Era um velho
tolo. Foi seu primeiro pensamento. Ou melhor, tornara-se um velho tolo, assim
como quando pequeno havia sido uma criança egoísta com seus brinquedos. Foi seu
segundo pensamento.
Eram cinco horas
da manhã. Esperou ouvir seu canário cantar para levantar e ir até a área para
deitar-lhe o alpiste, renovar sua água e vê-lo pular de um poleiro ao outro.
Não havia outro rumo dentro daquela gaiola.
Acordou com o
sol beirando o mármore encardido da janela. Olhou o relógio digital. Seis e
vinte e oito. Seis e vinte e nove. Ergueu-se devagar e apurou os ouvidos. O
silêncio dos domingos se fez presente ao seu redor.
Ajeitou o pijama
cujas listras desbotadas denunciavam uma convivência de muitos anos, de muitas
noites mal dormidas, de muitos sonhos sem nexo.
Passou pela
cozinha indo em direção a área arrastando as havaianas desgastadas, porém,
ainda incrivelmente confortáveis.
Olhou a gaiola
com o canário. O último.
Nem sabia mais
porque havia juntado tantos pássaros. Chegou a ter uns trinta.
Perdia a manhã
inteira cuidando deles como perdia outra parte do entardecer cuidando deles. A
menina que lhe passava a roupa divertia-se ouvindo tantos trinados diferentes,
cada um tentando ser mais belo e alto do que o outro.
A menina que lhe
passava a roupa não vinha mais. Agora, ele mesmo passava uma ou outra peça,
quando achava que precisava. Saia pouco. Caminhava até a padaria, ao mercado,
passava horas nos bancos das praças olhando as crianças, as pessoas, os cães.
A menina que lhe
passava as roupas era filha de africanos que moravam numa vila no mesmo bairro.
Uma menina de seus dezessete anos, olhos brilhantes, o corpo esguio como o da
mãe.
Primeiro era a
mãe que lhe engomava as peças, mas havendo conseguido um emprego na casa de uma
senhora passou á filha essa tarefa. O pai era mecânico na oficina do David, um
português que tocava guitarra nos fins de semana nos almoços do clube do
bairro.
Fechou os olhos.
Ainda podia sentir a presença da menina assim como o cheiro do ferro quente a
deslizar pela camisa. As mãos delicadas fazendo do pesado ferro apenas um
brinquedo de correr em suas mãos. No que será que pensava enquanto seu corpo se
balançava ao ritmo das passadas? Gostava
de vê-la por trás, as ancas mexendo-se num compasso, o vestido moldando-lhe a
cintura fina como se valsasse com o vento.
Abriu os olhos e
viu o canário morto na gaiola. Era o último que havia restado. Não o que
cantava mais alto e melhor. Mas era o último que sobreviveu ao tédio de todas
aquelas manhãs silenciosas de domingo.
Pegou o canário
e depois de alguns minutos o levou até a lata de lixo e jogou-o junto aos
restos de comida.
Requentou o café
de dois dias e o tomou de pé olhando a gaiola vazia.
De pijama mesmo
foi até o portão e colocou ao lado das latas de cerveja do vizinho a gaiola.
Podia agora, quem sabe, arranjar um cão pequeno que lhe roesse os móveis, lhe
sujasse a área com fezes secas e sem odor. Conforme lera outro dia numa
embalagem na seção de animais do supermercado.
Barbeou-se,
tomou banho, vestiu a roupa que usou há muitos anos quando trabalhava na
repartição.
Sentou-se diante
do computador e ficou vendo as últimas fotos que ela postara no facebook com o
rapaz fazendo caretas enquanto ela ria. Parecia feliz.
***
Rodou entre os
jazigos, entre os túmulos, vendo as datas. Lembrava-se dos anos, de cada dia
que pudera viver em seu anonimato de funcionário público prestando serviços
como um fantasma anônimo àquelas pessoas apressadas, quase sem rostos, como ele
próprio se via quando entrava na repartição.
Só existia mesmo
pela internet, naquelas salas de bate-papo onde era o que necessitava ser para
continuar vivendo como vivia. Como alguém que se engana permitindo-se ser feliz
pela incapacidade de não se ver invisível no espelho do banheiro toda manhã.
Seu Raul já não
era mais o doutor Alberto, o sedutor rico nas salas de bate-papo. Agora era
apenas uma menina africana morando em Angola que se correspondia com aquela que
havia despertado nele algo tão estranho quanto complexo para entender. E
dividiam confidencias, fotos, carinhos de amigas.
Seu Raul vivia
da doença de não ser mais ele, de não sentir como suas as emoções que cresciam
em sua cabeça. A fantasia não lhe permitia entender os motivos para não querer
sair daquela relação lhe fazia disparar o coração e em seguida faze-lo levitar.
Quando o cortejo
passou ele foi atrás. Pessoas choravam em silêncio.
A mão de seu
Raul no bolso do terno engomado segurava o último canário. Afinal, era justo
que ao menos aquele recebesse um enterro digno.
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