Mal
entro na sala e o advogado, com um inexplicável sorriso de satisfação estampado
no rosto diz:
- Foi passional. Mataram a dominatrix por vingança...
ou por amor.
Outra
vez sinto vontade de esbofeteá-lo por referir-se a mulher que amei com um
desespero que não era meu daquela forma. Fico séria e uma de minhas sobrancelhas
se ergue, num claro sinal de que estou irritada. Ele não percebe esse detalhe.
Ainda não me conhece bem para saber dessa particularidade.
- Não houve, depois desse crime,
nenhum registro de morte semelhante. Ou seja, não se trata de um serial killer;
A coisa foi pessoal.
Em
geral, as pessoas que se submetem a esse tipo de encontro querem ser dominadas,
são submissas. Portanto, não é provável que alguma delas matasse Sayuri por ciúmes
ou por amor. Vingança então, esta fora de cogitação.
- Existe também a hipótese de que
ela poderia estar chantageando um de seus clientes – diz o advogado enquanto
apruma-se na cadeira – e esse sim, seria um bom motivo para mata-la.
- Você a mataria por isso? –
Pergunto ainda com minha sobrancelha levantada.
- E porque não? Minha vida, meus
segredos.
- Segredos são a porta de entrada
para a vida das pessoas que tem medo. Só os livres não tem essa preocupação em
guardar segredos.
- Impossível que a senhora, por
exemplo, não tenha seus segredos e deseje mantê-los assim, ocultos.
Minha
sobrancelha se desmancha.
- Não senhor Koike, não tenho
segredos.
- Pode não ter os seus, porém, deve
guardar o de outras pessoas, como os da irmandade do olho da serpente.
Mantenho-me
impassível enquanto o olho por alguns longos segundos.
- A irmandade não é um segredo, é um
compromisso.
- Então qualquer um pode ingressar
nela?
Olho-o
fixamente bem dentro de seus olhos antes de responder.
- Só um tolo gostaria de assumir um
compromisso dessa natureza. A irmandade não é uma empresa que contrata, que
oferece benefícios, que promove as pessoas que participam dela.
Koike
me olha tão serio quanto pode.
- Se é tão ruim assim, porque entrou
para ela? Alguma vantagem deve ter.
Um
leve sorriso surge em meu rosto enquanto respondo.
- Ela apenas te protege. As vezes de
você mesmo.
(Fim da 56ª parte – continua)
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