvir e entender, porém fingia que nada estava sendo dito? E como era possível entender as ondas e não conhecer o que pensava ou sentia naquele dia, naquela semana? Mas ai aconteceu. Senti um toque no ombro e uma voz me chamando. Abri os olhos e ela sorriu. Também sorri, depois, tímida. Me lembrava dela de algum lugar mas não sabia quem era. Ela compreendeu e me lembrou de onde.
- Ah sim – disse eu meio aparvalhada – Claro, estudamos juntas sim!
        Virei-me para cumprimentá-la e foi aí que tudo se deu. Nossos corpos se enlaçaram e ela me apertou com força. Senti sua boca na minha face e a respiração festiva em meu ouvido. Seus seios tocavam os meus e pude perceber um coração batendo em desespero. Podia ser o meu, mas não era. Parcialmente se separou mas manteve seu ventre encostado ao meu e ai eu senti um pulsar, o sobe e desce de sua respiração. Ali havia algo. Provavelmente uma emoção.
        Ela estava quase irreconhecível. Já não era uma adolescente sardenta mas uma mulher extremamente atraente aos olhos masculinos. O corpo ganhara contornos perfeitos e o biquíni branco contrastava com a pele morena.
        Ficamos um bom tempo relembrando fatos daquele passado e em alguns momentos tive vontade de chorar. É claro que rimos muito das bobagens que fizemos e nos entristecemos com o destino que alguns amigos daquele tempo tiveram.
        Disse-lhe que morava perto e se ela não tivesse compromisso poderíamos almoçar juntas, havia ali perto um ótimo restaurante que ela iria adorar. Tínhamos quase o mesmo manequim e caso não se importasse eu lhe emprestaria uma roupa. Como insisti muito ela acabou aceitando.

        Meu apartamento era agradável embora modesto mas ela achou lindo porque ainda morava com a mãe no subúrbio. Não havia casado porque não queria mesmo compromisso serio com ninguém. Mostrei-lhe o banheiro e fui pegar uma toalha. Quando voltei ela estava sentada no vaso urinando e me recebeu sem o menor pudor. Claro, éramos mulheres e não tínhamos pênis para comparar. Depois limpou-se, levantou-se deu a descarga e acabou de retirar a parte de baixo do biquíni. Em seu corpo  a marca do biquíni mais parecia uma tatuagem. Ficou de costas e pediu para que eu soltasse a parte de cima.
        Aproximei-me devagar, o coração aos pulos ainda sem entender o que me fazia olhar aquele corpo de um modo diferente. Não era a primeira vez que via outra mulher nua mas aquele corpo parecia um imã a atrair-me. Sem precisar, mas num gesto sensual, quase apelativo, levantou o cabelo deixando a amostra sua nuca. Com voz tremula tentando disfarçar, perguntei-lhe que perfume estava usando. Ela jogou devagar a cabeça para trás,  encostou-a em meu ombro  olhou-me nos olhos e com um leve sorriso disse:
- Não é perfume, é apenas o cheiro sedutor do meu corpo.

        A noite voltei á praia e fiquei muito tempo tentando ouvir do mar uma resposta para tudo que tinha acontecido. 


(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

Um comentário:

  1. Jéssica
    4 de novembro de 2012 01:18
    Li o conto "ímã", muito legalll!!!! Adorei!

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