quinta-feira, 8 de novembro de 2012

AMOR E MEDO (56ª PARTE)



        Mal entro na sala e o advogado, com um inexplicável sorriso de satisfação estampado no rosto diz:
-  Foi passional. Mataram a dominatrix por vingança... ou por amor.
        Outra vez sinto vontade de esbofeteá-lo por referir-se a mulher que amei com um desespero que não era meu daquela forma. Fico séria e uma de minhas sobrancelhas se ergue, num claro sinal de que estou irritada. Ele não percebe esse detalhe. Ainda não me conhece bem para saber dessa particularidade.
- Não houve, depois desse crime, nenhum registro de morte semelhante. Ou seja, não se trata de um serial killer; A coisa foi pessoal.
        Em geral, as pessoas que se submetem a esse tipo de encontro querem ser dominadas, são submissas. Portanto, não é provável que alguma delas matasse Sayuri por ciúmes ou por amor. Vingança então, esta fora de cogitação.
- Existe também a hipótese de que ela poderia estar chantageando um de seus clientes – diz o advogado enquanto apruma-se na cadeira – e esse sim, seria um bom motivo para mata-la.
- Você a mataria por isso? – Pergunto ainda com minha sobrancelha levantada.
- E porque não? Minha vida, meus segredos.
- Segredos são a porta de entrada para a vida das pessoas que tem medo. Só os livres não tem essa preocupação em guardar segredos.
- Impossível que a senhora, por exemplo, não tenha seus segredos e deseje mantê-los assim, ocultos.
        Minha sobrancelha se desmancha.
- Não senhor Koike, não tenho segredos.
- Pode não ter os seus, porém, deve guardar o de outras pessoas, como os da irmandade do olho da serpente.
        Mantenho-me impassível enquanto o olho por alguns longos segundos.
- A irmandade não é um segredo, é um compromisso.
- Então qualquer um pode ingressar nela?
        Olho-o fixamente bem dentro de seus olhos antes de responder.
- Só um tolo gostaria de assumir um compromisso dessa natureza. A irmandade não é uma empresa que contrata, que oferece benefícios, que promove as pessoas que participam dela.
        Koike me olha tão serio quanto pode.
- Se é tão ruim assim, porque entrou para ela? Alguma vantagem deve ter.
        Um leve sorriso surge em meu rosto enquanto respondo.
- Ela apenas te protege. As vezes de você mesmo.


(Fim da 56ª parte – continua)

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