sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sexo Virtual (contos)



Lembrou-se da palavra e quis rir. Controlou-se.  Intumescência.  A primeira vez que tomou conhecimento dela foi através do manual de sexo, edição publicada em 1946, que seu pai dera a sua mãe quando estavam noivos. Olhou novamente para a mulher deitada na cama, as pernas abertas e fixou o olhar no clitóris rosado, intumescido.
Quis sorrir novamente. O corpo da mulher deitado sobre o remexido lençol de cetim azul parecia uma ilha cujo ponto culminante era aquele pequeno apêndice que pedia para ser explorado, conquistado.
Ela o olhava com o desejo nos olhos, aguardando que, como o explorador Francisco Pizarro, que por ironia foi o conquistador do Peru, com a sede dos conquistadores a devastasse. Mas ele, naquele momento de calmaria, pensava nela mais como Cabral, tentando descobrir o caminho para as Índias.
A palavra ainda boiava em sua cabeça, como todos os corpos dos mortos no naufrágio do Titanic. Via o clitóris intumescido, rosa como um bom rose que poderiam estar saboreando depois das loucuras que haviam praticado sem entender a própria perplexidade.
Olhava o corpo pairando no lençol azul como os astronautas da Apolo 13 devem ter visto a Terra durante os seis dias que ficaram presos no espaço. Queria ter também a mesma esperança de sobreviver em meio aquele caos em que se metera. A ilusão da calmaria no espaço não era a mesma presenciada por Cabral tão pouco a que via entre as pernas da mulher a sua frente cuja vagina deixava escorrer um líquido transparente e brilhoso.
Diante do intumescido clitóris, sentiu-se pequeno. Todo seu pretenso conhecimento não representava absolutamente nada diante daquilo que nunca pensou existir. Seu próprio pau perdera a importância se comparado com a peça saliente, exposta, como que comprovando o elo perdido das teorias freudianas sobre a castração feminina.
Olhou para o ventre que subia e descia ritmado como o refluxo da onda que volta mansa para o mar querendo ser empurrada novamente para a areia e sentir nesse atrito a espuma se formando. Ele queria estar ali com a mulher refazendo tudo que já haviam feito. O beijo sugado, o suor do corpo de um no outro, os dedos entrelaçados como elos de uma corrente aquecida ao fogo e os sexos invadidos, úmidos, em chamas, até que os sentidos perdessem o sentido e nada mais soubessem ou conhecessem. Somente depois, o segundo, o minuto, e a vida voltando do outro lado, de um corpo para o outro, fazendo-os entender que ainda estavam vivos.  
A mulher apertava os dedos no lençol azul, como leoa no cio afiando as unhas. O clitóris, como um terceiro olho, aquele do mitológico deus Horus, que tudo via, olhava-o implacável, aguardando para revelar a ele tudo que seu corpo precisaria fazer para achar o tesouro escondido naquela pirâmide de carne.
 Via no rosto da mulher, nos lábios que já se mordiam o desespero do desejo não saciado e pondo fim aquela agonia, aquele desejo de gozo, aproximou-se e ajeitando sua cabeça entre as pernas dela deixou que sua língua  guiasse seus instintos para enfim, acalmar seu também caos interior.
(Sexo Virtual – Ivo Linhares)

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