Lembrou-se da palavra e quis rir.
Controlou-se. Intumescência. A primeira vez que tomou conhecimento dela
foi através do manual de sexo, edição publicada em 1946, que seu pai dera a sua
mãe quando estavam noivos. Olhou novamente para a mulher deitada na cama, as
pernas abertas e fixou o olhar no clitóris rosado, intumescido.
Quis sorrir novamente. O corpo da
mulher deitado sobre o remexido lençol de cetim azul parecia uma ilha cujo
ponto culminante era aquele pequeno apêndice que pedia para ser explorado,
conquistado.
Ela o olhava com o desejo nos
olhos, aguardando que, como o explorador Francisco Pizarro, que por ironia foi
o conquistador do Peru, com a sede dos conquistadores a devastasse. Mas ele,
naquele momento de calmaria, pensava nela mais como Cabral, tentando descobrir
o caminho para as Índias.
A palavra ainda boiava em sua
cabeça, como todos os corpos dos mortos no naufrágio do Titanic. Via o clitóris
intumescido, rosa como um bom rose que poderiam estar saboreando depois das
loucuras que haviam praticado sem entender a própria perplexidade.
Olhava o corpo pairando no lençol
azul como os astronautas da Apolo 13 devem ter visto a Terra durante os seis dias que ficaram presos no espaço. Queria ter também a mesma
esperança de sobreviver em meio aquele caos em que se metera. A ilusão da
calmaria no espaço não era a mesma presenciada por Cabral tão pouco a que via
entre as pernas da mulher a sua frente cuja vagina deixava escorrer um líquido
transparente e brilhoso.
Diante do intumescido clitóris,
sentiu-se pequeno. Todo seu pretenso conhecimento não representava
absolutamente nada diante daquilo que nunca pensou existir. Seu próprio pau
perdera a importância se comparado com a peça saliente, exposta, como que
comprovando o elo perdido das teorias freudianas sobre a castração feminina.
Olhou para o ventre que subia e
descia ritmado como o refluxo da onda que volta mansa para o mar querendo ser
empurrada novamente para a areia e sentir nesse atrito a espuma se formando.
Ele queria estar ali com a mulher refazendo tudo que já haviam feito. O beijo
sugado, o suor do corpo de um no outro, os dedos entrelaçados como elos de uma
corrente aquecida ao fogo e os sexos invadidos, úmidos, em chamas, até que os
sentidos perdessem o sentido e nada mais soubessem ou conhecessem. Somente
depois, o segundo, o minuto, e a vida voltando do outro lado, de um corpo para
o outro, fazendo-os entender que ainda estavam vivos.
A mulher apertava os dedos no
lençol azul, como leoa no cio afiando as unhas. O clitóris, como um terceiro
olho, aquele do mitológico deus Horus, que tudo via, olhava-o implacável,
aguardando para revelar a ele tudo que seu corpo precisaria fazer para achar o
tesouro escondido naquela pirâmide de carne.
Via no rosto da mulher, nos lábios que já se
mordiam o desespero do desejo não saciado e pondo fim aquela agonia, aquele
desejo de gozo, aproximou-se e ajeitando sua cabeça entre as pernas dela deixou que
sua língua guiasse seus instintos para
enfim, acalmar seu também caos interior.
(Sexo Virtual – Ivo Linhares)
Nenhum comentário:
Postar um comentário