sexta-feira, 11 de abril de 2014

MEUS MEDOS

Tenho medo daquilo que conheço e vejo antes de dormir.
Sinto quando fecho os olhos que minha cama é apenas uma pequena embarcação balançando a noite no meio de um oceano onde não há peixes mas pessoas nadando ao meu redor.
Estou deitada no convés olhando as estrelas sem me importar de estar perdida no meio do nada.

Não amo essa solidão, porém  é tudo que me restou para viver.
Viver além de todas as lembranças dos medos, dos pequenos fantasmas que criei, das pessoas que sufoquei enquanto levava meu dirigível Zeppelin para a estratosfera de todas as emoções que meu corpo não podia comportar.

Não amo a mim mesma e ao corpo que não me suporta e debocha dos meus sentimentos fazendo-me ser ridícula diante de todas as pessoas que convivem em harmonia no casamento do corpo e da alma.

Sou uma viajante das gotas de álcool que entorpecem o lado ruim da cabeça que comanda o corpo e o engana possibilitando que ele se transforme em um barco em forma de cama e faça ser quem quero ser até que o efeito da bebida se dissolva e me afunde na dureza dos lençóis em todas as manhãs que acordo só.

Tenho medo do pedaço de lua que se rasga por entre a cortina do quarto, como luz de um farol, e não me leva a qualquer outro destino que não é aquele que já conheço e vivo. Prefiro o sol que me queima a pele e me mostra sem retoques.

Não sou possível em qualquer mundo, nem mesmo no que inventei em viver.  Deixo rastros, pegadas que ninguém quer seguir porque não sou caça digna de virar troféu na parede para ser admirada enquanto tomam licor de gengibre e falam do prazer em serem caçadores.

Tenho medo da pouca felicidade que crio quando me masturbo e que mal fica em mim quando abro os olhos e vejo o subproduto que restou de meu gozo preso entre meus dedos. Vivo em partes, trancando portas, escondendo coisas que me ferem, amontoando caixinhas com tarjas pretas debaixo da cama para dizer aos pouquíssimos amigos que tenho um monstro morando comigo.



(SEXO VIRTUAL - IVO LINHARES)
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Um comentário:

  1. Dizer que mais uma vez fui sugada por esse conto pode ate parecer um clichê, mas não é, cada conto tem sua particularidade de nos toca de forma diferente... Simplesmente amei.

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