Koike deixou a velha construção abandonada, que no tempo da guerra serviu como fabrica de munições,
logo após ter contado até cem, como o velho mandara. Era tarde e a estrada continuava deserta. Caminhou apressado pelo único caminho que parecia existir enquanto se lamentava por não ter pedido ao motorista do taxi que o esperasse.
Já havia caminhado algo em torno de
quinze minutos e durante esse tempo não havia passado nenhum carro que pudesse lhe dar
carona. Continuava andando e para despistar a apreensão que começava a tomar
sua mente, tentou recompor seu encontro com o emissário da irmandade. Seu andar cada vez mais lento indicava que seu
corpo não estava preparado para tamanho desafio. Olhava a estrada mal iluminada
e continuava andando cada vez mais lento. Sabia que não podia parar, devia
continuar andando até que realmente todas as suas forças lhe abandonassem e ai,
sem alternativa, procuraria um lugar para descansar.
Aos poucos notou que três vultos
caminhavam em sentido contrário ao seu. Gelou de pavor. Olhou para os lados e
não havia um desvio em que pudesse se meter e deixar os vultos passar. Olhou
para trás e nenhum sinal de qualquer veiculo que pudesse lhe tirar daquela
situação. Via os vultos cada vez mais próximos e cada um tomando parte da
estrada. Sentiu que o pior aconteceria. Não tinha como se defender, ainda mais
estando extenuado pela longa caminhada. Precisava pensar e pensar logo em algo
que o tornasse temido. Recolocou o paletó.
Apalpou os bolsos enquanto se
aprumava em busca de algo que pudesse usar como arma de defesa, entretanto, a
única coisa que tinha naquele momento era sua inestimável caneta de prata que Tomiko
havia lhe ofertado a poucas semanas, numa tentativa de vê-lo mais feliz.
Esperava que os homens a confundisse com uma pequena faca.
o nervosismo fez com que o suor de
seu rosto gelasse e conforme andava pisava com força, buscando dentro de si
todas as energias possível para enfrentar o que poderia estar por vir. A poucos
metros pode distinguir com mais clareza a fisionomia dos três homens. Um era
mais velho, os outros dois mais jovens com pouca diferença de idade entre eles.
Poderiam ser pai e filhos. Mas o que estariam fazendo naquela estrada aquela
hora? “não crie falsas esperanças Koike” disse a si mesmo enquanto tentava
deixar a ponta da caneta prateada a mostra. A poucos metros koike disse com voz
firme e impositiva:
- Ei,
vocês! Sabem se nessa estrada existe algum posto de gasolina?
Os homens diminuíram o passo e se
olharam. O mais velho continuou andando, um pouco mais devagar enquanto os
outros dois quase que pararam.
- O que
houve, ficou sem gasolina?
Koike viu naquela pergunta um mal
sinal.
- Sim,
acabei me perdendo e fiquei sem gasolina e pelo visto por aqui não passam
carros depois de certa hora. Sabe de algum posto ou local que possa fazer uma
ligação?
Aproveitou para limpar da testa o
suor com o braço em que segurava escondida a caneta. Precisava mostrar que
tinha uma arma, criar a dúvida se era um homem perigoso. Os outros dois rapazes
se aproximaram, ficando cada um cobrindo uma parte da estrada, indicando que
Koike não poderia passar.
- Não há
posto próximo. Você terá que andar muito até chegar a via principal.
- Não
tenho problemas com distancias. Já marchei muito.
Abriu um largo sorriso e concluiu:
-
Treinamento militar nos dá disposição. E vocês para onde vão?
O homem também sorriu e olhou para cada
um dois rapazes mais atrás.
- Lugar
algum.
Koike então pensou rápido. O mais
velho não seria tão difícil de derrubar, mas os dois rapazes poderiam pega-lo
com mais facilidade. Tentou avaliar qual seria o mais forte para que pudesse
com um golpe derruba-lo e fugir, entrando pelo matagal que parecia ser mais alto um pouco mais á frente .
- Por
aqui não se vai a lugar algum moço.
- Pelo
jeito não mesmo. Meu carro esta a dois ou três quilômetros daqui, ao passarem
por ele saibam então que não foi abandonado.
Koike fez uma ligeira reverencia e a
avançou firme em direção ao homem quando escutou um dos rapazes falar:
- O
senhor esqueceu de falar sobre o pedágio que cobramos para quem fica sem
gasolina.
Koike nesse momento derrubou o homem
e avançou agitando a caneta de forma a abrir seu caminho entre os dois rapazes
que se esquivaram enquanto koike saia correndo pela estrada. Instintivamente
todas as suas forças renasceram, mas logo começou a ouvir os passos dos rapazes
que em pouco tempo o alcançaria.
Desesperado, Koike tentava ver aonde
o mato era mais alto para que pudesse embrenhar-se por ele e ter uma chance de
escapar. Entretanto um dos rapazes o alcançou e desequilibrou-o fazendo com que
caísse. Sentiu um chute atingindo-o em suas costelas e a caneta prateada soltou
de sua mão. Koike ficou caído, procurando reagrupar suas forças enquanto os
rapazes recuperavam o folego. De certo esperariam o outro homem para saber o que fazer.
Koike respirava com dificuldade e ouvia
os rapazes insutando-o. Um deles ria. A adrenalina o fazia sentir-se feliz.
Ouviu-o falar que não era uma arma, somente uma caneta. Koike apertou os olhos
com raiva e tentou levantar-se mas recebeu outro chute que dessa vez pegou-lhe no peito.
Sentiu o rosto ardendo, a terra em
seus olhos, em seus cabelos, a falta de saliva, dificultando o ar que sugava
pela boca. Depois foi erguido com violência pelos rapazes enquanto o homem mais
velho lhe dava socos no estomago e o insultava.
A cada golpe Koike sentia que não
conseguiria resistir por muito tempo e acabaria desmaiando. Talvez quando
acordasse tudo estivesse terminado e estaria abandonado naquele lugar deserto.
Teria sorte se não o matassem.
Pensou em Tomiko. O que seria dela
se algo lhe acontecesse? Quem cuidaria dela? O que faria para sobreviver?
Queria buscar forças para reagir, entretanto, cada vez mais seus sentidos
pareciam falhar. Por um momento sentiu que o homem havia parado de bater e que
o arrastavam para algum lugar. Pensou ouvir muito longe uma espécie de motor
que gradativamente aumentava. Seu corpo desabou pesadamente no chão e por
instantes sentiu um enorme alivio. O barulho do motor cresceu e ele pode
reconhecer que era uma motocicleta que se aproximava. Uma nova vitima para
aqueles bandidos de beira de estrada. Lamentou não ter forças para avisar que
aquilo era uma emboscada.
Alguns segundos de silêncio e depois
movimentos de luta, de pessoas caindo. Gritos. Passos de quem foge. Reuniu
todas as forças que lhe restavam e num último esforço antes de desmaiar, viu surpreso
uma pessoa, toda de negro ao seu lado, tendo nas mãos uma antiga espada de
samurai.
(Fim da 61ª parte – continua)
®
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